Não foram apenas as sondagens que se enganaram, o que não é a primeira vez. Todos os que fizeram exercícios de antecipação ou leituras da campanha – em que me incluo também – colocaram sempre de parte a possibilidade de Carlos Moedas vencer Fernando Medina em Lisboa. Claro que, e com certeza, com excepção de Moedas, da sua equipa e de Rui Rio, a vitória do PSD em Lisboa era um evento visto como de probabilidade super-reduzida. Mas os cisnes negros acontecem. Porque há dados e não somos capazes de ver? Ou porque nos afastámos da realidade? Muito provavelmente. E é essa a perspectiva sobre a qual vale a pena reflectir, como jornalista.

As sondagens começam também a ter um problema e as empresas que as fazem deveriam, igualmente, reflectir sobre os seus efeitos. Não são uma “vigarice” como diz Rui Rio, seguem técnicas e devem ser profissionalmente respeitadas. São é retratos do momento e, muitas vezes, limitamo-nos a olhar para as intenções de voto, sem nos preocuparmos com mais nada. Marina Costa Lobo diz no Público que a sondagem que ICS/ISCTE fez em Julho já revelava “a insatisfação dos eleitores, quer em Lisboa quer no Porto, em relação a problemas como a habitação, os transportes, os impostos e as taxas e o combate à corrupção”. Implicitamente recomenda que não se sobrevalorize as intenções de voto, considerando que “quem tivesse reparado nisto” via que algo não estava a correr bem.  Mas ninguém deu muito valor ao descontentamento, essa é que é a realidade. E, por isso, as empresas de sondagens deveriam igualmente perceber se estão a comunicar bem os seus resultados.

Mas a questão central pode estar na comunicação e na incapacidade que estamos a ter de captar o que se está a passar.

Um dos grandes terrores de qualquer jornalista é não detectar as mudanças, na prática, não identificar a notícia. Foi isso que aconteceu nos Estados Unidos, quando não se identificou a eleição de Donald Trump – com erros também das sondagens. É, ou foi, também esse o erro que se comete quando se fala do Chega. Obviamente que a comparação com o que se passou em Lisboa é manifestamente exagerada, mas serve como exemplo.

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Tudo o que li e ouvi a que acrescentei o conhecimento que tinha dos dois principais candidatos a Lisboa, levaram-me exactamente à mesma antecipação que a maioria tirou. Carlos Moedas não tinha qualquer hipótese. Mesmo vendo os debates, em que Fernando Medina surgiu sempre demasiado tenso e com pouca capacidade de se defender das críticas. Mesmo depois de a investigação da Sábado mostrar a agora ex-presidente da Junta de Freguesia de Arroios a não pagar as suas compras, a perspectiva não se alterou. De quase ninguém.

Temos, pois, um problema. Porque estamos a errar?

Uma das razões pode estar no jornalismo que hoje conseguimos fazer. A falta de recursos nos órgãos de comunicação social tem obrigado a limitar ao mínimo as reportagens. Os jornalistas fazem a cobertura das campanhas eleitorais basicamente ouvindo os líderes, sem tempo para olhar à volta e retratar o que vêem, a reacção das pessoas, o que dizem. Sabemos em detalhe o que disse o líder ou o candidato em campanha, mas nada sabemos sobre quem estava à sua volta. Eram pessoas que tinham sido mobilizadas pelo partido? Aproximavam-se ou afastavam-se do candidato?

Nesta campanha autárquica, em que os líderes do PS e do PSD estiveram muito presentes, reforçou-se ainda mais a tendência de concentração no que diziam ou faziam António Costa e Rui Rio.

Sim, é verdade que em Lisboa não foi assim. Mas Carlos Moedas deu demasiadas vezes a imagem de ter uma campanha pobre, com poucas iniciativas, de estar a correr sozinho. E foi esse o retrato que reforçou a ideia pré-concebida de que não tinha hipótese de vencer Fernando Medina. Não era verdade, ou como afirmam os estudiosos de política, a campanha acaba por ter pouca importância. Só tem efeitos se existir um evento muito marcante.

O que não nos apercebemos foi da dimensão do descontentamento, capaz de mudar o voto e ditar a vitória de Carlos Moedas. Este caso não é em si grave. Irrita Rui Rio e pode levar alguns militantes a construírem teorias da conspiração, mas não impediu que o resultado fosse aquele que os lisboetas quiseram. Mas este acontecimento, como outros, merecem que pensemos sobre até que ponto nos estamos a afastar da realidade. E como essa realidade um dia nos pode surpreender.