Perguntava-me uma jornalista esta semana se estávamos com uma boa performance na vacinação.

Bom, se a ideia é perguntar se estivemos bem a inocular 106 mil shots de vacina, nem sei que resposta possa dar. Se considerarmos ainda que estes shots foram dados entre profissionais de saúde e se avançou ainda para muitíssimo poucos lares, muito localizados, nem sei mesmo que resposta possa ser dada.

Todos percebemos, que se temos uma capacidade instalada de 300 mil shots ou tomas por semana, então há qualquer coisa que fica por explicar. Bastariam dois dias de uma semana útil de cinco dias para chegarmos aos 106 mil shots que já fizemos de vacinação. Simples aritmética (300 mil fazem-se em cinco dias, logo, 106 mil far-se-iam em menos de dois dias). Como é possível dizer que estamos bem em termos de vacinação se passou Dezembro e um bocado de Janeiro e só fizemos 106 mil inoculações? Não é possível, nem com base no número de vacinas que recebemos nem, a título de teste, com o tempo que demorámos a inocular com essas 106 mil doses. É que não demorámos dois dias, nem pouco mais ou menos, e mesmo tendo em conta as entregas desfasadas.

E porque não temos vacinas agora? Porque a fábrica europeia da Pfizer, que fabrica a vacina para a Europa, está a ser intervencionada para passar de uma capacidade de produção de 1,3 milhões de doses por semana para dois milhões de doses por semana.

Por cá, temos de esperar que cresçam as entregas, quer da Pfizer quer da Moderna, as duas farmacêuticas que já têm autorização europeia para produzir e distribuir.

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Porém, a questão central que se vai colocar muito rapidamente é se conseguimos acompanhar o que a Europa agora nos veio solicitar – esta semana mesmo. Ou seja, que tenhamos a população adulta vacinada no verão, i.e., a meio do ano.

Como já referi inúmeras vezes, a capacidade instalada prevista no plano é baixa. Com a capacidade instalada de 300 mil doses por semana estaremos no final de 2021, ou mesmo em 2022, a completar o processo de vacinação. Há, portanto, que alargar a capacidade instalada.

Porque precisamos de velocidade.

Ora, a velocidade é contrária ao número de critérios que temos no plano de vacinação, que deverá ser revisto em função do que esta semana foi pedido pela União Europeia e para o qual várias entidades já tinham alertado, nomeadamente a Ordem dos Médicos.

O plano tem demasiados critérios, quer na primeira quer na segunda fases. É clinicamente desejável atender aos doentes de risco, verdade. Mas operacionalmente não é compatível este número de critérios com a velocidade do processo.

Além do mais, gerir um processo baseado em critérios, onde será difícil encontrar quem sofre de uma dada patologia e cobrir todos os portugueses (atenção, que nem todos os portugueses estão cobertos pelo Serviço Nacional de Saúde e são, efetivamente, tão portugueses quanto os demais) irá demorar mais ainda o processo.

Só há um critério, um único, que nos garante o que queremos: idade. Esse critério garante velocidade e objetividade ao processo.

Depois de vacinados os profissionais de saúde, os primeiros e essa deve ser a única exceção, a par com os governantes de primeiríssimo nível (que não se percebe porque não aparecem no plano, dado que exercem cargos de decisão que são críticos numa altura como esta; deixemos a demagogia de lado) e que são em número reduzidíssimo (apenas Primeiro-Ministro, ministros, Presidente da República e Presidente da Assembleia da República e ninguém mais; atenção que não disse deputados, secretários de Estado, autarcas, e por aí fora; apenas referi os de primeiríssimo nível) deve passar-se à população sem quaisquer outros critérios que não o da idade. E alargando a capacidade instalada, pelo menos às farmácias comunitárias.

A idade garante velocidade. A idade garante que não há passagens à frente. A idade garante a comprovação rápida com cartão de cidadão ou bilhete de identidade. A idade é o critério mais democrático e abrangente, pois engloba todos, mesmo os que têm patologias mais sérias. Até porque a idade encerra em si mesma e está fortemente correlacionada com os demais critérios de doença. Quanto mais velhas são as pessoas, mais doenças apresentam.

Dito isto e aqui chegados, apelo novamente à boa vontade de quem fez este plano e o apresentou, inicialmente, como sendo mutável. Simplifiquem-se os critérios. Passe-se a um só critério. Alargue-se a capacidade e chamem-se as farmácias comunitárias para o processo. E vacinemos por idades – dos mais velhos para os mais novos.

Já agora, para gerir a capacidade instalada (qualquer que seja, será sempre exígua), e sem mandar sms às pessoas e tornar o processo complexo, moroso e difícil, devem ser fixados os possíveis locais de toma e registados numa base de dados única as pessoas que vão fazer as tomas (a base de dados do cartão de cidadão ou do bilhete de identidade é a melhor que existe porque engloba todos os portugueses e não apenas os que estão inscritos no SNS). Devem fixar-se e anunciar-se idades, dias e locais possíveis para tomas. Recorra-se ao que já se sabe do processo eleitoral e que já tem curva de experiência. Até porque existe um aplicativo pronto para consulta de “onde votar” e que pode ser migrado para “onde me vacinar”.

Deixe-se, por favor, o experimentalismo. Deixe-se, por favor, a grande complicação que será visível dentro em breve. Ainda vamos a tempo de mudar isto.

A bem de todos, por favor, olhe-se para o que se pode ter em termos de gestão de operações e logística.

Porque esta é a questão mais central que temos entre mãos e a única janela de esperança para o que nos está a acontecer.

Merece, pois, a contribuição de todos nós. Para que no verão, a população adulta esteja efetivamente vacinada e cumpramos com o objetivo que foi agora anunciado pela UE.