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También la verdad se inventa, dizia Antonio Machado y Ruiz, pensador e poeta espanhol do Modernismo. E é verdade que se inventa, e todos sabemos como são os caminhos daqueles que, de tanto mentir, chegam a acreditar que o que torcem e distorcem é mesmo verdade. Muitos dos grandes mentirosos nem se apercebem da quantidade de mentiras que inventam, tamanha é a cauda da besta que alimentam. A mentira é predadora e age em nós como um animal cobarde e velhaco, capaz de destruir sementeiras e campos lavrados, pisando e arrasando tudo na sua luta e correrias pela supremacia.

Aparentemente a mentira tem uma escala que vai da mais infantil e piedosa, à dos piores criminosos, passando pela ausência de verdade nas relações familiares e amorosas, pelas traições entre amigos, pelos jogos de máscaras socialmente aceites, pela dissimulação, omissão e inverdade de políticos, gestores, líderes, pares nas organizações, autoridades e outras figuras de referência. Claro que existem mentiras mais e menos graves, mais e menos censuráveis, dependendo de cada pessoa e suas circunstâncias, mas é interessante ler autores contemporâneos como Scott Peck, autor do best-seller O Caminho Menos Percorrido, quando sublinham que é um erro pensar no engano e na maldade em termos de escala. “Pode parecer menos censurável enganar os ricos do que os pobres, mas não deixa de ser um engano. Perante a lei, existem diferenças entre cometer uma fraude num negócio, entregar uma declaração de rendimentos falsa, usar cábulas num exame ou dizer em casa que se ficou a trabalhar até tarde quando se é infiel. É certo que uns enganos são piores que outros, mas na realidade não passam todos de mentiras e traições”.

Sermos verdadeiros connosco próprios e com os outros é difícil e dá trabalho. Por mais pequena que seja a mentira, por mais subtil que seja a dissimulação, a sua capacidade de corrosão é brutal. Importa distinguir que mentir não é apenas dizer falsidades. Mentir é esconder, omitir, trair, falsear, disfarçar e distorcer a realidade perante outros, mas também perante nós mesmos. Há quem minta com a mesma naturalidade com que respira, e para esses parece não existirem pesos de consciência. Se os têm transformam-nos rapidamente em sensações vagas, pedras cada vez mais leves e mais pequenas que atiram para caves interiores,  subterrâneos inalcançáveis da consciência, onde o seu peso deixa de se fazer sentir. Outros, que têm mais inclinação à verdade e fazem por cultivar essa atitude, interrogam-se como podem dormir descansados os que mentem compulsivamente, mas sabemos que os grandes fingidores há muito se especializaram na arte da pose e seus artificialismos. Acreditam no que fabricam. Tanto, tanto, que conseguem que muitos acreditem com eles. Posto isto e porque é inglório esperar que um mentiroso se converta à verdade, ajuda mais identificar os que mentem do que perder tempo a tentar condená-los. Basta saber que mentem, na certeza de que o bem e o mal são igualmente contagiantes, mas o bem é infinitamente mais luminoso.

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