“A dada altura, damos por nós a aceitar melhor que a vida tem camadas geológicas como a terra, que a vida se expande por tempos de formação ocultos à superfície, e que em todas as existências há uma crosta terrestre e metros e metros de filamentos, mergulhados no silêncio.” Pergunto-me se Tolentino Mendonça será como os escritores que dificilmente voltam aos livros que escreveram, ou se as frases que ficam a fazer eco em nós, leitores, também permanecem vivas na sua memória. Não sei.

E por não saber, cito este fragmento por me fazer sentido devolvê-lo ao autor nas vésperas da sua partida para Roma. Depois da surpresa do convite do Papa, para ser o responsável da Biblioteca Vaticana e do Arquivo Secreto da Santa Sé, e no auge da ressaca que muitos sentimos após a notícia de que só o teremos connosco, em Lisboa, até ao fim deste Julho, percebo ainda melhor os metros e metros de filamentos mergulhados no silêncio de que ele fala, e tantas vezes nos escapam por não se verem nem nos lembramos que existem sob a crosta do nosso quotidiano.

Tolentino é um homem, um padre e um poeta que todos conhecemos, mas também desconhecemos. Reservado e, por vezes, um pouco distante, começa tudo com um silêncio. Pode ser uma escuta ou uma espera, mas é sempre um silêncio. Um tempo para se colocar na recta atitude, para ouvir, para abraçar ou para simplesmente contemplar. Pára antes de falar e acredito que precise de um tempo ainda mais demorado para começar a escrever. As suas palavras, depois dos seus silêncios, são quase atordoantes. Fortes, belas, vibrantes, inquietantes, iluminantes e, quase sempre, transfigurantes.

Transfigurar também é converter e isso é o que Tolentino melhor sabe fazer. Fala de coração e braços abertos a todos, sejam crentes ou descrentes. Escapa às regras, às modas e tendências dentro e fora da Igreja, mas não porque crie o seu próprio cânone ou goste de se distanciar das normas vigentes, do fundamento Absoluto. Muito pelo contrário. Escapa como Jesus escapava. Por amor. Por acolher todos e ir ao encontro de cada um, onde quer que cada um esteja, tal como está. Sem perguntas, sem devassas nem preconceitos.

Este artigo é exclusivo para os nossos assinantes: assine agora e beneficie de leitura ilimitada e outras vantagens. Caso já seja assinante inicie aqui a sua sessão. Se pensa que esta mensagem está em erro, contacte o nosso apoio a cliente.