O espaço público noticioso e as redes sociais estão já tremendamente ocupados por temas sociais, nomeadamente os relacionados com questões raciais, de igualdade de género, de orientação sexual, entre outros – os temas que muitas vezes são referidos como os constantes da agenda woke.
Qualquer um dos temas elencados é de meridiana elementaridade para qualquer pessoa moderada, democrática e com o mínimo sentido de liberdade individual – numa sociedade que se considera livre deve haver respeito pelas etnias minoritárias, igualdade entre homens e mulheres, e nenhuma discriminação em razão de orientações sexuais. No entanto, a esquerda e a extrema-esquerda têm invariavelmente manipulado estes temas para servir propósitos políticos de fação, tão comummente assumindo a atitude de que apenas eles pugnam pela igualdade, eles e mais ninguém.
Há dois pontos importantes que a esquerda ainda não aprendeu: (1) os temas acima referidos não são seus exclusivos, e (2) os temas acima referidos não são os únicos, nem os mais relevantes para a governação do país.
Mas, na luta imparável contra o preconceito, na guerra sem quartel à discriminação, na missão inalienável de defender a igualdade, há um paradoxo em que a esquerda pateticamente incorre. É que, porquanto os partidos de esquerda são os primeiros soldados na linha da frente do combate ao preconceito, são também os primeiros a gerar outros tantos tipos de preconceito que melhor servem – acham eles – a sua agenda política “progressista” (com muitas aspas).
Veja-se o combate à entrada dos estrangeiros ricos, os que têm chegado a Portugal através de mecanismos como, por exemplo, o regime do Residente Não Habitual (RNH) – aliás, foi por demais inaudita a indignação com a selfie de Paulo Núncio com Max Verstappen na Comporta. O principal argumento é o de que estes parasitas afortunados vieram aumentar o preço do mercado imobiliário – um estudo da consultora Athena Advisors de 2023 frisa que os RNH «não inflacionam preços das casas», e que as compras de imóveis por parte dos RNH representam apenas 7,9% do total de compradores estrangeiros. Por sua vez, a compra de casa por estrangeiros em Portugal representou 4,9% das transações no segundo trimestre de 2025. Menos um mito.
Mas não esquecer as «borlas fiscais» de que beneficiam estes malandros suecos e finlandeses! O regime RNH – agora substituído por um seu sucedâneo, o IFICI – prevê uma tributação reduzida de IRS, é um facto. Facto também é que, com toda a probabilidade, estes estrangeiros ricos, que gastam o seu dinheiro em Portugal e instalam as suas empresas em Portugal, nunca viriam para o nosso país, não fosse este regime.
Mas o que interessam dados reais e análises racionais de benefício económico, quando o preconceito do estrangeiro rico funciona tão bem?
No entanto, igualmente censuráveis aos olhos dos guardiões da virtude são os portugueses ricos. Não esquecer o slogan escolhido por Mariana Mortágua na campanha às Legislativas de 2025 (nas quais o resultado do BE foi particularmente interessante): «Taxar os ricos».
Ora, num país em que a carga fiscal representa cerca de 36% do PIB; num país onde o salário médio ronda os 1.700€; num país onde quem ganha 3 mil euros por mês é tributado à taxa de IRS marginal de 34,9%; um país onde um salário mensal de 3 mil euros se vê depenado em perto de 1/3 por retenção na fonte de IRS e contribuições à Segurança Social; num país onde as empresas podem pagar uma taxa efetiva de IRC de até 30%, fora as tributações autónomas – de que ricos estamos mesmo a falar? E quanto mais queremos mesmo tributá-los?
Mas há uma ainda nova classe de indesejáveis que apareceu recentemente no discurso isento de preconceito da esquerda: os jovens ricos. Há-os aos magotes em Portugal, como sabemos.
As medidas para ajudar na compra de habitação que o primeiro Governo de Luís Montenegro aprovou, e que têm apoiado dezenas de milhares de jovens a adquirir habitação própria, não podiam passar em claro para os soldados da igualdade. Rapidamente cresceu o discurso de que o Governo subsidia jovens ricos para que eles comprem casa de forma facilitada.
O problema deve ser de fasquia, muito sinceramente. O salário médio bruto anual dos jovens portugueses é de 17 mil euros, 29% menor do que a média da UE. 75% dos jovens portugueses ganham até mil euros. Só 3% dos jovens ganha mais do que 1.600 euros líquidos por mês. De que jovens ricos estamos mesmo a falar? E quão menos queremos facilitar a vida deles?
Adquirir uma casa de 400 mil euros – e já não há muitos T2 a este preço em Lisboa – sem qualquer isenção fiscal ou sem garantia pública, implica um investimento só em despesas iniciais na ordem dos 65 mil euros. Quantos dos 97% de jovens que ganham menos de 1.600 euros por mês conseguem ter 65 mil euros para adiantar por uma casa?
São apenas alguns exemplos para demonstrar o declínio político e dialético da esquerda. O ódio pelas classes “altas” (de novo, julgo haver um problema de fasquia) não permite que a esquerda saia deste paradoxo.
A guerra em Gaza é terrível, a discriminação em razão da raça ou orientação sexual já devia estar erradicada, Trump é ignorante e assustador, os imigrantes devem ser integrados com dignidade. Tudo certo. Mas e o português? Que trabalha todos os dias para ganhar salários míseros, que vê os filhos a receber mal, altamente tributados e sem capacidade de poupança, para serem depois considerados ricos por uma esquerda delirante e sempre ressentida?
O que é que a esquerda, depois de lutar contra todos os preconceitos reais e imaginários no mundo, tem para dizer aos portugueses? Que deve haver mais impostos ainda, que os seus filhos não devem ter apoios à habitação, e que o que importa é que a agenda woke seja cumprida. Preconceitos, preconceitos, preconceitos.
O preconceito de que o estrangeiro rico vem estragar o país. O preconceito de que garantir 10% do crédito à habitação de um jovem é subsidiar os jovens ricos. O preconceito de que aliviar o IRS de quem ganha 2 ou 3 mil euros mensais é beneficiar os ricos, quando Portugal deve ser mesmo o único país europeu onde estes salários são excecionais.
É também esta a cultura política que a certa altura se instalou em Portugal, a de que há preconceitos bons e preconceitos maus, e que os bons são – naturalmente – os advogados pela esquerda, que se arroga mesmo de ver a virtude nos seus preconceitos.
O último suspiro da extrema-esquerda portuguesa está por horas, e as razões não são difíceis de perceber: uma total deriva woke e um alheamento completo dos reais problemas do país; e, sobretudo, a inevitável realização pelos portugueses de que a governação do país consiste em mais do que defesa das causas LGBT, chavões vazios sobre imigração, e ressentimento intrínseco pelos “ricos” que, percebemos agora, são os nossos amigos, irmãos, pais, filhos – porque, para a esquerda, todos somos ricos se não formos pobres. Que português se revê nesta política ou nestes propósitos?