No livro V d’ A República (462b), o filósofo Platão vê o cimento da sociedade na reacção idêntica dos cidadãos ao mesmo acontecimento, um não se pode alegrar quando o outro se entristece. «A comunidade de prazer e de tristeza não os une, quando os cidadãos, no maior número possível, se regozijam e se afligem igualmente com as mesmas vantagens e perdas? – Absolutamente – respondeu ele. – E não é o individualismo destes sentimentos que os divide, quando uns sofrem profundamente e outros se regozijam em extremo a propósito dos mesmos acontecimentos públicos ou particulares?»

A igualdade do sentimento é a ligação das diferentes pessoas. Que essa igualdade não pode ser absoluta sob pena de destruir a própria polis foi clarificado pouco tempo depois por Aristóteles. Claro que numa sociedade livre há uma amplitude de variação nos sentimentos, que não só é inevitável como é até desejável. Por essa razão, quando se verifica uma divergência nos sentimentos entre os cidadãos, surge por vezes um equívoco. A diferença subjectiva, sentimental impõe-se de tal maneira que não se consegue compreender que a reacção responde, sob a aparência do mesmo, a outro objeto. Neste caso, a variação quantitativa dos sentimentos galgou os limites que lhe eram tácita e retrospectivamente atribuídos; a mudança passou a ser qualitativa. Trata-se de um mal-entendido hermenêutico quase inescapável, em especial quando o cidadão que aparentemente pensa crê avaliar o concidadão que meramente sente.

O primeiro julga saber a origem dessa diferença e deposita a sua fé no esclarecimento intelectual do segundo, que ficará, depois da devida lição, em condições de reagir adequadamente.  Está restabelecida a ligação como ela deveria existir. A diferença dos sentimentos não passou de uma anomalia temporária, desprovida de um sentido intrínseco.

Em casos um pouco mais lúcidos, a aula teórica faz-se acompanhar de exercícios práticos de aplicação. O cidadão que sente tem as suas razões, está insatisfeito, é preciso mudar a sua vida, para que ele possa então reagir correctamente. Os cidadãos pensantes reconhecem, com alguma humildade, que há necessidades por satisfazer, aspirações não cumpridas, expectativas a atender. De qualquer modo, o problema está circunscrito e tem solução. Pode demorar algum tempo, mas eles são nossos. Intelectualmente subalternizados, nem sequer é preciso ouvi-los, quanto mais escutá-los. Até porque se trata de gente pouco educada e economicamente desfavorecida, segundo o diagnóstico da corte.

Mas a incapacidade para o diálogo é, como tão bem mostrou um filósofo num ensaio com esse título, o veredicto pronunciado por quem se vê confrontado com uma recusa de obediência intelectual: a destituição do outro como sujeito encerra o próprio numa esfera que não pode ser posta em causa. As análises finas dos cidadãos pensantes decretam a resolução do problema: é necessário tão-somente aplicar a receita que trazem na algibeira. Tudo se resume a pagar o preço que, olhando apenas para si, julgam necessário para restaurar a unidade. A lógica assenta no suborno, que reduz ainda mais a autonomia dos outros – manda quem paga. De espírito toldado pela privança com o príncipe e pelas luzes dos estúdios de televisão, com vista cansada, os áulicos ainda não entreviram que no sentimento há também um pensamento, e que esse pensamento tem um objecto novo. Talvez um dia compreendam o que mudou – quando for demasiado tarde.