Le portugais. Tinha 69 anos, emigrou para França nos anos 90 e foi morto ontem num ataque terrorista na cidade francesa de Mulhouse. Nas notícias ele é “Le portugais”. Sabe-se que se interpôs entre o atacante e os polícias que este último tentava esfaquear. A família de “Le portugais” já recebeu as habituais condolências das habituais autoridades, neste caso portuguesas e francesas: Macron declarou que se tratava dum atentado terrorista sem sombra de dúvida e Marcelo definiu o sucedido como um ataque de ódio.
Mas algum dia se terá de passar dos pêsames para a responsabilização e para as perguntas. Como foi possível que Brahim estivesse naquela praça, neste sábado de Fevereiro de 2025, e empunhando uma faca e uma chave de parafusos agredisse quem lhe aparecia pela frente enquanto gritava Allah Akbar? Na verdade Brahim A. não só estava duplamente sinalizado pelas autoridades como nem sequer deveria estar em França pois havia contra ele uma ordem de expulsão desde 2023: Brahim A. que nasceu na Argélia chegou ilegalmente a França em 2014. Tornou-se conhecido das autoridades quando, em 2023, um mês após os ataques do 7 de Outubro, se filmou nas ruas de Mulhouse apelando à jihad e à luta pela Palestina. O vídeo que ele mesmo publicara no facebook colocou-o sob a mira das autoridades. Foi julgado e condenado a seis meses de prisão. Cumpriu quatro e acabou inscrito no registo das pessoas sob obrigação de deixar o território francês (OQTF). Dez vezes tentaram as autoridades francesas que fosse recebido no seu país de nascimento, a Argélia. Dez vezes a Argélia recusou recebê-lo. É então que Brahim ganha o seu segundo registo: passa a FSPRT ou seja está sinalizado no ficheiro para a prevenção da radicalização de caracter terrorista. Portanto Brahim que já era OQTF torna-se FSPRT. Acumulava registos e referenciações sem qualquer outra consequência além da acumulação de códigos e apresentações regulares no comissariado de polícia. A expulsão para o seu país natal continuava sem ter lugar.
Ontem, 22 de Fevereiro, Brahim “l’algérien” sinalizado pelas autoridades e com uma ordem de expulsão do território francês, pegou numa faca e enquanto gritava Allah Akbar feriu cinco pessoas e matou uma, “le portugais”. Qual o nome de código para isto: PGPHI (Países governados por hipócritas irresponsáveis)
Yankees Go Home! E eles foram! Depois de décadas em que por esta Europa se gritou Yankees Go Home!; Nem Nato nem Pacto de Varsóvia (o Pacto de Varsóvia era aqui uma espécie de truísmo porque o que contava de facto era o “Nem Nato”); Portugal fora da Nato já!… e outras tantas palavras de ordem tão gauche quanto caviar, eis que os yankees nos fazem a vontade e se põem a caminho de casa.
Numa fracção de segundo, o mundo europeu, sobretudo aquele que não proferia o Yankees Go Home! mas que achava impopular e desnecessário incluir na agenda e na discussão as políticas de defesa e as questões militares, entoou um coro de indignações e perplexidades em que ressoava em tom ora de lástima ora de despeito algo como Yankees, please return.
Na verdade todos sabemos que agora é tarde. Os yankees estão de regresso a casa. Ou talvez mais exactamente a preparem-se para se focar noutros locais do mundo. Obviamente que a aliança atlântica não está morta mas é ainda mais óbvio que o presidente que suceder a Trump na Casa Branca, seja ele Republicano ou Democrata, não vai voltar a assumir a segurança da Europa como até aqui. O nosso mundo mudou. Só não sabemos em que sentido.