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Começa agora mais uma comissão de inquérito das manhãs 360, hoje com casa cheia. São nossos convidados Margarida Vila Nova, Maria João Lobo de Carvalho, Alexandre Borges. São os autores do novo podcast da Rádio Observador, as Desobedientes, que estreia hoje depois do jornal das 14h. Bom dia, bem-vindos.
Bom dia.
Olá, bom dia.
Bom ano.
Estúdio cheio, que bom! Mais do que cheio, isto é uma maravilha. Alexandre até está aqui à parte no banquinho.
Isto prova que há muitos desobedientes.
No anexo. Já sabem como é que isto funciona. São cinco perguntas, cada resposta certa vale cinco pontos. Se pedirem a nossa ajuda e acertarem, recebem dois.
E se pedirmos ajuda dos outros?
Também podem, sim.
Aliás, o melhor método é vocês conferenciem até chegarem a uma resposta e depois dizerem qual é a resposta.
Está bem. A Margarida é a porta-voz, o Alexandre é quem tem que dizer.
Tu tens a resposta final, Alexandre.
E eu atribuo o jogo.
Exato.
Muito bem. Só chegar o microfone do Alexandre mais perto. Vamos lá. Virgínia de Castro Almeida é uma das figuras de que vão falar no vosso podcast. Foi a primeira mulher a pedir o divórcio em Portugal, a primeira guionista, que teve também uma produtora de filmes. Como se chamava?
A produtora.
Invicta Filmes.
Não. Acho que é Fortuna.
Fortuna Invicta foi aquela. É Fortuna Filmes. Qual é a resposta final?
É a resposta Fortuna.
Tem a certeza absoluta?
Tem certeza? Não é Invicta?
Não.
Não é do Porto? Não, é a Fortuna Filmes. Está certíssimo.
Ufa!
A Invicta tínhamos mesmo que errar.
É tudo que eu consigo de manhã. Salvar a honra do mosteiro.
Já está, Alexandre, já fizeste. O novo podcast que estreia hoje parte do livro da Maria João, "As Revolucionárias: 12 Mulheres Portuguesas Desobedientes". Quem é que da atualidade podia fazer parte desta lista?
Da atualidade? Da atualidade somos imensas.
Há muitas desobedientes.
A Leonor Beleza, por exemplo, lembrando. Maria de Belém, também. Deixa cá ver mais. É que a gente lembra depois de política.
Só da oposição, ministras da Saúde.
Por acaso, tem razão. A Lídia Jorge, por exemplo. A Rita Ferro é super desobediente.
Vocês escolheram algumas das mulheres que semearam e tem havido frutos. Há muitas mulheres hoje em dia.
Agora há muitas. E depois fomos mais para trás ainda, eu até estive a pensar se podíamos recuar ainda mais. E aí tínhamos algumas, a Josefa de Óbidos, por exemplo.
O que é comum a estas 12 mulheres é que todas atravessam a Primeira República, umas até a monarquia e depois o Estado Novo. Mas o que têm o denominador comum é que todas atravessam a Primeira República, por isso recuamos aqui alguns anos na história.
Desbravaram caminho, de alguma maneira.
Sim, abriram portas a outras tantas mulheres.
De uma maneira mais consistente das anteriores, do século XVIII, a Marquesa de Alorna, a Leonor Pimentel. Estas de uma maneira mais consistente. Eu acho que estas foram mesmo as que rasgaram caminho para a minha geração, boomer, nasci em 62, podermos todas ir para a universidade, se tivéssemos acesso à universidade perto. No interior era mais difícil, mas no fundo era abrir uma carreira, abrir uma porta para nós podermos estudar e para nós podermos contribuir para o país com as nossas profissões, já de uma maneira generalizada. Mas foram elas as primeiras. A minha avó fazia parte desta geração e estava em casa. Portanto, o meu aplauso e a minha admiração e inspiração por estas, e eu acho que quem nos vai ouvir, certeza que vai ser tocada por uma ou por outra.
Porque, no fundo, talvez pela importância que elas tiveram, é um estranho que conheçamos tão mal estas mulheres.
No fundo, o que a história faz é apagar mulheres. Infelizmente, no passado apagou muitas mulheres. E se não formos nós e outras como nós, mais curiosas, a desbravar caminho, elas continuariam apagadas da história, não é? Sim, acho que é importante perpetuar na história estas mulheres que abriram caminho a tantas outras mulheres. São estas 12 que agora vão ser apresentadas em formato podcast. Poderiam ser tantas outras, mas estas abrem, de fato, a porta a tantas outras mulheres. E perpetuar na história, porque, na verdade, fazem parte da identidade do nosso país e da nossa cultura. Quer seja na Justiça, na Educação, na Política, todas elas tiveram papel determinante.
E, Margarida, na literatura infantil.
Sim.
Eu conhecia em pequenina alguma delas, como a Virgínia, que estávamos aqui há pouco a falar, pelos livros de literatura infantil, que eram da minha mãe, que eram do meu pai, que me chegaram, na altura em que havia pouca coisa. E foi aí que eu fiquei a gostar delas. A Dona Redonda, eu nunca mais me esqueço da Dona Redonda. Eu acho que aqui no estúdio alguém leu a Dona Redonda.
Ainda não. O dia está a começar agora. Nós não fizemos o trabalho de casa.
Mas era muito giro, era tipo Alice no País das Maravilhas à portuguesa, era mesmo uma história divertida.
E quem é que faz o quê no podcast?
Eu vou ver a bola.
É o Alexandre agora. Como é que é, Alexandre, trabalhar com estas duas senhoras?
Está pelas cotas, o Alexandre.
Eu estou feliz por terem-me escolhido a mim para representar esta cota. Eu não sei, eu sou a pior pessoa para responder a essa pergunta, mas o que é que cada um faz? A Maria João sabe.
Não, não vou dizer, agora dizes tu.
A Maria João sabe as coisas e eu e a Margarida conversamos com a Maria João.
Não, eles estão a ser modestos, não é nada disso. Eu escrevi o livro, mas depois deste acho que vim mais cinco, portanto, tenho que estudar tudo de novo. O Alexandre faz o enquadramento histórico maravilhosamente, vão adorar. Eu algumas coisas até aprendo, que o Alexandre é mesmo bom, fala devagar, tem esta voz super sexy. Ui, engravida uma pessoa só com a voz.
Aí às vezes temos que nos conhecer.
Acho que é isso que eu estou a fazer.
O Alexandre é o cupido.
A Maria é quem faz.
Eu sempre estou numa aula de História. Vou para casa, estudo de uma a uma, para não começar a confundir as histórias todas. Vou para casa, estudo, fico impressionadíssima. Depois abro a porta: "Ah, então deixa ver quem é o tio. Ah, então deixa ver o outro. Ah, e o Ramalho Ortigão". Obriga-me a perceber o contexto histórico, político, social, econômico da época. E depois chego e tenho uma aula de História com eles, faço as perguntas.
Outra modesta. Não, a Margarida fala e é absolutamente redentora, portanto, já não apetece, eu com a voz de cana rachada, dizer mais nada, porque ela pega nas frases, algumas que nós achamos mais, todos os três achamos mais inspiradoras e lidas pela Margarida, é o Nobel.
Só ela a dizer Toyota.
Eu nunca ia conseguir. Como é que ela consegue?
É o patrocinador, convém dizer. Só tem que enquadrar.
Ela depois começa na conversa fiada e já muda o tom de voz.
Já é um feito de fabrico.
E vai buscar aquela coisa que eu não reparei nunca enquanto escrevi, nem enquanto li, nem enquanto estudei, aquele pormenor, a Margarida vai buscar e dá pano pra mangas. Portanto, acaba por ser pouquíssimo o tempo que nós temos para cada uma.
Tantas razões para ouvir. Acontece mesmo. Mas nós vamos trazer aqui mais uma pergunta, porque isto correu muito bem, mas ainda é a primeira. Vamos a outras desobedientes. Quem foi a primeira mulher a ganhar um Prêmio Nobel?
Selma, não sei o resto do nome. A sueca Selma Petterno?
O Prémio Nobel, não disse de Literatura.
Ah, Nobel da Literatura.
Não necessariamente.
Selma...
Lagerlöf.
Lagerlöf. Boa.
Mas não foi a primeira mulher a ganhar o Nobel.
Sim, sueca. De Nils Holgersson.
Sim, Nobel de Literatura, foi. Agora, a primeira portuguesa a ganhar.
Não.
A primeira mulher.
Ganhar um prémio Nobel qualquer, a Maria Kurie?
Muito bem. Sim.
Nem conferenciaram. Não fosse eles dar ideias.
Ela foi desobediente.
Há muitas características interessantes também aqui nesta história, porque ela foi não só a primeira mulher a ganhar um Nobel, mas foi a única personalidade a ganhar dois Nobels, sendo que o primeiro não pode ganhar sozinha por ser mulher e o marido teve que ganhar o marido também.
Isto é uma boa dica. E nós os três já conferenciamos isto. Muitas delas, das nossas 12 desobedientes, só foram o que foram, a Margarida vai completar a frase melhor do que eu.
Porque tiveram um grande pai, um grande marido ao lado, que acreditaram nelas e que viram nelas umas visionárias, inteligentes, intelectualmente preparadas e investiram nelas. Isso é bonito de ver.
Mas isso também quer dizer que precisaram quase da autorização masculina.
Não, isso precisavam sempre. Mesmo no geral, precisavam sempre, quer uma, quer outra, precisavam sempre da autorização dos seus parceiros.
Eram apoiantes delas. Eles apoiavam, incentivavam, ajudavam.
Financeiramente, até. De alguma maneira.
Os pais, sim. O pai da Ana de Castro Osório, por exemplo, vai financiar a primeira editora dela e é assim que ela consegue editar, escrever todo o seu trabalho.
Ó Margarida, conta a história de amor dos Pirinéus, que é linda, da Carolina. Sim, quando ela passou os Pirinéus a pé. Ele! O marido da Carolina.
O marido. E a outra, que o marido vende tudo na Figueira da Foz.
A Clara de Azeit.
A Clara de Azeit vende tudo o que há de terras na Figueira da Foz para o marido, para que ela possa estudar medicina. E o da Carolina Michaelis Vasconcelos, que só se conheciam por cartas, e resolve, Alexandre, tu sabes tão bem a guerra carlista, atravessar a Espanha e chega aos Pirinéus, à guerra carlista que se dá, não há transporte. Foi a cavalo até à Alemanha, Berlim, até à Prússia, para conhecer a mulher por quem estava apaixonado. Durante 13 dias.
Alexandre, isto quer dizer que por trás de uma grande mulher há sempre um grande homem?
Nem sempre.
Às vezes atrás de duas grandes mulheres, há um grande homem. Quero ser eu nesse lugar. Apesar de tudo, há histórias felizes e outras menos felizes. O que nós temos reparado, até muitas vezes, é que a gente vai vendo: num episódio, o marido desta era fixe, no outro o marido desta era uma peste. No outro era fixe, no outro era uma peste. Mas muitas vezes, de facto, se não era o marido, havia o pai, ou nalguns casos, foi depois da viuvez ou depois da separação, que acaba por haver um florescimento, acaba por haver o espaço para isso.
Agora, quando nós damos por garantido podermos ir para a universidade e aquelas que foi a primeira vez que puseram um pé na Universidade de Coimbra, eu nunca teria esta autoconfiança para passar por cima das capas que os estudantes deixavam no chão e de aplaudir por ser a primeira aluna de Direito, a primeira aluna de Medicina, a primeira, e tinha que ir com o irmão e tinha que se vestir sobriamente para não suscitar méritos.
E estamos a falar, desculpa João, essa história da primeira mulher na universidade, isto foi há um século?
Sim, 1800 e tal.
Já tinha as universidades para aí há 600 anos.
Claro. E com uma autorização do magnífico reitor.
Sim, foi preciso escrever, explicar muito bem. Mas depois, ela formou-se logo, a Domitila de Carvalho, já agora, formou-se em três cursos, só assim, para começar. Medicina, Matemática e Filosofia. Também três coisas simples.
Coisas simples. Qualquer uma.
Imaginem ser a única. Imaginem que é preciso de confiança. Ela queria ser não só a única, mas ela queria ser a melhor.
Vocês é que nos podiam ter feito as perguntas.
Desculpa, é verdade!
Tinha tanta informação que valia a pena.
Bem, vão com 10 pontos, portanto.
Eu ganho 25.
Esta é uma citação. Vocês foram ameaçados que iam ter algumas citações para perceber quem é o autor. Este é um clássico. "Ninguém nasce mulher, torna-se mulher".
Simone de Beauvoir.
Fechou. Estava apenas a esperar pela conferência.
Senti firmeza.
Este é um clássico. É verdade, isto é mesmo assim?
É, ninguém nasce desobediente, torna-se desobediente. Ninguém nasce revolucionária, torna-se revolucionária. É assim, é todo um processo e um caminho que temos de fazer. Concordam?
Sim.
Claro.
Com esta confissão.
Tens razão.
Eu não era assim. Eu era obediente pela família em que tinha nascido e rapidamente percebi que tinha que fugir de casa. Entre aspas.
Mas o papel das mulheres ainda é muito ditado por aquilo que a sociedade julga que deve ser o papel das mulheres. Hoje.
Hoje já estamos um bocadinho melhores, mas não está o trabalho concluído, mas sim, ainda há determinadas famílias, determinados meios, não é generalizado. Há mais hipóteses de sermos desobedientes dentro do sistema, mas há muitos sítios, e há muitos lares, e há muitas cidades e há muitas famílias em que-
Sim, mas ainda há um caminho a fazer em igualdade e em oportunidade. Mas a desobediência rima com feminismo, estamos a falar da mesma coisa? Como é que vocês lidam com essa palavra?
Não sei, digam vocês.
Com a palavra feminismo?
Sim.
Eu li muito bem no sentido em que eu entendi sempre que o feminismo é a luta pela igualdade de direitos.
E não o simétrico do machismo.
Exato. Tal e qual. Obrigado. É a melhor maneira de o pôr. De repente, nos últimos tempos falou-se menos disso, mas a ideia de haver uma espécie de vingança ou de ajuste de contas, acho que não faz sentido, como em geral, os ajustes de contas com a história não fazem sentido. Não são as mesmas pessoas, não se corrige um erro com outro. Agora, a ideia da luta por direitos é tal e qual. Era isso que dizia a Maria João e que é espantoso que ainda seja assim, e às vezes a aumentar a desigualdade de ordenados entre homens e mulheres, por um conjunto de razões, que em cada uma delas fica evidente mais um preconceito. Muitas vezes é porque os homens trabalham em setores mais rentáveis, é porque os homens ocupam mais os lugares de chefia do que as mulheres.
E como é que vocês olham para esses movimentos que também existem, por exemplo, que fazem a apologia de um regresso da mulher ao seu papel tradicional dentro da família?
É verdade que isso há e está a vir cada vez. É evidente, para uma família numerosa, é melhor ter uma mãe em casa. Isso é evidente. Caso possa, se a mãe se sente inspirada e vocacionada para ser uma mãe em casa, ótimo para os filhos. Não pode haver melhor fórmula. É uma decisão.
E também pode estar a exercer a sua liberdade fazendo essa opção.
Pode, é uma escolha. Se existe um pai e uma mãe, e se o pai consegue a economia da família por si só, para as crianças é ideal ter uma mãe em casa. Não estamos a dizer menos que isso.
E se for um pai em casa?
Também. Eu acho que ter um dos pais em casa é sempre melhor, até uma determinada idade, em que obviamente faz-lhes bem ter o convívio com outras crianças e ir para a escola. Mas não acho que venha daí mal ao mundo, acho que é uma opção. É preciso mais famílias, é preciso natalidade. É verdade. Tudo isso, as medidas que se possam fazer para promover a natalidade.
Mas para isso temos que ir ao Alexandre Borges.
Com esta inovação, o Alexandre sempre a inovar. Depois do votómetros. Agora faz inseminação artificial.
Há a expressão popular, que é aprender pelos ouvidos.
Exato. Estava mesmo a saltar à frente da baliza, obrigado.
Já estou a imaginar a oferecer uma t-shirt com essas palavras.
Atenção, meninas que estejam a ouvir este podcast. Se quer mesmo ouvir estas duas vozes, tanto a Margarida e o Alexandre.
Vamos avançar para a quarta pergunta. Esta é um bocadinho ao lado, mas vão perceber. Qual foi o primeiro vídeo a passar na MTV? MTV que agora acho que estão a dar as últimas. Mas quando deu a primeira, por assim dizer, qual foi?
Video Killed the Radio Star.
Está certíssimo.
Como é que tu sabes coisas? Sabes, Alexandre!
Vês, é isto. Podias perguntar ou isto ou sobre o Benfica.
Mas estou curioso é pela relação que o Bruno faz com. É rádio, é precisamente a rádio. Aqui a ligação é à rádio, porque este podcast é parte de um livro da Maria João Lobo de Carvalho. Como é que foi fazer essa passagem de um meio muito diferente do outro?
Sim, é um desafio, claro, mas aqui com a ajuda do Alexandre e da Margarida é tudo mais fácil, porque tivemos que sintetizar, no fundo, tornar pequenina uma história que ocupa no Podocspark 20 páginas, cada uma, e pegar naqueles momentos mais sexys, mais inspiradores, mais emocionantes. Passámos ali por uns casos, quase que nos comovemos os três.
Sim, e tornar uma conversa, e acho que não é uma enciclopédia, não pretendemos dar uma aula de história a ninguém, mas lançar pontes para diálogo, para construção de pensamento, para que depois cada um ir estudar a história das suas favoritas ao longo destes 12 episódios.
Não, e para se entusiasmarem. Vamos ver agora quantas crianças nascem chamadas Maria Amália.
Maria Amália de Azevedo Carvalho, que é a primeira.
E o que é que podemos esperar? Um episódio, uma personagem?
Não, um episódio e uma personagem. Mergulhamos e estamos com ela ali no estúdio.
E vocês trabalham de forma muito guionada ou muito improvisada?
Alexandre?
Guionista de serviço.
A gente guiona imenso e depois ignora. É a melhor maneira.
O improviso dá muito trabalho.
Não, nós desobedecemos ao próprio guião, e fazemos muitos apartes e por vezes o Alexandre começa a dizer que está o tempo a acabar, e nós nem aí vamos.
Tu és o controlador do tempo.
Eu também tenho essa missão. Eu faço tudo, Maria João, obrigado por.
Parece-me difícil, Alexandre.
Não, é isso mesmo. E tentamos interceptar com outras coisas, da atualidade ou que venham a propósito ou enfim, do contexto histórico, e terminamos sempre no momento em que aquela personagem conhece a personagem do episódio seguinte.
Estão ligadas.
É assim como as "Mil e uma Noites".
E nós adoramos a frase que o Alexandre fez de ponto de partida, diz tu que a tua voz é mais gira.
Não, diz tu.
As boas meninas vão para o céu, as más mudam a história. Pronto, eu agora com este delivery péssimo.
As boas meninas vão para o céu, as más mudam a história. É isso que nós queremos, é meninas más. Meninas boas não.
Meninas más que façam algo pela história.
Façam algo pela história, sim. Façam a revolução.
Vamos lá à última questão.
Bem, vocês vão aos 25.
Esta também é um bocadinho fora, mas qual foi o estadista que disse: "Um Estado forte é a primeira necessidade, mas não há Estado forte onde o governo não o é."
Essa agora. Estamos a falar de um estadista?
Um estadista.
Agora não podemos ajudar muito. Pode repetir, Paulo. O Alexandre está aqui para repetir.
"Um Estado forte é a primeira necessidade, mas não há Estado forte onde o governo não o é."
Estado forte com governo não é forte com governo é que estava.
Estado forte. Governo forte.
Nós podemos pedir a ajuda do tio?
Alexandre, o que é que disseste?
Salazar.
Está certíssimo.
Nunca! Aplausos. 25 pontos.
Eu ia perguntar era português?
Se eu respondia isso, depois tinha aqui como alternativa se vocês pedissem Napoleão e Júlio César. Eu podia inventar logo dois estadistas portugueses.
Nem sempre precisamos das três opções.
Não precisam.
Se tem Alexandre, tem tudo.
Completamente. Abrindo agora um bocadinho mais a lente, ainda somos um país do respeitinho, de alguma maneira?
Ai, sim.
E agora...
Independentemente de género.
Independentemente de género, para homens e mulheres, nota-se muito ainda.
Sim, não me quero chamar um pensamento pequenino ou burguês ou conservador.
Com a bota de laço.
Mas ainda somos muito obedientes. Às vezes falta-nos um rasgo, falta-nos coragem, falta-nos ousadia.
Somos muito certinhos.
Somos pouco disruptivos. Sim, somos muito certinhos. Acho que o medo é o nosso pior inimigo e acho que vivemos tempos de medo e que nos bloqueiam ou prendem os atos, as ações.
Isso também tem que ver com a pobreza do país, porque há pouco estávamos a falar precisamente das condições que estas mulheres dispuseram para serem desobedientes.
Algumas vieram mesmo da maior pobreza. E geografias muito diferentes. Neste caso, das nossas 12, não é uma condição. Viver numa cidade e ter dinheiro. Talvez a mais impressionante seja a Domitila Carvalho, a tal que veio de Elvas e que o namorado lhe deu de presente de noivado uma gramática e que fez só a quarta classe depois de casada e foi o marido do exército.
Sim.
Que vendeu as terras que tinha de família.
Para ela estudar.
Muitas delas, eu acho que está 50/50. Que as condição social e económica elevada e as mais pobres.
O que também é muito interessante descobrir.
E sobretudo estive a ver as geografias e são dispersas pelo país inteiro. Não há uma matriz, que possamos dizer, que as condiciona. A única condicionante que nós tivemos aqui na história ao escolher este lote, foi de só serem mais ou menos mulherzinhas na Revolução, em 5 de outubro de 1975.
Ficaram muitas de fora?
Para a escolha do livro, sim, como o podcast é um bocadinho anual.
Mas para a escolha do livro, sim, havia mais mulheres. Pode haver aqui uma segunda temporada.
Uma segunda temporada e era giro também para ir para trás e ir para a frente.
Avançar no tempo ou recuar.
Ou recuar, também é engraçado. Mas eu continuo a dizer, Margarida, por causa da história das mulheres.
Margarida.
Não, por causa de uma coisa que a Margarida disse, que eu estava a dizer que é importante, de facto, as mulheres serem disruptivas, porque eu acho que dando mais palco às mulheres, dando mais voz às mulheres, isto dava uma volta, dava uma grande volta.
Dava. Há quem diga que as mulheres, por exemplo, quando vão para a política, ficam iguais aos homens, às vezes pior.
Ficam, até então murros na mesa com mais facilidade, então. Só para nos lembrarmos que nós, mulheres, agora desculpem lá os cavalheiros neste estúdio e quem nos está a ouvir, nós, mulheres, somos metade do mundo, concordam? E mães da outra metade, portanto, bola baixa. Somos tudo. Somos metade, somos mães da outra metade.
Esse argumento é imbatível.
Imbatível. É isto, deem voz às mulheres e vão ver.
Então por que as mulheres não têm tanta voz?
Olha, muitas vezes-
Porque as mulheres inteligentes e capazes assustam os homens. Porque eu acho que uma mulher empoderada, inteligente, intelectualmente independente, financeiramente independente, intimida os homens. E porque eu acho que ainda falta alguma sororidade, algum empoderamento feminino, alguma empatia, eventualmente, porque tivemos que combater umas com as outras, em vez de combatermos ao lado umas das outras para ascendermos aos cargos políticos, os grandes CEOs das grandes empresas. E, portanto, acho que eventualmente é uma questão de tempo na história, embora a história se repita constantemente e é muito engraçado ao ler o livro e ao trabalhar dentro do podcast, ver como é que ciclicamente a história se repete e as lutas são as mesmas.
Algumas parece que estamos a falar hoje. Estamos a ler as frases delas e parecem que podem ter sido ditas hoje.
Isso é um bocadinho assustador. Ou triste.
É isso que temos que dar mais voz às mulheres. A história da maternidade, estávamos há pouco a falar, tem que se repartir tarefas, obviamente. Mas eu acho que as mulheres não devem ter medo, mesmo. Acho que devem lutar pelos seus direitos, acho que devem dizer o que quiserem. Eu acho que o 25 de Abril serviu para alguma coisa, não? Pelo menos para termos liberdade de dizermos o que quisermos, não?
Sim.
Pronto, para sairmos de casa, fazermos por este país, eu acho que é tornar este mundo melhor. É essa a frase.
Então fiquem com esta mensagem. Maria João Lobo Carvalho, Margarida Vila Nova e Alexandre Borges, obrigada por terem aceitado o nosso convite. São os autores do novo podcast da Rádio Observador, As Desobedientes, que estreia hoje, logo a seguir ao Jornal das duas. O primeiro episódio é sobre Maria Amália Vaz de Carvalho.
Uma das grandes.
Uma das grandes, pioneira na educação das portuguesas, foi a primeira mulher a entrar na Academia de Ciências e deu nome ao primeiro liceu feminino em Portugal. Obrigada aos três. 25 pontos.
Obrigado.
Espetacular.
Obrigada.
Parabéns, totalistas.
Graças a ti.