Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

E na comissão de inquérito de hoje recebemos Paula Cosme Pinto, autora, consultora de comunicação, comentadora e apoiante de Catarina Martins na corrida a Belém. Bem-vinda, Paula.

Bom dia.

Bom dia.

É um enorme gosto estar convosco. Estava aqui a confessar-vos que eu fico muito nervosa com este vosso programa, porque eu sou aquela pessoa que bloqueia a jogar Trivial. Portanto, há aqui uma grande probabilidade de enxovalho público.

Nós ajudamos.

Estamos cá para ajudar. Exatamente. Vamos às regras. Vamos fazer cinco perguntas, cada resposta certa vale cinco pontos. Pode pedir a ajuda do público.

Somos nós.

Somos nós. Se acertar, recebe dois pontos. Se não acertar, não recebe nada. Esclarecida?

Esclarecidíssima.

Vamos a isso.

Uma mesmo fácil para começar bem e para mostrar que isto não custa nada. O Tribunal Constitucional já se pronunciou. Há 11 candidatos às eleições presidenciais, certo? Quantos são mulheres?

Uma.

Esta é oferta.

Esta é mesmo.

Aliás, eu acho que é importante fazermos essas contas. Às vezes é preciso ir um pouquinho à matemática quando falamos das temáticas também da igualdade de gênero. Caramba, nós há mais de 100 anos que temos uma república em Portugal. Não só nunca tivemos uma mulher presidente da República, como esta é a quinta mulher que se candidata à Presidência da República. Portanto, isto tem de nos fazer refletir.

E nestas eleições há menos do que nas últimas.

E há menos. E tivemos ali um intervalo entre a primeira e as duas que se sucederam de 30 anos. Não me digam que em Portugal, em mais de 100 anos, não existiu uma única mulher com competências profissionais e políticas para assumir um cargo destes.

Mas se calhar não quiseram. Por que as mulheres não avançam?

O que também nos leva a pensar: se nós não temos o exemplo dentro da esfera política, se continuamos a ter uma representatividade feminina muito baixa, e depois não é só a questão da representatividade, é todo o escrutínio que é feito às mulheres, que é substancialmente diferente do dos homens. E os tempos das mulheres também não são os tempos dos homens. É muito difícil para uma mulher dar um passo em frente quando sabe que a sua vida vai ser escrutinada, quando a sua aparência vai estar sempre em xeque, mais do que o que ela diz é a sua aparência. Portanto, há aqui um bolo que é bastante diferente para uma mulher para tomar uma decisão destas. Catarina Martins está agora na corrida e sabe que o escrutínio que há em relação à sua candidatura é substancialmente diferente do que o dos outros candidatos. Talvez no caso dela menos, porque tem uma presença política já de muitos anos na esfera portuguesa. Portanto, já é uma figura conhecida e com muitas provas dadas. Mas para as mulheres é muito mais difícil.

Esse escrutínio nota mais em que temas? Tirando a questão da avaliação da aparência física, isso parece óbvio.

Mas que é um grande tema.

Sem dúvida.

Uma mulher que vai, por exemplo, fazer uma apresentação pública. Um homem pensa no quê? O que eu vou dizer, o conteúdo, as minhas ideias, as minhas sugestões, as minhas propostas para o país.

E depois se põe uma gravata ou não e pronto.

Exato. Não interessa muito se leva uma gravata. E os homens, desculpem dizer, mas podem ser muito básicos a vestir nestas questões. Levam um fatinho, uma gravata e pronto.

E se calhar é isso que eu faço de alguma maneira. Não sei por que a Paula olhou para mim.

Porque eu é o único de camisa, acho eu. Não, estou de bata.

Os dois.

Uma mulher tem que pensar naquilo que vai dizer, mas também como é que vai aparecer, como é que vai o cabelo, se o decote é grande, se não é, se leva maquiagem, se não leva, se pintou o cabelo, se não pintou, se tem as unhas pintadas, se não tem. Portanto, tudo isto é avaliado. Isto é uma canseira, entendam, é uma canseira. Temos aqui duas mulheres.

É uma canseira. Eu vejo ali a Ana a concordar comigo. Mas há um escrutínio também muito maior ao profissionalismo, às capacidades intelectuais, às capacidades políticas. Por quê? Porque isto é como se ainda não fosse o nosso lugar. O lugar das mulheres, e ultimamente estamos a ver este discurso a voltar com grande força, o lugar das mulheres é em casa, é na esfera doméstica. Isso é transversal à esquerda e à direita, ou as mulheres que estão na política de esquerda são mais escrutinadas, são mais criticadas do que as que assumem lugares igualmente relevantes, mas à direita?

Eu acho que é transversal. Não nos esqueçamos que também existem muitos esquerdomas. É uma expressão que nós usamos a brincar, mas é verdade, o escrutínio existe em ambos os lados. Acho que as mulheres à esquerda têm dado passos muito mais progressistas do que as mulheres à direita. Mas à direita também temos mulheres que são ótimos exemplos. Por exemplo, Mónica Ferro, para mim é uma referência. Não só é uma grande amiga, como é uma mulher que admito, tem um percurso fantástico, é uma mulher que embora continua a pertencer ao PSD, tem ideias, por exemplo, quando falamos de interrupção voluntária da gravidez, que vão muito contra aquilo que o partido defende e que tem feito todo um percurso nos direitos femininos, pela igualdade de gênero, etc, que está nas Nações Unidas. Portanto, há mulheres à direita que também fazem esse percurso, depois temos outras, como a Rita Matias, por exemplo, que não se compreendem.

Mas não são as próprias mulheres que também fazem esse combate cerrado às outras mulheres do outro espectro político, do outro espectro ideológico?

Eu acho que este combate cerrado é feito por homens e mulheres. É esquerda contra a direita, direita contra a esquerda. Eu acho que perdemos todos, acima de tudo, a população e a vida política com isso. Eu acho que se nos tentássemos um pouquinho mais a concordar que discordamos, mas vamos arranjar soluções, se calhar o país andava para frente mais depressa. Se calhar se centrássemos a discussão nas necessidades da vida da população, se calhar ganhávamos todos com isso, mais do que egos, mais do que tachos e tachinhos. Acho que ganhávamos todos com isso. Pronto, cinco pontos.

Cinco pontos.

Faço ou faço mal.

Esses foram dados. Já pode respirar de alívio.

Exato.

E limpar aquela gota de suor na testa. Paula, em que mês se realizou a segunda volta das presidenciais de 1986? Mês.

Ui! Eu nasci em 84.

Não estava lá.

Digamos que a minha memória desses tempos se resume certamente-

Mas tem de se falar tanto destas eleições.

Se for lá pela lógica, não erra.

Não, confesso que não sei o mês.

Segunda volta.

Mas o calendário presidencial nunca é diferente.

É fixo, o calendário.

É muito fixo. Não há eleições antecipadas.

Segunda volta.

Primeira volta, segunda volta, são sempre os mesmos meses. Isto já é dizer tudo.

A segunda volta faz-se quanto tempo depois? Agora é uma boa pergunta. Essa é uma boa pergunta. Olha que agora apanharam-me mesmo na curva.

Quer ajuda, Paula?

Quer ajuda.

Quer ajuda?

Eu diria que é em fevereiro.

Então está certo. Diria muito bem.

Eu não queria dar-- eu acho que é. É o quê? Agora é o quê?

É em fevereiro.

É um mês, mas é um mês depois.

Não chega a um mês.

Não chega a um mês. Há uma semana de pausa e depois as duas semanas de campanha. Em princípio, nesta será 8 de fevereiro, se houver segunda volta.

Muito bem. A Paula está envolvida diretamente nestas eleições, é apoiante de Catarina Martins. O que distingue Catarina Martins do candidato da área da esquerda mais bem colocado nas sondagens, António José Seguro?

Bom, eu diria que há o momento da Troika e das medidas da Troika, que mostram muito a diferença entre estes dois candidatos e qual é o seu foco. Eu acho que Seguro se alinhou muito mais nessa altura com o governo e pôs um bocadinho de lado as consequências, nem que fosse simbólicas. Não estava dependente da decisão do Seguro o pacote da Troika ser aprovado ou não. Mas simbolicamente é um sinal que não está a olhar para o prejuízo que isso traria à vida das pessoas. Catarina Martins tem isto que a mim, enquanto eleitora, enquanto cidadã, até porque não sou uma mulher da política, não tenho vida partidária, que sempre me agradou, que é: Catarina Martins ouve a população, tem essa capacidade da escuta ativa, do interesse real pela vida das pessoas e de todas as pessoas. Ou seja, tanto é uma mulher que tanto está à porta de uma fábrica com trabalhadores que estão à beira de ser despedidos, como senta com o dono da fábrica e tem uma conversa real com ele sobre arranjar soluções. A perspectiva da Catarina parece-me sempre essa: vamos arranjar soluções que tenham o mínimo de prejuízo possível para a vida das pessoas, para todas.

E o eleitor que se situa na área da esquerda olha para a Catarina Martins e imagina-a em Belém a ser diferente do que de António José Seguro?

Assim de caras, acho que é uma mulher que tem muito mais capacidade de fazer pontes, de abrir diálogo. Aliás, Catarina Martins foi essencial na altura da geringonça, para pôr pessoas que nunca falariam umas com as outras, a falar diretamente e a trabalhar em conjunto. E o trabalho de um presidente da República, neste caso, de uma presidente da República, é criar pontes, é abrir debates, é gerar diálogo, é pôr pessoas a conversar, é centrar o debate. E eu acho que nisso Catarina Martins é uma mulher inteligentíssima e tem essa capacidade de pôr pessoas a falar. Vamos dialogar, vamos resolver os problemas do país pelo diálogo.

E António José Seguro não.

António José Seguro não me parece que tenha tanto essa capacidade.

Mas essa capacidade de diálogo não existiu agora antes de se anunciarem as candidaturas, no sentido de haver um único candidato de esquerda ou um candidato apoiado por vários partidos de esquerda. O que é que impossibilitou que houvesse essa união à esquerda?

Bom, eu acho que já foi muito falado. Acho que se esperava muito que Sampaio da Nóvoa avançasse e que fosse o grande representante da esquerda. Não aconteceu. António Filipe partiu para a linha da frente sem abrir diálogo. E a partir do momento em que há um elemento que também não abre esse diálogo, não se tenta criar aqui uma estratégia de esquerda, é óbvio que começam a ter de surgir opções. A Catarina Martins acaba por ser quase impelida a partir para esta candidatura.

E agora está a ser quase impelida a desistir em favor do candidato de esquerda, que pode passar à segunda volta.

Não. Catarina Martins está para ficar até ao fim.

Ficará? É uma boa opção para os eleitores de esquerda?

Sim, nós temos falado muito da questão do voto útil. Eu não acho nada que o voto útil seja sequer justo para os eleitores. As pessoas têm de votar nas presidenciais por convicção e não porque dá jeito ou para escolher o mal menor. Esta é uma campanha, é uma corrida política que é sobre valores, é sobre pessoas, muito mais do que sobre partidos. Mas as legislativas são sobre partidos.

Mas há uma matemática eleitoral.

Exato. Já pensaram no drama de numa segunda volta ter que escolher entre dois candidatos de direita e provavelmente um deles de extrema-direita?

Mas já pensaram que se as pessoas votarem por convicção e não estiverem espartilhadas na questão do voto útil e vamos dar um jeitinho, que se calhar até podemos ter surpresas na noite eleitoral? Pode acontecer. Nós já vimos grandes mudanças em presidenciais, grandes reviravoltas. Eu sou sempre pelo pensamento positivo, vamos falar assim a linguagem do povo. Eu, enquanto eleitora, quero votar por convicção. Claro que não me agrada nada um cenário de uma segunda volta em que eu tenha duas pessoas em quem eu não quero de todo ter de votar, mas há uma primeira volta, portanto pelo menos que na primeira se dê essa liberdade aos eleitores de fazerem esse voto por convicção.

Muito bem, então seguimos.

10 pontos.

Então vamos para os 15 pontos agora com a próxima pergunta: quem é o criador dos famosos sapatos que têm a sola vermelha?

Isso é de fazer uma vida de saltos altos. Sabem que a vida de saltos altos quando me foi proposta no Expresso, isto diz muito sobre a vida das mulheres no espaço público e mediático. Era: "Não queres fazer um espaço assim levezinho sobre aquelas coisas que as mulheres querem ler? Sobre moda, batons, sapatos." E então eu sugeri ser a vida de saltos altos e depois dei uma reviravolta no que eu queria escrever.

No conteúdo, claro.

Sim, eu conheci-a há não muito tempo.

Pois é mesmo. Já aqui falámos como é muito mais difícil para as mulheres estar na vida política e no espaço público também é?

É. Sem sombra de dúvida. Se vos dissesse a quantidade de insultos, ameaças, difamações que tive ao longo destes quase 15 anos a escrever sobre igualdade de género no espaço público, quer dizer, qualquer um de vocês certamente ficaria com pena de mim, que é um sentimento péssimo para se ter.

Mas Paula, são pessoas autênticas ou são mesmo pessoas que se inventam?

São pessoas autênticas.

São bots?

Não.

Poderiam ser bots mobilizados.

As críticas às mulheres ainda assumem uma natureza diferente, porque nós sabemos que vivemos um período muito polarizado em que as pessoas utilizam as redes sociais de forma muito agressiva, mas no caso de ser uma mulher a escrever, a dar a sua opinião, as críticas ainda têm uma natureza diferente.

A cartilha machista está toda nas críticas que nos são dirigidas, a nós, mulheres, porque é muito distinto. Tem sempre a ver com: "volta pra cozinha". Já me disseram isto, sei lá, já perdi a conta. "Volta pra cozinha, és mau, F..." Três pontinhos que não vou dizer aqui em direto na Rádio Observador, que acho que não é bem o fórum. "Não tens um homem que te satisfaça, arranja um homem", é o costume. "Só estás a escrever aí porque dormiste com alguém. És feia."

Ou dormir a mais ou a dormir a menos.

Ou dormir a mais ou a dormir a menos. Enfim.

Mas está pior, Paula? Isto está pior?

Agora está a piorar. Eu acho que nós tivemos um momento em que isto abrandou. É giro, porque eu como já estou há muitos anos a escrever na esfera pública, consigo perceber os picos, as flutuações. Antes do movimento Me Too era uma selvageria.

Selvageria no sentido de que os comentários eram mais...?

Sim, sei lá, "deves ser violada em grupo", esse tipo de coisas, numa base diária, constante. Mas pessoas com a foto com a mulher e os filhos ao lado e escreviam. Ia dizer que trabalham na Câmara Municipal não sei onde. As pessoas sentem-se à vontade. Há uma normalização tão grande.

O que é que fez a essas mensagens?

Olha, eu já tive vários momentos. Houve uma altura que eu tirava muitos printscreens e falei com vários advogados. Eu não me importava de dar o corpo às balas, chamemos assim, ser um exemplo e tentar fazer justiça. O que me disseram é que mais facilmente, pois sou eu escrutinada, e tudo isto é trazido a público, e a minha vida, a minha família, que é algo que eu sempre protegi, eu não exponho nada da minha vida privada naquilo que faço publicamente, mais isso seria escrutinado do que propriamente conseguirmos chegar aqui. Depois, o universo online carece de uma legislação ainda muito forte para tudo o que seja o ódio online. Aliás, a diretiva da Comissão Europeia, que foi aprovada antes da mudança de mandato, no que toca à violência online, especificamente sobre as mulheres, tem muito o enfoque nisto, que é todos os países, os Estados membros vão ter de legislar nesse sentido, porque nós sabemos então agora com a inteligência artificial que isto está a piorar outra vez. Depois houve o Me Too, e com o Me Too abrandou, porque acho que foi quando as mulheres finalmente foram ouvidas.

Que nunca pegou cá em Portugal de alguma maneira.

Não.

Basta ver o caso do Boaventura Sousa Santos.

Boaventura Sousa Santos, Faculdade de Direito de Lisboa.

Agora temos um manifesto assinado por não sei quantos intelectuais, que a mim me deixou verdadeiramente chocada.

Incluindo muitas mulheres.

Incluindo muitas mulheres e incluindo profissionais que já se dedicaram a estas matérias, que no fundo põem aqui um pano branco em cima da dimensão do abuso e dos tentáculos do abuso, e como tudo isto acontece, e da normalização abjeta que há na nossa sociedade, de tudo o que envolva a violência de género, seja a sexual, seja a doméstica. É muito grave. Nós estamos mais preocupados em fazer a defesa da honra do potencial agressor do que acreditar quando temos uma, duas, 10, 20, 100 mulheres a dizer que aquele homem foi um agressor.

E como é que os jovens estão nessa matéria?

Eu vou muito a escolas falar sobre estas matérias. Muito curiosamente, nunca posso dizer que vou falar sobre feminismo, porque senão teríamos ali paizinhos enfurecidos à porta da escola e mesmo as direções não deixariam, mas falo muito sobre bullying. E aquilo que eu noto é: os rapazes e as raparigas estão com muita dificuldade em conversar uns com os outros. Aquela série "A Adolescência", nós podemos achar que é um exagero e não é. Aquilo faz parte da nossa realidade atual. Nós temos uma bomba-relógio em mãos, que ou todos coletivamente, pais, educadores, professores, olhamos com atenção e tentamos arranjar estratégias ou vamos ter um problema a curto, médio prazo, até porque depois está muito ligado à radicalização à extrema-direita.

Vamos falar do tema da violência doméstica na quarta pergunta.

Sim, vamos a isso.

E a pergunta é: em que ano o crime de violência doméstica passou a ser público em Portugal?

Essa é fácil, porque é um grande marco. É 2000.

2000. Certíssimo.

É um grande marco. Aliás, uma medida, não faço parte do Bloco de Esquerda, mas há que dar aqui um palco ao Bloco de Esquerda. Foi uma proposta do Bloco, que sempre esteve nele. Agora também como a violência sexual é crime público, têm sido medidas alavancadas por este partido, que realmente tem tido uma visão mais progressista e muito alinhada na defesa dos direitos das mulheres.

Estamos a falar de uma alteração significativa na legislação, mas já tem 25 anos. Que caminho foi percorrido até aqui e o que é que ainda falta percorrer? Parece que, pelo que acabou de dizer, a Paula não traz uma perspetiva muito otimista sobre o que pode vir aí nas gerações futuras. A mudança de comportamentos.

Eu costumo dizer que sou estupidamente otimista, neste momento estou a ficar um bocado estupidamente pessimista, até porque nós podemos mudar as leis, podemos criar políticas públicas, mas as mentalidades serão sempre as últimas a mudar.

O caso da Madeira.

O caso da Madeira. E mais facilmente vamos criticar aquela mulher do que vamos criticar todo o sistema que está à volta e que não permite àquela mulher libertar-se da relação tóxica que tem com aquele homem.

Mas viu-se muito agora nas reações a esse caso, já depois da decisão do tribunal em libertar o agressor. Muitas das críticas que eram feitas eram dirigidas à decisão ou à opinião da mulher.

Claro. E aí é que reside o problema. As vítimas de violência doméstica, assim como as vítimas de violência sexual, sabem que têm muito mais a perder do que a ganhar quando avançam pra justiça, porque há o escrutínio, a pressão familiar, a pressão social, a falta de respostas, apoio Há uma desigualdade salarial neste país que é só uma evidência, é a estatística, não sou eu que digo. Uma mulher que tem pouca autonomia financeira, que não tem apoio familiar, que tem uma sociedade que está sempre a dizer: "Ah, foi só agora, coitadinha. Os homens são mesmo assim." Estas frases são muito comuns. "Dá-lhe lá mais uma oportunidade. Vocês têm um filho. Pensa no menino." Isto são tudo frases que as mulheres ouvem constantemente. E falo das mulheres porque estatisticamente também são as mulheres as principais vítimas de violência doméstica. Quando há todo este bolo à volta, a fomentar esta pressão naquela mulher do volta, até porque ela se calhar não consegue pagar a casa sozinha. A crise da habitação leva a que estas vítimas também cada vez menos consigam ser autónomas. Tudo isto está interligado. Embora existam políticas públicas, a lei é muito clara.

Mas as respostas públicas mudaram com a mudança da lei ou não? Nós vemos que uma grande maioria dos casos de tortados públicos que têm desfecho fatal estavam sinalizados já.

Estavam sinalizados, sim.

E depois?

Não basta fazer leis, é preciso dar formação às forças de segurança. Contínua, não é dar uma vez e acabou. É preciso dar formação também ao pessoal hospitalar que recebe estas vítimas. É preciso que todos estes serviços estejam concertados. É preciso que existam serviços de emergência, casas de transição, casa abrigo. É preciso que se mude este paradigma que as mulheres é que têm de sair de casa, têm de fugir e viver em fuga e refazer as suas vidas noutro sítio. Não, nós temos de inverter esta equação. Se sabemos que aquela pessoa está a agredir ou se há a suspeita de que está e já há provas nesse sentido, então é o agressor que tem de sair de casa. É muito difícil estruturar uma vida quando se tem de abandonar tudo ou muitas vezes quando se leva filhos às costas, que é o que acontece a uma larga maioria destas mulheres. As políticas existem. Agora, eu acho é que neste momento estamos a sentir aqui um agravamento quando temos uma normalização de um discurso machista, de um discurso violento, do regresso desta narrativa do volta para a cozinha, o lugar da mulher é em casa, ou quando vemos até a glamourização agora destas tradewifes, que de repente parece que é tudo muito bonito, vamos voltar a viver dependentes do marido. Ninguém fala do lado negro disso, que é mulheres dependentes financeiramente, são mulheres que não podem dar o salto se já não estiverem felizes, são mulheres que estão mais sujeitas à violência. Isto é o lado que se fala menos e vai-se romantizando esta ideia do provedor e da cuidadora. No fundo, isto é o quê? É voltar a construir uma equação de jogo de poder, e o poder está do lado masculino. Não quer dizer que os homens sejam todos maus, não é isso que eu estou a dizer. Eu passo a vida a repetir isto, porque é preciso ainda fazer este grande PS, que é: os homens não são todos agressores, não é isso que estamos a dizer. Mas sabemos que a maioria das mulheres são mortas por homens, pelos homens que as juraram amar. Portanto, temos que pensar nisso.

Vamos avançar. 20 pontos.

Uma larga maioria mesmo. Muito bem, 20 pontos. Pode atingir o pleno.

Pode entrar naquele Olimpo.

Claro.

Em que há poucas mulheres. Ou não sei se há alguma.

Não sei. A Maria João Silva é que tem essas contas.

Essa estatística. Vamos então para os 25 pontos. Paula, em que década foi estreado o "Citizen Kane: O Mundo aos Seus Pés", aquela obra-prima do Orson Wells, que muita gente diz que é o filme da vida?

Ai, não sei. E eu tive história do cinema, que vergonha. Peço ajuda.

Quero arriscar, risco para chegar aos 25.

Cine branco, eles vestiam-se todos com aqueles chapéus, fatinhos assim com aba, com um brinde amargo.

Tem a ver com a minha vida?

Tem a ver com a sua vida isto. O filme, a temática do filme, mas não consegue dar um palpite de uma década? Quer pensar alto sem se vincular ainda?

Não sei mesmo.

Então vamos lá.

Com ajuda. Preciso de mais ajuda. Chego ao Olimpo, mas quase lá vá.

Mas a ajuda não vai resolver décadas 30, 40 ou 50 do século passado, obviamente.

Pronto, ok, não foi grande ajuda, não . Alguma daquelas décadas.

Vá lá, Paula. Em três, dois, um. Já não é filme mudo, não é?

40, fica a meio.

Sim! Foi, de facto.

É na moderação que está a virtude. Pronto, ora aí está, que é sempre algo que eu defendo. Vamos ter uma conversa moderada, com escolhas moderadas.

Foi em 41, de facto, que foi estreado. A Paula já esteve no jornalismo, agora está na comunicação, relações públicas, portanto a cuidar também de campanhas.

Não. Eu tenho a minha sociedade de imprensa, não tenho nada a ver com este universo.

Não é campanhas eleitorais, é campanhas publicitárias. Não é campanhas eleitorais, tem a ver com a comunicação política.

Estou a confundir o que eu faço na minha vida a tempo inteiro.

Apesar disso, tu achas que uma televisão consegue vender um presidente da República?

Isso é uma belíssima pergunta. Não sei se consegue vender na totalidade, mas acho que ajuda muito. Aliás, nós temos visto, não é ao acaso a popularidade de André Ventura.

Mas aí o que é que funciona? São as televisões que promovem André Ventura propositadamente ou vão atrás da figura que rende audiências?

Eu acho que aí é a chamada win-win situation , como Miguel Carvalho, que escreveu aquele belíssimo livro, por exemplo, sobre o Chega, diz, que é: quando não há audiências, o Miguel dizia-me isso há pouco tempo numa entrevista que lhe fiz, que é: "Chamem o Ventura." Nós sabemos que aquela personagem arruaceira, pato bravo, que é uma coisa que a mim me deixa nauseada, mas desculpem, mas é exatamente aquilo que o André Ventura é constantemente, é uma coisa que agrada à maioria das pessoas, porque a maioria das pessoas também vê o Big Brother e vê aqueles programas em que lá estão os patos bravos todos também. André Ventura fez-se valer disso ao longo dos tempos, sabe que aquele seu discurso populista, arruaceiro, disruptivo, muito entre aspas, chamemos-lhe assim, capta a atenção, as pessoas gostam de o ver.

Cria uma atenção que as pessoas gostam de ver.

Cria uma atenção, as pessoas na realidade revêm-se naquele discurso, que é finalmente alguém está a bater o punho na mesa e a dizer aquilo que nós gostávamos de dizer.

E depois alimenta muito as redes. E a comunicação política hoje passa muito por aí. A televisão está completamente secundarizada ou não?

Os partidos esqueceram-se ao longo do tempo da importância das redes sociais. Ainda há pouco tempo, o "Meio & Publicidade", acho que foi nas legislativas, fazia uma belíssima reportagem sobre isso, sobre a presença nos social media, e o Chega e André Ventura são imbatíveis. TikTok, Instagram, etc. Estão lá todos, fazem os conteúdos dentro das métricas que funcionam, coisas curtinhas, sem grande conteúdo erudito por trás.

E aí são profissionais.

São muito aficionados do social media. É o rage bait, que é: "Pronto, eu vou dizer qualquer coisa que vai deixar toda a gente muito irritada."

Mas digamos que há mérito também dos outros partidos, se quisermos.

Eu acho, por exemplo, que a Catarina Martins tem feito um percurso muito interessante agora com as social media. Os conteúdos dela têm vindo a crescer. Eu vou olhando para isso com alguma atenção, mas lá está mostrando que também se pode fazer um discurso mais empático, mais informativo, através das redes sociais e que chega à população e aos eleitores. Agora, vai longe na corrida quando pensamos na presença mediática do Chega, é uma pena.

Paula, chegamos ao fim. 22 pontos.

Não foi nada mal.

Ficou a 10 da glória eterna. Mas pronto, sai daqui com votos de uma boa semana e um bom ano.

E mais 3 de nota também. Bom ano a todos.

Muito obrigado. Bom ano.