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E o vencedor é: edição da tarde de política. A hecatombe eleitoral do PS merece uma ou mais notas, é inevitável. O Chega também. Para já está taco a taco com o Partido Socialista, mas pode subir a segunda força política pela primeira vez na história da democracia, acabando com o bipartidarismo.
Notas que vão ser atribuídas pela Filomena Martins, diretora adjunta d'O Observador, pela Judite de França e pela Raquel Abecasis. E é por ti que começamos, Raquel. Antes de mais, uma retrospectiva para percebermos como chegamos aqui, a este momento em que o partido de Mário Soares pode ser ultrapassado pelo Chega, caso o resultado nos círculos da imigração seja o mesmo das últimas eleições. Como é que aqui chegamos?
Olha, eu recuava lá atrás, aos tempos em que António Costa liderou o Partido Socialista, primeiro com geringonça, depois sem geringonça. Durante oito anos liderou o Partido Socialista e não tanto pela solução de geringonça que na altura encontrou, que de resto, naqueles atos eleitorais seguintes, não mostrou ter sido uma má experiência para os portugueses, apesar de agora termos alguma dificuldade em pensar como é que isso aconteceu há tão pouco tempo, quando vemos o que aconteceu à esquerda ontem depois do resultado das eleições, em que praticamente desapareceu do Parlamento. Mas não é tanto por isso, mas é por alguma coisa que António Costa foi fazendo, com alguma habilidade, desde o início do seu consulado à frente do PS, quando tinha do outro lado alguém com quem tinha até boas relações pessoais, até essa altura, que se chamava Rui Rio. Tinham sido os dois presidentes de câmara, um de Lisboa e o outro do Porto, tinham feito muitas coisas juntos. Havia muito aquela ideia de que o Rui e o Costa, não sei se vocês se lembram daquele congresso em que António Costa sinaliza logo que nunca se entenderá com Rui Rio. Mas eu acho que o grande pecado de António Costa não é o não se ter entendido com Rui Rio naquela altura. Não acho que fosse uma situação saudável para a democracia naquela altura. Agora andamos todos outra vez a falar de blocos centrais e de entendimentos entre PSD e PS, mas sobretudo porque António Costa não só não se quis entender com Rui Rio e fez outra opção, fez a opção da geringonça, mas dedicou toda a sua liderança e prestação, na altura no Parlamento, a chacalhar o PSD e o líder do PSD e a sobrepor constantemente e a agitar com o papão de que o Chega é que era o líder da oposição. E nessa altura, lembro-me que muitas pessoas disseram, eu também disse, disseram inclusivamente a alguns socialistas, que era um caminho perigoso e que era um caminho que nós já conhecíamos como é que acabava, porque já tinha acabado assim em França há uns aninhos atrás, quando Mitterrand entre 81 e 95 adotou essa técnica para se manter no poder durante aqueles anos todos. Mas quando ele saiu do poder, acabou o Partido Socialista também. E aí ruiu o sistema democrático dos partidos tradicionais democráticos em França, e é uma derrocada que até hoje não foi recuperada. Até hoje, toda a política francesa se mobiliza para evitar que a família Le Pen chegue ao poder e já todos mais ou menos antevemos que vai chegar. Tudo isto nós já sabíamos, tudo isto nós já tínhamos visto. Isto foi dito muitas vezes e entretanto as eleições iam se sucedendo e Rui Rio não ia conseguindo ganhar as eleições e ia degradando o seu peso eleitoral. E os socialistas convenceram-se que aquilo era uma boa estratégia porque ia dar cabo do PSD. E acabou por dar cabo do Partido Socialista antes. E, portanto, eu acho que foi mais um dos fantásticos contributos que o doutor António Costa deu ao país, agora que já está confortavelmente em Bruxelas, no lugar que sempre sonhou, foi ter nos trazido até aqui. Claro que os atores políticos da atualidade não estão isentos de culpas, mas o caminho começou lá atrás e estamos a falar num período temporal que vai de 2019 a 2025, portanto, são muito poucos anos. E quem de facto deu um rastilho importantíssimo ao Chega para que o Chega tivesse chegado onde chegou, foi de facto António Costa e por isso vai um zero para aquilo que foi o contributo dele para o equilíbrio do nosso sistema democrático.
Judite, a tua nota vai para o grande derrotado da noite eleitoral, a única demissão, de resto, que aconteceu, Pedro Nuno Santos, e o que se segue agora no PS.
Já agora, só para acrescentar aquilo.
E tens um minuto e meio.
Acrescentar muito rapidamente, vou ler como se fosse a bula, as letrinhas pequeninas. Também se pode agradecer, além de António Costa, a Ferro Rodrigues e Augusto Santos Silva, também o trabalho que fizeram em agigantar o Chega. Mas falávamos do derrotado da noite, porque há vários perdedores, mas acho que há um derrotado, que é aliás Pedro Nuno Santos E é um derrotado que percebe que é derrotado e que apresenta a sua demissão, que tentou logo condicionar a futura, seja ela qual for, liderança do Partido Socialista na noite eleitoral, num discurso de derrota que nem sempre foi do tom, pelo menos de um derrotado, mas de um tipo bastante aborrecido com os resultados, o que é compreensível. Não acho muito compreensível o "por mim eu íamos já embora", acho que não é uma linguagem muito própria de um líder partidário, mesmo que esteja muito aborrecido com aquilo que lhe estava a acontecer. Acho que não é assim que um líder fala na altura da saída. Agora, deixar ali uma espécie de legado ao dizer que o PS não deve servir de muleta à Aliança Democrata ou que não deve dar a mão à Aliança Democrática.
Isso é condicionar o próximo líder.
É condicionar o próximo líder. É uma tentativa de condicionar o próximo líder. Acho que não vai ser minimamente eficaz, mas é verdade que o próprio não o faria. Deixou isso sempre bem claro, sobretudo depois do caso Spinogive, isso também não era sequer possível, mas sobre o que aí vem compete ao PS, que aí fica, dizer o que é que se segue. E não a Pedro Nuno Santos, quando o próprio se pôs de fora. E por aqui fico.
Filomena, a tua nota vai para o Chega. André Ventura é incontestavelmente um vencedor da noite eleitoral de ontem.
Sim, é, porque o Chega não venceu estas eleições, mas convenhamos, parece que ganhou. E ganhou em atenção, em polémica, em manchetes, mas sobretudo ganhou terreno. E ganhou terreno político, social, geográfico e até demográfico, porque conquistou os jovens. Portanto, um partido que há meia dúzia de anos elegeu um deputado, nós vemo-lo aqui acabar de crescer em número de eleitos mais do que o próprio PSD. O PSD foi o mais votado, mas foi o Chega que deu aqui o grande salto e saltou para a frente do PS em vários distritos. Consolidou o Algarve, já não é um acaso, já não podemos dizer que é um acaso, é já uma base, e tornou-se a segunda força em boa parte do país real. E é aquele país real onde não há debates televisivos, mas há filas nos centros de saúde. Não há colégios privados, mas há escolas com telhados a cair, onde não há rotundas com aquelas esculturas, mas há bairros degradados e medo ao final do dia. O Chega ganhou Faro, Beja, Setúbal e Portalegre. Setúbal, que vale a pena sublinhar, porque Setúbal ganhou em Sines, em Sesimbra, em Seixal, na Moita e no Montijo. Todos eles disseram Chega. Ganhou também bastiões comunistas como Alvito, Moura, Barrancos e perdeu Grândola por 37 votos. Portanto, parece que há lá festa na vila, mas os cravos começam a murchar. E em Évora, o Chega deu luta ao PS. Évora. E em Lisboa ganhou Sintra, Azambuja, Vila Franca, Alenquer, lugares onde andar nos transportes ou viver nas periferias permite perceber os votos sem precisar de sondagens. E portanto, é preciso mais do que esta indignação moral para enfrentar esta realidade. É preciso ir lá, é preciso sentir o pulso, ouvir o que custa dizer, sentar o bucho. Aliás, basta ter ouvido algumas reportagens das televisões nestas terras, em que as pessoas dizem sem medos o que já se devia de saber há algum tempo. Há a questão da corrupção, que parece ser endémica nos dois maiores partidos portugueses até agora, que anunciam muitas medidas, mas poucas avançam. E embora as pessoas cobrem ao PSD, o país debita muito isto ao PS, porque foi o partido que mais governou, mais tempo esteve no poder em democracia. Há a questão dos boys, com todas aquelas relações familiares que eram tão visíveis no governo de António Costa. Há as questões de segurança, que pesam bastante, e há a imigração que se tornou o elefante no meio da sala. Entrou-se em controlo nos últimos oito anos, o PS abriu-lhe as portas, o PSD começou a trancar janelas, mas só no último ano. E até Pedro Nuno Santos, que chegou a dizer o contrário, agora já fala de repatriamento e controlo. Veio um bocado tarde.
E a nota para o Chega, Filomena?
Eu diria que a nota para o Chega, quando se ignora o que está a crescer, não se evita um problema, só se adia uma resposta. Portanto, perante isto tudo, ostracizar não resultou, ridicularizar também não e agora resta enfrentar politicamente, com argumentos, com a verdade e se calhar com um bocadinho de humildade.
Eu vou dar ao Pedro Nuno Santos o chumbo direto que o José Manuel Fernandes costuma dar, que é o quatro.
Eu vou virar isto ao contrário e vou dar também para quem ostracizou, ridicularizou e não viu o que estava a acontecer, um simpático zero. E até acabava com uma coisa que ontem corria rapidamente, e já sei que vocês estão com pressa, que é uma coisa que corria ontem na net que diz: "A formiga com raiva da barata votou no inseticida e todo mundo morreu, inclusive o grilo, que se absteve do voto".
E mais não dizemos. E o vencedor é edição da Tarde Política está de volta também amanhã nas manhãs 360, depois das 08h30, logo pela fresca.