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Este é o Gabinete de Guerra da Rádio Observador. Eu sou o Luís Soares e connosco temos hoje o Major-General Isidoro Morais Pereira. Bem-vindo, senhor Major-General. Se calhar começávamos hoje por falar um pouco desta visita de Vladimir Putin à Coreia do Norte. Ele deve aterrar ainda hoje no país. Sabemos, por exemplo, que as ruas de Pyongyang estão decoradas com fotografias do líder russo. Sabemos também que Putin já saudou a Coreia do Norte por apoiar a Rússia na guerra contra a Ucrânia e deve ser também assinado um acordo de segurança entre os dois países. Senhor Major-General, o que é que podemos esperar desta visita de Vladimir Putin?
Bom, Vladimir Putin, é curioso que nenhum chefe de Estado russo visitava a Coreia do Norte oficialmente há cerca de 23 anos. Esta viagem tem, sobretudo, um objetivo, consolidar um conjunto de tratados que já existem do antecedente e fundamentalmente vocacioná-los para o apoio ao esforço de guerra russo. A Rússia, neste momento, olha para a Coreia do Norte como um país que pode continuar a fornecer armamento e munições necessárias pra campanha que a Federação Russa está a levar a cabo na Ucrânia. É fundamentalmente por essa razão que o todo-poderoso chefe do Kremlin, Vladimir Putin, se digna visitar a Coreia do Norte. E não apenas a Coreia do Norte, como nós sabemos, há imagens até daquilo que referiu, há bandeiras russas espalhadas por praticamente todo o percurso que Vladimir Putin vai fazer desde que aterra até que chega aos locais dos encontros. E sabemos que é uma visita de dois dias, que ele espera que seja produtiva, no sentido de reforço deste eixo, que tem vindo a ser designado por "eixo do mal", que inclui a Rússia, o Irão, a Coreia do Norte, a China, e fundamentalmente contar com este tipo de apoio de que ele tanto necessita, porque, de fato, o esforço de guerra que a Federação Russa está a fazer na Ucrânia ultrapassou muito as expectativas que o próprio Vladimir Putin tinha colocado quando, algures antes de fevereiro de 2022, decidiu que iria invadir a Ucrânia com os objetivos que ele muito bem explicitou. As coisas correram-lhe mal, correram-lhe muito pior do que ele estaria à espera. O problema que era pra ser resolvido numa semana, já leva dois anos e alguns meses e ainda está muito longe de estar resolvido. A economia russa, neste momento, transitou para uma economia de guerra. Nós sabemos que uma das medidas que foi tomada agora há muito pouco tempo é que com efeitos a partir de 1 de julho, os russos vão pagar, naturalmente, esse esforço de guerra, porque praticamente quer os impostos sobre as empresas, quer os impostos sobre as pessoas singulares vão todos aumentar a partir de 1 de julho 7%. E a grande razão, e já de si os impostos na Rússia são impostos relativamente altos, quando comparados mesmo com os standards ocidentais, e vão aumentar em 7%, fundamentalmente porque é preciso continuar a pôr em marcha a máquina de guerra. E as sanções, principalmente estas últimas, que foram postas em marcha pelos Estados Unidos e agora também pela União Europeia, que levaram a bolsa de Moscovo praticamente a um ataque de nervos e, naturalmente, as outras grandes questões, porque o rublo desvalorizou-se imenso face ao dólar. O dólar continua a ser a moeda que representa praticamente, não chega a 90%, mas quase 87% das transações a nível mundial, e o acesso livre ao mercado dos dólares neste momento a Rússia não tem aberto e muito menos também ao euro. Portanto, está com grandes problemas em termos económicos e de fato as sanções que Vladimir Putin enchia a boca e dizia que as sanções económicas por parte do Ocidente só têm vindo a alavancar a economia russa e que a economia russa se encontra em crescimento, afinal não é bem assim. E a história diz-nos que todos aqueles países que converteram as suas economias fundamentalmente pra economias de guerra, não resistem muito mais do que quatro a cinco anos, porque a partir daí, eu não iria aqui citar, naturalmente, as teorias keynesianas, porque quando se investe avultadas somas na própria economia, só há um crescimento económico real se a economia for completamente fechada. E nós sabemos que nos dias de hoje não há economias fechadas, o mundo globalizou-se e as economias abertas, o dinheiro que é colocado na economia acaba por não ficar no sistema e acaba por sair pra fora dele. E é por isso que as economias, quando são muito subsidiadas e fomentadas pelo próprio Estado, acabam por entrar mais ano, menos ano, num ciclo económico muito perigoso e acabam por levar à estagnação e ao declínio. E é isso um pouco que está a passar com a Rússia. A Rússia procura desesperadamente países com que celebrar acordos, ou fortalecer relações, como é o caso da Coreia, e como faz parte do programa, julgo que há essa informação, que é uma informação que é dada pelo próprio Kremlin, que Vladimir Putin permanecerá dois dias na Coreia do Norte e a seguir dirige-se ao Vietname.
Exatamente, há essa informação.
É um país a que ele está a piscar o olho também No sentido de ser mais um dos países a apoiar esta sua causa. Tudo começa por um desejo de restaurar a velha glória da Rússia, um expansionismo voltado para restaurar um império, fundamentalmente voltar a ter uma influência decisiva nos países mais próximos, naquilo que era o espaço ex-soviético. Mas neste momento acaba por se transformar numa ambição ainda maior que é transformar a ordem mundial em que nós vivemos e que foi construída a pulso e com muita dificuldade no pós-Segunda Guerra Mundial, como nós sabemos, e que progressivamente os países chegaram à conclusão que a lógica do mais forte e o domínio do forte sobre o fraco deveria ser regulamentada. E por isso é que a partir da Segunda Guerra Mundial foi criado um acervo muito grande de direito internacional por forma a regulamentar as relações entre os Estados para que não regressássemos à anarquia imutável. Porque esta coisa dos mais fortes, só porque são mais fortes exercerem uma pressão tremenda sobre os mais fracos, isto é pouco civilizado e o mundo não quer regressar a esse estado de coisas. Mas a verdade é que neste momento há um conjunto de países que acham que a forma ocidental de viver, o mundo das liberdades, da democracia, da tolerância, que não é a receita adequada para o progresso e para a forma como o mundo deve correr. Nós neste momento estamos a viver momentos verdadeiramente cruciais e que podem definir o futuro da humanidade.
Outro desses momentos, senhor major-general, deixe-me só talhar aqui que estamos já com muito pouco tempo e queria também falar um pouco consigo sobre o conflito do Médio Oriente. Tem havido vários protestos contra o governo de Benjamin Netanyahu, pedem os manifestantes eleições e também um acordo para a libertação de reféns na Faixa de Gaza. Como é que também se podem compreender estes protestos em Jerusalém?
Não há dúvida. Não devemos confundir o atual governo israelita com o país em si mesmo e com as gentes que habitam Israel. Israel vive uma sociedade ocidentalizada, uma sociedade humanizada, onde a vida tem um valor transcendente, como tem no Ocidente. E de fato, as populações israelitas têm feito um esforço hercúleo para convencer o gabinete do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu a colocar em primeiro lugar a recuperação dos reféns e um pouco, em segundo lugar, a destruição do Hamas. Mas de fato, aquilo que tem feito o governo israelita até agora é que dos três objetivos fixados, a saber, a destruição da capacidade militar do Hamas, a recuperação dos reféns e garantir que no futuro o Hamas ou tudo aquilo que se passa na Faixa de Gaza, das organizações terroristas da Faixa de Gaza, deixarão de constituir uma ameaça, pelo menos num futuro próximo ou a médio prazo, para a própria sobrevivência de Israel. Portanto, só que aquilo que nós temos visto é que o governo israelita, em boa verdade e pragmaticamente falando, tem colocado em primeiro lugar a destruição do Hamas e, em segundo lugar, a recuperação dos reféns.
E deveria ser ao contrário.
Eu não digo que deveria ser ao contrário, mas eu julgo que deveria ter um maior equilíbrio. Israel só se pode culpar a si próprio. E acho que vale a pena referir isto.
Para concluir, senhor major-general.
Para concluir. No dia em que Israel admitiu trocar um militar seu por mil presidiários palestinianos, abriu uma caixa de Pandora. E de fato, do outro lado, do lado do Hamas, o Hamas compreendeu que a sociedade israelita é muito permeável a este tipo de coisas. E é isso que se está a verificar. Neste momento, o governo israelita está a sofrer pressões tremendas, inclusivamente que podem levar à queda deste governo e ao precipitar de novas eleições, que digamos, Netanyahu não pretende, pelo menos até se decidir o futuro da América em novembro, como nós sabemos, mas que a situação neste momento não é fácil de gerir. Aliás, até já houve um diferendo entre decisões tomadas pelas Forças Armadas e pelo próprio governo, como foi, por exemplo, o estabelecimento da célebre pausa tática em Rafah, que afinal o governo nem sequer tinha conhecimento, nem sequer tinha aprovado.
Isso mostra bem qual é o ponto de situação neste momento. Senhor Major-General, muito obrigado por ter estado conosco. Major-General Isidoro Morais Pereira esteve conosco neste Gabinete de Guerra que fica disponível daqui a instantes em podcast.