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Gabinete de Guerra hoje centrado no conflito do Médio Oriente e pelas revelações hoje feitas por Donald Trump, com impacto nos mercados financeiros e muito, em particular, no mercado de petróleo. Para nos ajudar a analisar e interpretar os factos mais recentes deste conflito, temos esta tarde connosco o historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, boa tarde, bem-vindo.

Olá.

Donald Trump anuncia que houve negociações, conversações ao longo dos últimos dois dias, durante o fim de semana, negociações que, escreve Trump na rede Truth Social, foram produtivas, correram bem a ponto do presidente norte-americano ter determinado uma trégua nos ataques a infraestruturas energéticas. O Irão nega, foi isso que veio dizer já o chefe da diplomacia iraniana, citado por um jornal detido pelo Estado iraniano. Também há pouco o presidente do Parlamento, que foi apontado pela Reuters como sendo o interlocutor iraniano nestas negociações com os Estados Unidos, veio escrever na rede social X que não há quaisquer negociações em curso com os Estados Unidos. Pergunto se te parece plausível que Donald Trump esteja a mentir sobre este assunto tão sensível.

À partida, nós temos razões pra desconfiar das declarações dos beligerantes no contexto de guerra. É algo que eu tenho sublinhado muitas vezes, mesmo em relação à Ucrânia. Não quer dizer que a desconfiança seja igual. No fundo, por exemplo, no caso da Rússia e da Ucrânia, sabemos que a Rússia, por sistema, é muito pouco credível e a Ucrânia tende a ser um pouco mais, mas é normal que haja aqui algum elemento também de comunicação estratégica, no fundo, guerra da informação dos dois lados. No caso dos Estados Unidos, historicamente, a ideia é que se pode confiar mais nos Estados Unidos. Não se deve confiar cegamente a ninguém, até porque há mecanismos de controle, etc, de escrutínio, que não existem em outros países, e menos no Irão. Mas neste caso, a verdade é que temos um presidente dos Estados Unidos que é muito pouco credível, que é conhecido por sistematicamente aquilo que ele diz e a realidade dos factos terem muito pouco a ver uma coisa com a outra. Ele tem aqui um incentivo grande pra fazer este tipo de declarações, porque é uma forma de poder recuar sem perder completamente a face em relação àquela ameaça que fez de destruir sistematicamente a infraestrutura energética do Irão. Ora, isso não só potencialmente seria um crime de guerra, como também poderia levar a uma escalada do Irão nos ataques a estruturas equivalentes do lado dos países do Golfo, portanto, ao grande centro de produção de petróleo e de gás a nível global. E, de facto, também não se percebe muito bem por que o Irão haveria de dizer que não, embora também possa querer manter aqui um pouco a sua credibilidade, esta linha dura, a ideia de que não há contatos com os Estados Unidos. Apesar de tudo, há aqui uma espécie de ponto intermédio, que é não negociações diretas, mas negociações indiretas, através dos mediadores do costume, por exemplo, Omã, que já mediou entre os Estados Unidos ou o Qatar noutras ocasiões. Portanto, é possível que os dois lados estejam aqui a dizer parte da verdade e que haja alguns contatos, mas que sejam indiretos. Agora, o que parece evidente é que realmente Donald Trump encontrou aqui uma forma, isso é bastante claro, para recuar nesta ameaça que estava a fazer, portanto, avança com esta ideia dos cinco dias. Mas também é interessante, do lado do Irão, e compreensível até, eu estava aqui a ler o comentário completo da agência de informações do Irão, que diz: "Chegaram-nos mensagens indiretamente". Portanto, parece validar um pouco esta ideia de negociações, mas indiretas. Mas insiste que não são propostas válidas, e também sublinha este aspecto, que é a desconfiança de que esta ideia dos cinco dias pode ser um truque para enganar o Irão e que pode haver ataques nesse período. Ora, a verdade é que há que reconhecer que, pelo menos por duas vezes, havia negociações em curso e pareciam estar a correr razoavelmente, embora ainda sem nenhum tipo de resultado final, e é nesse contexto que há um ataque da parte dos Estados Unidos. Portanto, até certo ponto percebe-se que o Irão tenha aqui algumas desconfianças sobre estes prazos adiantados por Donald Trump. A verdade é que os factos mostraram no passado que isso também não vale assim tanto no caso deste presidente dos Estados Unidos.

É do interesse do Irão chegar nesta altura e, tendo em conta o atual contexto, chegar a um acordo que possa pôr termo a esta guerra?

Do meu ponto de vista, é do interesse racional dos dois lados que haja aqui um rapidamente chegue ao fim do conflito. O que não quer dizer que o conflito não tenha também criado enormes problemas que iriam continuar. Mas a verdade é que Donald Trump tem eleições em novembro, mas as primárias já estão a decorrer, está com uma popularidade muito baixa. Esta guerra não é popular nos Estados Unidos e o Irão, o regime iraniano tem de mostrar que consegue sobreviver a um ataque americano, em si isso já seria uma vitória. Tem que ter tempo também pra consolidar a transição de poder. Houve aqui uma enorme decapitação das elites do regime. Portanto, as pessoas que entraram em funções, à partida, como em qualquer país, precisam de algum tempo para entrar nas rotinas, serem plenamente funcionais, a começar pelo próprio guia supremo, que está, aliás, em parte incerta. Agora, isso não quer dizer que seja o que realmente vai acontecer, porque ao mesmo tempo também há tendências fortes e há inclusive setores que defendem uma escalada. E aqui o problema é que Qualquer tipo de incidente ou acidente pode acabar por forçar os lados a intensificar o conflito pra não perderem a fase. Eu diria que o mais racional é que realmente os dois lados cheguem a algum tipo de cessar-fogo, mesmo que seja um cessar-fogo de fato, com relativa rapidez, mas temos assistido a vários episódios que ajudam a ilustrar exatamente isto. Ou seja, que facilmente pode haver aqui algum tipo de acontecimento que faz escapar a dinâmica do conflito às intenções dos decisores máximos. Além do mais, temos este fator adicional de incerteza neste tipo de análise, que pode-se dizer: "Vamos esquecer o que o Donald Trump anda a dizer ou a desdizer, vamos focar na estratégia norte-americana". O problema é que com o Donald Trump é muito difícil pensar nesses termos, porque é bastante evidente que é o presidente que pessoalmente controla as decisões fundamentais e muitas vezes de uma forma que é muito difícil de prever, até pelos mais próximos do próprio Donald Trump. Temos uma estratégia de segurança nacional do final do ano passado, por exemplo, que dizia que as grandes prioridades eram as Américas, e aí as intervenções, por exemplo, na Venezuela ou esta pressão sobre Cuba até fazem algum sentido. São regimes muito frágeis, muito próximos dos Estados Unidos geograficamente, etc. Mas depois dizia que a Europa estava na terceira ordem de prioridades, o Médio Oriente ainda depois disso. Dizia para os aliados europeus que a grande prioridade devia ser a defesa da Europa e deixarem missões fora da área. Ora agora, por exemplo, é o próprio Donald Trump que vem pedir a intervenção dos europeus no Estreito de Ormuz ou que vem chamar a China também pra ajudar no Estreito de Ormuz. Tudo coisas que não têm nada a ver com esse documento estratégico. Realmente, o Donald Trump é um fator adicional de incerteza neste tipo de análises. De fato, é muito difícil prever com segurança o que exatamente ele irá decidir de um dia pro outro. Ele claramente gosta de conflitos curtos, mas com vitórias que ele possa declarar com alguma credibilidade e aqui não é evidente que isso seja possível, sobretudo se o Estreito de Ormuz continuar fechado.

Sendo que esta aparente vontade de negociar declarada pelo presidente dos Estados Unidos acontece poucos dias depois de saber que há milhares de marines a caminho do Médio Oriente. Um fator que eventualmente aumenta os receios de uma intervenção militar por terra por parte das forças norte-americanas?

Sim, temos sinais muito contraditórios. Há dois dias, Donald Trump ameaçou basicamente arrasar o Irão. Agora vem dizer que está a negociar e que está tudo a correr muito bem. Estava a ver umas declarações também dele a entrar pra um dos aviões a dizer que, se calhar, o regime até já tinha mudado, porque entretanto grande parte dos aiatolás tinham sido mortos, o que obviamente não faz nenhum sentido. Não é pelo fato das pessoas mudarem que o regime muda. Não é pelo fato de se matar um ditador que acaba uma ditadura, necessariamente. Mas depois há sobretudo esse dado fundamental, que é: ele dá muitos sinais de que quer rapidamente terminar o conflito e mais uma vez agora os sinais mais recentes. Ao mesmo tempo, está a pedir US$ 200 mil para continuar o esforço de guerra ao Congresso, em termos de orçamento, e muitas vezes nós dizemos isso, o documento estratégico mais importante de um país não são as estratégias oficiais, são os orçamentos, são as leis de programação militar, as leis de compra de equipamento militar, porque aí é que se vê as verdadeiras prioridades e também se há meios para depois concretizar essas prioridades, se há dinheiro, se há equipamento para concretizar essas prioridades. Isso é um indicador muito forte que realmente Donald Trump está a preparar, ou parece estar a preparar-se pra continuação do conflito por bastante mais tempo. E depois esse outro dado também muito importante, que é apesar dele prometer repetidamente que não vai haver botas, não vai haver tropas no terreno, portanto, não vai haver uma dimensão terrestre destas operações ofensivas contra o Irão, a verdade é que temos todo um grupo expedicionário de marines e de forças especiais a deslocarem-se desde o Japão pra esta zona. Isso à partida não será certamente apenas pra fazerem um piquenique. No mínimo, é aqui um sinal, uma tentativa de ameaçar, de pressionar o Irão, mas pode ser um sinal de algum tipo de operações terrestres. Aqui as mais prováveis seriam ações, por exemplo, nestas ilhas na zona do Estreito de Ormuz ou na Ilha de Karg, que é por onde passa mais de 90% do petróleo do Irão. Mesmo operações anfíbias não poderiam ser excluídas e isso seria obviamente uma escalada significativa novamente no conflito.

Entretanto, Israel continua a ofensiva militar contra vários alvos no território libanês e desta feita, hoje, há a indicação de que o quartel da Força de Paz da ONU no Líbano, UNIFIL, o quartel general foi atingido por um projétil. Vale tudo já, Bruno? Nem as instalações das Nações Unidas estão a salvo?

Infelizmente não é...

Bom, perdemos aqui, julgo que momentaneamente, o contato com o Bruno.

Não é inédito nestas operações, de fato, no sul do Líbano. Estava a dizer que isto, de fato, não é inédito nestas operações de Israel no sul do Líbano e também é verdade que esta força de manutenção de paz das Nações Unidas é historicamente apontada como exemplo de ineficácia. É uma força de manutenção de paz que não consegue manter a paz. Agora, obviamente, à partida, não é um alvo legítimo e é sempre de criticar, de apontar isso. Vamos ver. A mim parece-me que há aqui, neste momento, no Líbano, um contexto que até poderia permitir uma ação eficaz contra o Hezbollah. O conjunto da sociedade libanesa parece muito cansado do Hezbollah sistematicamente se prestar a ser um instrumento do Irão e de envolver o Líbano em conflitos que não interessam a um país que tem muitos problemas pra resolver e não precisa de mais conflitos armados. Mas ao mesmo tempo, o atual governo israelita também não parece nunca muito disponível para qualquer tipo de solução que envolva uma dimensão negocial ou diplomática. Parece sempre apostar mais, ou sobretudo, nas soluções pela via militar. Ora, o problema de Israel é que vai ganhando guerras atrás de guerras ao longo destas décadas, mas o problema e a ameaça nunca desaparecem realmente.

Bruno Cardoso Reis, historiador, esteve conosco hoje nesta edição da tarde de Gabinete de Guerra, o dia em que Donald Trump anunciou que estão a decorrer negociações com o Irão, tendo em vista um acordo definitivo que ponha termo à guerra iniciada no passado mês de fevereiro.