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Gabinete de Guerra da Rádio Observador, hoje com o historiador Bruno Cardoso Reis. Boa tarde, Bruno, bem-vindo.
Olá.
Vamos hoje centrar-nos na nova estratégia de segurança nacional e política externa dos Estados Unidos. Foi hoje conhecida. O que é que ficamos a perceber relativamente àquela que vai ser a política externa quanto à Rússia, relativamente à Rússia?
Boa tarde a todos. Eu recomendo aos ouvintes, que a partir daí são pessoas que se interessam por estes temas, que vão ver. É um documento relativamente curto, tem um total de 30 e tal páginas, 29 páginas, na verdade, por aí. Ficou disponível hoje. É um documento que todas as administrações, ou seja, todo o novo presidente é suposto, no fundo, rever este documento e portanto, revisitar as prioridades dos Estados Unidos. Há a tradição de haver aqui também um enfoque nas diferentes prioridades regionais e aí a primeira coisa a notar, e é aí que aparece a Rússia, é que a Europa desce na escala de prioridades. Se formos ver o elenco das regiões, primeiro aparece as Américas, a seguir a Ásia e só depois a Europa e por fim a África. Acho que isso é, em si, revelador. Nesse contexto da Europa, aquilo que é claramente a prioridade é, como diz o documento, criar, restabelecer condições de estabilidade dentro da Europa e de estabilidade estratégica com a Rússia.
O que é que isso quer dizer, exato?
Quer dizer que os Estados Unidos, já tínhamos percebido isso, mas fica aqui a confirmação na letra de um documento oficial, que realmente a prioridade dos Estados Unidos é chegar a uma paz praticamente a qualquer preço com a Rússia. É muito claro noutras partes do documento que os europeus têm, como eles dizem, expectativas irrealistas, estou aqui a citar, sobre a guerra na Ucrânia, que também não percebem que a Rússia não é uma ameaça à Europa. Desse ponto de vista, podem avançar os negócios, podem avançar todos estes acordos entre pessoas próximas do Donald Trump e se calhar a própria família Trump e a elite russa. E no fundo, os europeus é que são aqui um obstáculo a que rapidamente se chegue à paz na Ucrânia e por essa via, se possam voltar a normalizar relações entre a Rússia e os Estados Unidos e também o resto da Europa.
Deve a Ucrânia recear esta orientação com este documento hoje conhecido?
Eu penso que sim. Em nenhuma parte do documento eu encontro qualquer referência à Rússia como sendo uma ameaça, um rival, um problema para os Estados Unidos. Aparentemente, o único problema aqui é que os europeus, por alguma razão que não se percebe, imagino que tenha alguma coisa a ver com a invasão russa da Ucrânia, mas aparentemente não será por nenhuma razão que a atual administração considere válida. O único problema é que os europeus realmente veem a Rússia como uma ameaça. Aliás, tivemos agora uma sondagem nestes últimos dias em nove países europeus, inclusive a Portugal, e temos a generalidade dos países europeus a dizer exatamente isso, que veem a Rússia realmente como uma grande ameaça. E já agora também que veem Donald Trump não como um amigo, mas como um inimigo da Europa ou eventualmente como algo um pouco indefinido.
Esta nova política orientadora da ação externa dos Estados Unidos, que consequências tem ao nível da Aliança Atlântica, da NATO?
Diz aqui uma coisa também absolutamente extraordinária, que é: esta estratégia tem um problema de base, que é, no fundo, para se fazer uma boa estratégia, é preciso partir da realidade, dos factos, de uma análise desapaixonada, fria dos factos. Isto é um documento ideológico, é uma espécie de estratégia, não é uma estratégia nacional, é uma estratégia trumpista. Diz uma coisa extraordinária que é, no curto prazo, vou aqui citar, é mais do que plausível, estou a citar ipsis verbis, que dentro de poucas décadas, o mais tardar, uma parte dos países da NATO vão ter maiorias não europeias. Isto basicamente quererá dizer que a maioria da população de certos países da NATO será de origem não europeia, vamos dizer, imigrantes. Ora, isto não é verdade, não há nenhum estudo que mostre isso. Se formos até 2050, que não é propriamente algo daqui a poucas décadas, não há nenhum estudo que aponte nesse sentido, mesmo que se mantivessem níveis muito elevados de migração, que não é evidente, mesmo que estas populações migrantes continuassem a ter uma natalidade muito elevada, o que também não é o que historicamente acontece, tendo a haver uma convergência com os países de acolhimento. Mas a ideia é que se isso for assim, vai querer dizer, volto a citar, que vão deixar de se identificar com a NATO. Basicamente, a conclusão que eles tiram daqui é: temos de ajudar os países europeus a contrariar estas políticas erradas migratórias. Temos de ajudar a promover os partidos patrióticos. Há aqui assumidamente uma agenda de interferência na política interna europeia, inclusive partidária. E ao mesmo tempo, vamos defender menos a Europa. Vamos interferir mais, vamos querer ter mais influência até na política interna, dizer em quem é que os europeus devem votar ou não devem votar, mas não vamos defender tanto, desde logo também não é preciso, porque a Rússia não é uma ameaça e os europeus é que devem tratar desses assuntos.
Já aqui referiste que há uma estratégia regional para a região das Américas e particularmente sobre a Venezuela. Esta estratégia nacional torna mais claro o que pretendem os Estados Unidos?
Sim, há uma referência expressa à doutrina Monroe, que foi algo que eu também referi, que vem do século XIX. Esta ideia de uma hegemonia americana, de uma esfera de influência americana. É mesmo esse o título do capítulo sobre as Américas. Aquilo que isto mostra também é que a grande questão na Venezuela não é realmente a questão das drogas, nem sequer tanto os recursos, é esta ideia que é assumida para o conjunto do continente, que é: vamos tentar afastar líderes políticos que não estejam alinhados com Donald Trump, com o trumpismo, e vamos tentar promover políticos que estejam alinhados com essas ideias. E outra questão é que esta concentração de meios militares que nós temos interpretado como sendo a indicação de que haverá uma intervenção militar numa escala significativa, na verdade, também pode significar, ou até significa principalmente outra coisa, que é dita aqui claramente, que é: tem de haver mais meios militares nas Américas. Historicamente, a maior parte da Marinha, dos meios militares norte-americanos estão ou no Mediterrâneo ou no Pacífico, mas aqui a ideia é que deve haver uma concentração muito maior. Neste momento, já à volta de 30% da Marinha americana está nesta zona das Caraíbas e provavelmente o objetivo é que pelo menos uma parte desses meios fiquem por ali, independentemente de haver ou não intervenção.
Retirando do Mediterrâneo e do Pacífico?
Retirando de outras regiões, em particular do Mediterrâneo, em particular dos mares europeus, porque a Ásia Pacífico também continua a ser vista como uma prioridade importante.
Só falta sabermos exatamente o que prevê este plano elaborado pela administração de Donald Trump para o Médio Oriente e também para a China.
Em relação ao Médio Oriente, o título também é bastante revelador, começando pela Ásia, que é mais importante, é logo o segundo continente a seguir às Américas, vencer o futuro econômico e evitar um confronto militar. A ideia aqui é sobretudo esta guerra comercial com a China. Os Estados Unidos têm de ganhar essa guerra comercial com a China, têm de reequilibrar as coisas. Não podem abandonar a região porque ela é demasiado importante também em termos militares, aí não há essa agenda de sair, como é o caso da Europa ou também do Médio Oriente. No caso do Médio Oriente, o título é: vamos pacificar e passar o principal encargo de manter a segurança da região para outros. A ideia é que está tudo basicamente bem com este processo de paz e que o que é importante é apostar na dimensão econômica, captar investimentos, captar compras de armamento, nomeadamente os países do Golfo, que também é algo que já tínhamos percebido que seria a grande prioridade norte-americana.
Muito bem, as linhas gerais desta nova estratégia de segurança nacional e política externa dos Estados Unidos, tema central deste Gabinete de Guerra de sexta-feira, hoje com o historiador Bruno Cardoso Reis.