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Gabinete de Guerra da Rádio Observador com o painel residente Bruno Vieira Amaral, Vanessa Cruz, também a Judite França e o Bruno Cardoso Reis. Nesta última reunião da semana, Vanessa, olhamos para estas eleições regionais russas e também para as negociações entre as Nações Unidas e Moscovo sobre o acordo para a exportação dos cereais.

O jornal alemão Bild é que conta que António Guterres estará secretamente a negociar com a Rússia para reativar esse acordo de cereais e que estará em cima da mesa deixar cair a maioria das sanções impostas a Moscovo. Bruno Cardoso Reis, bem-vindo. É de acreditar que assim seja? Bruno, penso que estás conosco. Sim.

Acho que é de acreditar que haja negociações secretas, ou se quisermos discretas. O próprio Erdogan, quando se encontrou com Putin na semana passada, disse que continuava a haver negociações e continuaria a haver negociações, nomeadamente com a mediação das Nações Unidas. Portanto, esse aspecto não é de estranhar. E obviamente há razões para isso acontecer e essas negociações realmente são importantes, porque estamos perante uma questão que tem uma dimensão humanitária muito importante. Eu recordo que o Programa Alimentar Mundial das Nações Unidas, que é uma das agências humanitárias do sistema das Nações Unidas, antes da guerra dependia quase 50% de cereais ucranianos, portanto, praticamente o resto do mundo dava tantos cereais, ou vendia tantos cereais a esse programa, como exclusivamente à Ucrânia. Há aí, obviamente, uma razão de grande peso para as Nações Unidas se empenharem neste tipo de negociações, que corresponde também exatamente ao seu perfil, que é muitas vezes procurar minorar o sofrimento causado pelos conflitos e procurar alguns compromissos, mesmo que não em relação ao fundo do conflito, pelo menos em relação a alguns aspectos. Aquilo que não me parece crível e que não me parece que seja realista também, é que as Nações Unidas estejam a trabalhar num cenário em que haveria levantamento da generalidade das sanções, como aposta a questão, à Rússia. Acho que isso realmente não é realista. Não há condições, inclusive políticas, para isso ser aceitável para os países ocidentais, que deixaram muito claro desde o início deste conflito que não iriam intervir militarmente de forma direta, porque isso poderia levar a uma Terceira Guerra Mundial, mas esta agressão russa teria como resultado o reforço do apoio militar à Ucrânia e também sanções sem precedentes contra a Rússia para a fazer pagar por quebrar um dos pilares da ordem internacional em vigor desde 1945. Eu acho que algumas cedências, por exemplo, a que o próprio António Guterres apresentou publicamente, esta proposta de se criar uma filial do banco agrícola russo que pudesse voltar a ter acesso ao sistema financeiro internacional, ao Swift, ao mercado dos dólares, apenas para vender cereais e fertilizantes, acho que isso poderá ser realista e é normal que Guterres continue a defender esse tipo de proposta. Agora, acho que simplesmente acabar com o regime de sanções, isso não me parece minimamente realista.

Bruno, estão a decorrer eleições nas regiões ocupadas pela Rússia. A Organização para a Segurança e Cooperação na Europa e os Estados Unidos já vieram naturalmente classificar este ato eleitoral de ilegítimo. O resultado é de adivinhar, mas poderá haver aqui margem para alguma surpresa, para resultados inesperados?

Não há margem para isso. Por um lado, pelas circunstâncias, estamos a falar de eleições regionais em regiões que só são parcialmente ocupadas pela Rússia, mas supostamente governariam todo esse território. Regiões que, na zona ocupada pela Rússia, ficaram esvaziadas de grande parte da sua população residente. Muita, nomeadamente a que se opunha à ocupação russa, fugiu para a Ucrânia, outra inclusive fugiu para a própria Rússia. Não há nenhumas condições para achar que numa zona de guerra, com a presença de tropas russas, nós todos vimos imagens de boletins de voto andarem de casa em casa acompanhados de tropas com metralhadoras, tropas russas. Não há a mínima condição para achar que são eleições livres. Além do mais, basicamente os candidatos todos estão alinhados com a política russa, estão alinhados até com o partido do presidente Putin, defendem a anexação e obviamente não haveria condições também para defenderem outra coisa. Porque como sabemos, por exemplo, opor-se à ocupação, a esta guerra na Rússia, e este território é tratado pela Rússia como território seu, pode implicar penas de prisão até 15 anos. Portanto, não há margem aqui para qualquer tipo de surpresa.

Bruno, vamos aqui a outro ponto. Estamos aqui hoje um bocadinho com eco, mas acho que a situação está ultrapassada. A Ucrânia, olhamos aqui para Zelensky, que hoje acusou diretamente Vladimir Putin da morte de Prigozhin, não apresentou o presidente ucraniano provas concretas, disse apenas que é essa a informação que tem. Estamos a ver esta semana a Ucrânia falar mais do que uma vez, de resto, da morte do líder do grupo Wagner, quando até aqui nem parecia muito interessada em cavalgar isto. Há aqui alguma interpretação?

Francamente, acho que não. Acho que isso foi um pouco uma resposta aos jornalistas. O próprio presidente Zelensky também não adiantou dados novos que permitissem confirmar isso. Acho que, no fundo, isto corresponde a ele fazer a mesma avaliação que a maior parte das pessoas de boa fé e de bom senso fazem, que tendo em conta um padrão bem documentado de assassinato pelo regime de Putin, de opositores, de todos aqueles que são vistos como uma ameaça ao regime. Parecia provável, muita gente, o próprio Aqui fui dizendo que Prigozhin provavelmente, logo que deixe de constituir uma ameaça, logo que deixe de ter um grupo bem armado a marchar sobre Moscovo, provavelmente não tem uma grande esperança de vida. E portanto acho que corresponde a isso. Não daria um especial relevo às declarações do presidente Zelensky, a não ser, claro, que ele tivesse apresentado algum tipo de dado que pudesse trazer algo novo à discussão. Acho que nessas declarações aquilo que eu achei mais interessante foi Zelensky aproveitar para picar um bocadinho os aliados ocidentais e vir dizer que sim, é verdade que a guerra está a ser lenta, é verdade que esta ofensiva está a ser lenta, mas ainda assim está a ser mais rápida do que a entrega de certos sistemas de armamento e do que o avanço no sentido de novas sanções contra a Rússia. Portanto, ligando os objetivos ocidentais com os meios ocidentais. Ou seja, é verdade que se os líderes ocidentais querem avanços mais rápidos da Ucrânia, é normal que a Ucrânia diga: "Então deem-nos mais rapidamente os meios militares", por exemplo, os tanques Abrams americanos, que estão há muitos meses prometidos e ainda não chegaram.

Bruno, a Ucrânia está a preparar os sistemas de defesa aérea para eventuais ataques ao sistema energético durante o inverno, que é um problema. Com o armamento que tem recebido, podemos pensar num inverno menos doloroso para os ucranianos, se compararmos com o do ano passado?

Eu acho que é importante que este planeamento esteja a ser feito. Torna mais provável que haja uma resposta mais eficaz, seja em termos de defesas antiaéreas, seja em termos de preparar a capacidade para reparar, para substituir equipamento. É verdade que tem continuado a chegar equipamento antiaéreo nestes meses e o sistema tem estado continuamente a ser reforçado. Agora, a Ucrânia tem um problema de base fundamental, que é realmente o maior país da Europa a seguir à Rússia. É um país muito grande e isso torna muito difícil conseguir ter um sistema antiaéreo eficaz que cubra todo o território. O sistema antiaéreo mais eficaz do mundo, consensualmente, é o israelita, mas Israel é um país pequeníssimo, é um país mais pequeno do que Portugal. A Ucrânia é várias vezes maior do que Portugal. E ainda assim, mesmo o sistema israelita não é 100% eficaz. Está muito perto disso, anda sempre nos 90 e tal por cento, mas ainda assim algumas coisas passam e esse é o grande problema ucraniano. Eles provavelmente conseguirão aumentar significativamente a sua capacidade antiaérea, mas ainda assim há muitas zonas do território que é impossível de cobrir 100% com estes novos sistemas.

Deixa-me só voltar aqui ao armamento, Bruno. Caiu há pouco no live blog do Observador, que segue a par e passo estes desenvolvimentos da guerra, que os primeiros Leopard doados pela Dinamarca, Alemanha e Holanda já chegaram à Ucrânia. Pode ajudar a impor um novo ritmo na contraofensiva ucraniana? Há pouco falavas das declarações de Zelensky, de que a guerra está a abrandar, mas estes Leopard podem, de facto, ajudar a impor um novo ritmo?

Sim, são os primeiros da geração anterior, do Leopard 1, vamos dizer assim, que entrou ao serviço no final dos anos 60. Portanto, se quisermos, uma versão pior do que aquela que foi entregue, por exemplo, por Portugal, pela Suécia e pela Alemanha. Demoraram mais tempo porque estavam em reservas de guerra, portanto tiveram que ter algum trabalho de manutenção e suponho também eventualmente alguma modernização. Ainda assim, é melhor do que muitos dos tanques que a Rússia está agora a colocar ao serviço, inclusive alguns são modelos dos anos 50, portanto ainda anteriores. Seria melhor chegarem já os Abrams? Sim, mas numa guerra prolongada, com ofensivas contra linhas defensivas em profundidade, a quantidade também importa e portanto, acho que é importante que vão continuando a chegar estes sistemas de armamento. Por si só, nenhum sistema vai resolver o problema, nenhum sistema de armamento por si só ganha uma guerra. Agora é realmente muito importante, sobretudo para a Ucrânia, que começou sempre com uma enorme desvantagem em todos os sistemas de armamento, sobretudo os mais pesados, mais avançados em relação à Rússia, em muitos casos 10 para 1. É muito importante que isso vá sendo equilibrado, vá sendo compensado e portanto acho que é realmente uma notícia importante. É pena que não tivessem chegado mais cedo, porque sabemos que agora estamos numa corrida contra o tempo em relação às chuvas do outono e às lamas do outono. Vamos ver quando é que chegam e também é preciso ter em conta que o sul da Ucrânia, a Ucrânia novamente é um país muito grande, o sul, a zona mais próxima da Crimeia, é uma zona bastante mais quente e seca do que o norte, mas ainda assim teremos de ver. E depois também há o inverno. Se o terreno congelar, pode voltar a ser uma boa altura para usar este tipo de meios. Mas sobretudo, acho que isto é um sinal que confirma este dado, que estamos perante um conflito prolongado. E uma das razões para isso é que os países ocidentais também não tiveram capacidade de intensificar o fornecimento de sistemas de armamento mais avançados à Ucrânia.

Bruno, fica a análise feita hoje no Gabinete de Guerra, mas estás de volta ainda este fim de semana para o Cinco Continentes, depois das 11 da manhã, amanhã. Depois disso sim, é que vais descansar. Bom fim de semana, Bruno.