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Gabinete de Guerra das manhãs 360, espaço diário onde focamos nossa atenção nos vários conflitos. Hoje com a ajuda de Miguel Baumgart, especialista em relações internacionais. Bom dia, Miguel.
Olá, bom dia, João Miguel. Como é que está? Tudo bem?
Tudo bem. Miguel, a diplomacia ucraniana está a apostar num acordo duradouro e não numa solução provisória, pelo menos é o que refletem as palavras do Ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano. Já Putin não abre mão do Donbass e foi bastante vocal nessa afirmação. Na semana passada, Miguel, parecia-me estar mais perto de um acordo de paz, quando surgiu na imprensa aquele draft ou aquele rascunho dos 28 pontos alegadamente propostos pela administração Trump. E agora estamos mais longe da paz na Ucrânia?
Não, eu acho que nós na semana passada não estávamos mais próximos da paz. Na semana passada, nós estávamos mais próximos de ter um entendimento exatamente daquilo que os Estados Unidos estavam dispostos a abrir mão, digamos assim, para que a Rússia mantivesse a sua posição maximalista e tivemos ali, digamos assim, isto foi quase como um clarear das águas para que se pudesse ver exatamente a posição dos Estados Unidos e para que a Europa também tivesse a capacidade, como se viu ontem por aquilo que foram as declarações daquela reunião entre os vários líderes europeus e Zelenskyy, que saiu cá para fora, é que a própria Europa já se apercebeu que não pode contar com os Estados Unidos, que não pode confiar nos Estados Unidos, e, portanto, a mim o que me parece foi que no momento de grande fragilidade de Zelenskyy, quer seja politicamente, com os casos de corrupção, a queda do seu chefe de gabinete, que era o seu mais próximo, os seus aliados mais próximos que já tiveram que sair do governo por essa crise da corrupção, e no momento em que a Rússia está mais forte militarmente e tem conseguido alguns avanços, a tentativa de derrubar Zelenskyy, de fragilizar Zelenskyy ao ponto de o fazer acabar por bater com a porta e ir-se embora. Esta semana voltamos à estaca zero, ou seja, à posição daquela linha vermelha de que Putin não sai. Portanto, Putin quer a entrega total dos territórios onde ocupa parte deles, quer efetivamente uma Ucrânia que seja possível à Rússia controlar e quer efetivamente desgastar a Europa no sentido de, digamos assim, de alguma forma, a afastar dos Estados Unidos e deixar a Europa completamente isolada. É isso que nós estamos a ver. E vemos os Estados Unidos que também têm uma pequena disputa interna. Se ao mesmo tempo temos Whitcomb, que é extremamente próximo de Putin, que é um homem que tem olhado para a relação econômica e comercial dos Estados Unidos e a Rússia, por outro lado, nós vemos Marco Rubio mais próximo daquilo que seria um entendimento com a Ucrânia e com a própria Europa. Portanto, também dentro da administração americana existe uma certa disputa de quem está mais próximo da Ucrânia, quem está mais próximo da Rússia. Mas ao final, digamos assim, ao final o que nós vemos é que a Ucrânia realmente quer um acordo real de paz, com garantias de segurança para o futuro. A Europa quer também, com esta garantia real, garantir a sua própria segurança e ao mesmo tempo saber com o que conta. Agora, estamos muito longe disso. Parece-me que nós estamos longe e parece-me que nós vamos continuar nesta guerra. Neste momento, vamos ser francos, neste momento o que aconteceu foi que mais uma vez Putin tem as cartas na mão. Porque se de um lado tem o apoio incondicional da China, quer seja militar, quer seja financeiramente, do outro lado acaba por garantir também um apoio do próprio Estados Unidos ao abandonar a sua imparcialidade e a tornar-se, neste momento, um parceiro de Moscou.
Entretanto, na Europa, o chanceler alemão Friedrich Merz desloca-se hoje a Bruxelas para discutir o plano da Comissão Europeia de aceder aos ativos congelados russos para financiar a Ucrânia. Será desta, Miguel, que a Bélgica cede às pressões europeias?
Eu entendo a questão da Bélgica e a questão do seu primeiro-ministro. Na questão do medo da fuga aos mercados por parte daquilo que são os vários fundos soberanos. Não é só o Fundo Soberano russo, mas há outros fundos soberanos. Agora, eu não entendo foi aquilo que o primeiro-ministro belga veio dizer de que era impossível derrotar a Rússia e que a Rússia ia ganhar esta guerra e por essa razão também não queria mexer nos ativos. A mim o que me parece é que Friedrich Merz, que não entrou tão bem como a Europa precisava que ele tivesse entrado quando venceu as eleições na Alemanha, aos poucos tem vindo a entender e também tem vindo a mostrar uma certa liderança que a Europa precisa. E o que me parece aqui é que ele vai mesmo sentar-se com o presidente belga, mais a presidente da Comissão Europeia. Não é para tentar, eu acho que é para forçar. Eu acho que é para encostar, digamos assim, à parede o primeiro-ministro belga e dizer que efetivamente existe a necessidade importantíssima de financiar a Ucrânia, de que o financiamento da segurança da Ucrânia é também o financiamento da segurança da própria Europa. E parece-me que Merz vai encostá-lo à parede e vai tentar lhe mostrar que não há outra solução. E que a Europa tem que tomar esta decisão, que é ortodoxa, que não está completamente alicerçada no direito, que o próprio Banco Central tem algumas dúvidas, mas que é um ato político determinante para a sobrevivência da Ucrânia, mas também para mostrar que a Europa é capaz de tomar esse ato político e, portanto, ganhar força e ganhar capacidade de negociação. E acho que é isso que Merz está a tentar fazer. Ou seja, resumindo, Merz está a tentar assumir, de uma vez por todas, a liderança da Europa.
Da Europa. Miguel Baumgart, muito obrigado pela sua análise e bom fim de semana.
Muito obrigado.
Obrigado.