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Este é o Som do Gabinete Guerra das Manhãs 360 esta quinta-feira com a análise do historiador Bruno Cardoso Reis. Olá Bruno, bom dia, bem-vindo.

Olá, bom dia. Obrigado.

Bom dia. Começamos pela primeira-ministra da Dinamarca que diz que a guerra híbrida que a Rússia está a travar contra a Europa é apenas o início, que os europeus têm de perceber o que está em risco e discutir mais profundamente a defesa. Por cá, Luís Montenegro diz que não há indícios de sabotagem russa em Portugal. Bruno, isto não quer dizer que não possa estar a acontecer ou virá a acontecer, mas que leitura fazes das duas declarações?

Acho que as duas realmente fazem algum sentido, mas o ponto é qual é o nível de risco para frente. Recentemente surgiu um mapa publicado pelo IISS, pelo Institute of Strategic Studies de Londres, que procura sistematizar ações de sabotagem contra infraestruturas críticas, ou seja, energia, transportes, fábricas de armamento, estruturas como cabos submarinos, etc. E realmente, há dezenas de incidentes por toda a Europa, mas eles estão muito mais concentrados nos países bálticos, nos países escandinavos, nos países da Europa de Leste e Europa Central. E depois há dois ou três casos em que não aparece nada reportado, inclusive também assassinatos suspeitos. Por exemplo, Espanha tem dois casos desses, mas Portugal não tem, a Itália não tem, a Irlanda não tem, a Croácia também não tem, ou Hungria. O que isto quer dizer? Que apesar de tudo há que ter aqui algum cuidado. Quando, por exemplo, o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, que ainda por cima tem o histórico que nós conhecemos em relação aos países do sul da Europa, como primeiro-ministro dos Países Baixos, vem dizer que todos os países da Europa estão igualmente em risco, são igualmente visados pela Rússia, isso evidentemente não é verdade. A Rússia tem direcionado muito mais os seus ataques para os seus vizinhos próximos. Agora, daí deduzir que os outros países da Europa que têm estado a mostrar solidariedade, coesão na defesa do conjunto da Europa contra a agressão russa, solidariedade e coesão com os seus aliados, inclusive da NATO, além da Ucrânia, dizer que esses países realmente não estarão em risco, isso já me parece ser um erro. Parece-me evidente que temos aqui sinais muito fortes de que realmente a Rússia está a fazer uso de todo o tipo de instrumentos de guerra híbrida, de guerra na zona cinzenta, ou seja, ações que não são inclusive coisas como ciberataques e desinformação, isso já é muito mais generalizado, mas mesmo ações físicas, de sabotagem, assassinato, etc., que muitas vezes são difíceis de atribuir de forma inequívoca, que a Rússia pode alegar que são acidentais, que são sem intenção, a questão dos aviões violarem o espaço aéreo, etc. Tudo isso para procurar manter uma pressão constante, procurar mostrar aos europeus que há um preço a pagar pelo apoio à Ucrânia, sem correr o risco de haver uma resposta mais robusta, ou seja, de haver um alargamento do conflito.

Bruno, ainda sobre a questão dos drones, Viktor Orbán defende que os países da União Europeia devem abater aqueles que entrem nos seus territórios sem autorização, mas ao mesmo tempo, o primeiro-ministro da Hungria também diz que não há alternativa ao petróleo russo. Isto é Viktor Orbán a jogar para os dois lados, Bruno?

Sim, o termo técnico é dar uma no cravo e outra na ferida. Acho que é exatamente isso. No fundo, Viktor Orbán está a perceber que há uma irritação crescente com as suas posições equívocas nesta questão, que há uma série de países que são cada vez mais visados por estas ações, que têm aqui um nível de risco e de perigo. Temos inclusive incêndios, temos drones que podem eventualmente chocar contra um avião, por exemplo, inclusive um avião de passageiros. Sabemos que aliás, a Rússia tem um histórico neste conflito, aquele abate do avião de passageiros da Malaysia Airlines com muitos europeus, em particular holandeses, a viajar nesse avião, que agora já foi atribuído de forma inequívoca até por tribunais internacionais a ações da Rússia. Há uma irritação crescente e Orbán no fundo quer passar a mensagem de que ele não está contra que os países europeus se defendam, contudo continua a insistir sempre numa linguagem equívoca ou em muitos casos pró-Rússia, e sobretudo que tem a ver também com os seus próprios interesses. É evidente que isso não é verdade. O petróleo russo pode ser substituído, eventualmente com custo, mas pode ser substituído, tanto pode que a generalidade da Europa tem substituído quer o petróleo, quer o gás natural russo, assumindo os custos que isso implica. É evidente que isso pode acontecer. Só não acontece no caso da Hungria, porque realmente Orbán não quer fazer isso, quer por razões económicas, quer porque muitas vezes tem mostrado alguma simpatia até ideológica com o próprio regime russo, com este modelo mais iliberal, mais autoritário, de concentração de poder pessoal da Rússia.

Sobre o Médio Oriente e a proposta de Donald Trump, por que Tony Blair aparece neste plano de Gaza, Bruno? Blair tem condições para vir a liderar um governo na Faixa de Gaza?

Ele aparece lá porque realmente tem um longo histórico de envolvimento no Médio Oriente, desde logo a própria guerra do Iraque em 2003. Isso cria-lhe bastantes anticorpos, se calhar até mais na Europa do que no Médio Oriente, porque no Médio Oriente não há propriamente currículos exemplares entre potenciais estadistas que estejam envolvidos nestas questões. Alguns têm até currículos um pouco mais questionáveis do que Tony Blair, mas realmente, independentemente disso, ele tem esse histórico de ligação ao Médio Oriente. Tem um histórico também de relações muito boas com Com republicanos e democratas, mas neste caso em particular com republicanos, apesar de ser um primeiro-ministro de esquerda, da esquerda trabalhista britânica, com os republicanos, com a direita norte-americana, se quisermos. E também um longo histórico de relações com altos responsáveis na região do Médio Oriente. Inclusive, foi um enviado especial do chamado Quarteto, que foi uma estrutura criada para tentar manter vivo o processo de paz na Palestina. Portanto, é claramente por essa conjugação de fatores que ele aparece aqui, apesar de estar retirado da vida política ativa britânica há bastante tempo.

Quanto ao flotilha humanitária, várias embarcações foram, como expectável, interceptadas por Israel. Bruno, como saber o que se segue para quem foi detido?

Eu acho que é bastante previsível saber o que é que se segue. À partida serão convidados a sair de Israel e a regressar aos respectivos países. Aparentemente, há aqui esta complicação adicional do Yom Kippur, que é um feriado judaico muito importante, uma espécie de Páscoa, e portanto os serviços não estarão a funcionar normalmente. Não sei se isso afetará um pouco as coisas, mas é bastante evidente que não há aqui risco de acontecer outra coisa, basicamente, pelo menos não se tudo correr como das outras vezes. Quando ouvimos aqui os ativistas a falar de coisas como crimes, de "isto é um crime de guerra", quer-me parecer que havia que ter alguma noção do ridículo. Era evidente que Israel, como tinha anunciado muitas vezes, iria fazer isto, e também é evidente que eles estão aqui a promover uma causa que consideram válida. Estão a chamar a atenção para uma situação que é realmente dramática em Gaza, mas não estão propriamente a correr um grande risco pessoal com este tipo de ação. Seria uma situação muito diferente se, por exemplo, fossem tentar dar ajuda humanitária à cidade de Faxoca, que está cercada no Sudão pelas forças da Ação Rápida, onde há realmente também um risco de massacre e de fome muito séria. Aí eventualmente o risco já seria bastante maior, mas neste caso não me parece que seja o caso.

Bruno Cartaxo Reis, muito obrigada pela tua análise. Bom final de semana, Bruno.

Obrigado.

Obrigada.

Obrigado.