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Major-General Isidoro Moraes Pereira, bem-vindo. António Guterres invocou o artigo 99 da ONU para forçar o Conselho de Segurança a abordar a situação da Faixa de Gaza. Pode resultar daqui o ambicionado cessar-fogo ou ainda está longe?

António Guterres decidiu utilizar aquilo que podemos designar a bomba atómica da parte dele. Portanto, é a medida que está dentro da sua esfera de influência, o conhecido artigo 99, Guterres ainda não o tinha utilizado. Curiosamente, podia tê-lo utilizado quando se verificou o cerco a Mariupol, onde morreram muitos mais civis do que os que estão a morrer agora em Gaza. Isto são números, mesmo atendendo aos números do Hamas, que têm que ser lidos com algum cuidado. Mas eu julgo que a intenção de António Guterres é, sobretudo, forçar um cessar-fogo que permita a entrada de ajuda humanitária tendente a aliviar o sofrimento das populações. Populações que neste momento estão acantonadas fundamentalmente a sul, junto à fronteira com o Egito, na zona de Rafah, e naturalmente têm carências de toda a ordem, fundamentalmente carências de apoio sanitário, apoio médico, têm carências alimentares. E nalgumas situações, porque o Hamas tudo faz para utilizar estas mesmas populações como escudo, aliás, assim o provam os últimos foguetes que foram lançados contra civis em Israel, que foram disparados, por exemplo, da cidade de Be'er Sheva, no sul de Israel. Estes mesmos foguetes foram disparados perto das tendas de civis evacuados de Gaza, na zona de Rafah, e pertíssimo de instalações das Nações Unidas. Portanto, isto é o padrão de atuação do Hamas, que fundamentalmente utiliza as populações como escudo, o que depois dificulta, naturalmente, as operações levadas a cabo por Israel tendentes a neutralizar esta capacidade militar do Hamas. Quanto à pergunta em concreto, os últimos indicadores, muito embora os Estados Unidos estejam a tudo fazer para que Israel abra uma nova entrada em Kerem Shalom, também no sul da Faixa de Gaza, para que mais camiões com ajuda humanitária possam entrar. Mas eu julgo que será muito difícil desta reunião, que terá lugar hoje, julgo que ainda nem terá começado, face à diferença horária.

Sim, às 15h, hora portuguesa.

Às 15h, hora portuguesa. Não me parece que daqui vá resultar uma resolução que imponha a Israel um cessar-fogo imediato. Julgo que os Estados Unidos não irão aprovar tal resolução. A Inglaterra, tenho muitas dúvidas que haja uma. Fundamentalmente, eu julgo que temos que ter alguma esperança de que esta fronteira de abertura de Kerem Shalom possa melhorar as condições e o fluxo da ajuda humanitária à Faixa de Gaza. E vamos ver se Israel acaba por ceder ao pedido norte-americano e em vez dos 80, Israel já concordou em passar para 120 mil, mas os Estados Unidos calculam que o mínimo necessário para que as coisas funcionem minimamente na Faixa de Gaza, em termos de apoio à população civil, são 180 mil litros diários. Julgo que Israel poderá naturalmente mostrar, num gesto de boa vontade, a ceder a este pedido norte-americano, o que nos conduz também a que talvez os Estados Unidos, agora na reunião do Conselho de Segurança, não votem favoravelmente ao cessar-fogo, que me parece que vai acontecer.

Isto numa noite em que voltaram a existir vários ataques com Israel a atacar perto de 450 alvos.

É, neste momento são muitos alvos, de facto. Eu julgo que a noite em que terá havido mais ataques terá sido por cerca de 600, mas 450, normalmente o padrão é entre os 250 a 400. Foi uma noite especialmente movimentada, porque neste momento temos de levar em linha de conta que as operações no norte da Faixa de Gaza, muito embora Israel já tenha mais de metade do norte da Faixa de Gaza. Quando eu digo norte da Faixa de Gaza, estou a falar da porção territorial da Faixa de Gaza a norte do rio Gaza. Portanto, aquela região da capital e da zona de Jabalia e toda essa zona da faixa norte, não direi que está completamente limpa da resistência dos terroristas do Hamas, mas já bastante mais de metade desta área já está considerada limpa e segura. Mas as operações continuam no terreno. A infantaria israelita continua a conduzir o combate urbano, quarteirão a quarteirão, edifício a edifício, casa a casa, levando a cabo ações concretas sobre os túneis, procurando selar as entradas/saídas dos túneis. E estamos em crer que a breve trecho, Israel irá colocar em funcionamento um conjunto De motobombas de grandes dimensões ligadas à praia, ligadas ao Mediterrâneo, para encher toda a rede de túneis de água marita, água do mar. O que poderá acabar, naturalmente, com uma das grandes vantagens do Hamas, que é poder, através da rede de túneis, ir se movimentando a coberto da observação das forças israelitas e realizando ações de combate fundamentalmente emboscadas sobre a infantaria israelita. Portanto, no norte de Gaza continuamos a ter ações de bombardeamento, porque ainda existe atividades terroristas, também na zona centro e também na zona sul. Os combates mais sangrentos, tanto quanto consegui apurar, estão a decorrer na região sul, à volta de Khan Yunis, que é a maior cidade da região sul, e onde se crê, pelo menos as informações que os serviços de informação das Forças de Defesa de Israel, o próprio Shin Bet e a própria Mossad, todos eles são unânimes em dizer que Yahya Sinwar, que foi o grande arquiteto e o grande comandante operacional dos ataques de 7 de outubro, estará, neste momento, ele e grande parte da cúpula militar do Hamas. Portanto, daí que os combates façam decorrer, sejam extremamente intensos e sangrentos. Aliás, ontem as notícias já foram veiculadas de que muitos terroristas do Hamas terão sido mortos e também há um número considerável de terroristas que se terão rendido. Do lado de Israel, não tem havido informação acerca do número de militares que terão sido mortos ou que terão sido feridos, com ferimentos graves. A última informação que tive da semana passada já ultrapassava o número de 100. Neste momento, não queremos estar aqui a aventar números, mas será bem superior a esse, porque quando há tropas de infantaria a combater no terreno e a fazer este combate urbano, aquilo que acontece é que normalmente se produzem baixas apreciáveis. Israel poderemos considerar que está a ter sucesso nesta luta contra o Hamas. Portanto, o que dá alguma esperança de que esta guerra não tenha uma duração muito prolongada ou que não se prolongue por muito mais tempo, e que se calhar, muito provavelmente, aquilo que Joe Biden aqui há uns dias atrás terá dito: Israel não tem meses para resolver este problema na Faixa de Gaza, tem semanas. Portanto, esperemos que aquilo que Joe Biden aventou seja uma realidade e que dentro de algumas semanas, sem especificar quantas, que estas operações que Israel tem vindo a levar a cabo, tendentes a eliminar a capacidade militar das Brigadas al-Qassam, do braço armado do movimento terrorista do Hamas, esteja concluído e que rapidamente a situação possa voltar, não direi imediatamente à normalidade, porque há 360 km² com grande destruição, mas que se possa começar a pensar na reconstrução e no futuro.

E no futuro das relações.

E no futuro das relações e num futuro que passe por uma negociação política. Seja ela qual for, seja a solução dos dois Estados, em que é preciso ainda encontrar o verdadeiro interlocutor do lado da Autoridade Palestiniana. Não sabemos se será Mahmoud Abbas. O Hamas, por outro lado, está a começar a ter uma grande influência também na Cisjordânia. Vamos ver como é que as coisas decorrem.