Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Bem-vindos ao "Porque sim não é resposta", com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje falamos de dormir no quarto com os pais e até quando isso faz sentido. Olá, Eduardo. Existe uma idade certa pra criança deixar de dormir no quarto dos pais?
Olá, Judite. Enfim, existe. Em boa verdade, existe. O meu riso nervoso tem uma justificação: eu tenho a noção que estes são assuntos muito sensíveis, que às vezes desencadeiam reações muito eruptivas, às vezes muito zangadas, mas que eu acho que é importante que não fechamos a elas. Não vale a pena nós imaginarmos que o desenvolvimento das crianças tem que ter parâmetros de manual, rígidos, indiscutíveis, etc. É bom que nós tenhamos a noção que esse tipo de parâmetros acaba por ter a ver com a maneira como os pais, intuitivamente, se adequam, no fundo, aos ritmos das crianças. Quando os pais definem uma regra, um ato que entendem como de bom senso, é porque, no fundo, pegaram na sua experiência de vida, pegaram em tudo, naturalmente, também, que leram e, nessas circunstâncias, juntando esses pedacinhos todos, chegam a um patamar e dizem: "É agora". Portanto, em relação ao dormir, eu, desde há muitíssimos anos, que chamo a atenção para o modo como nos dois primeiros meses os bebês ganham se dormirem com a mãe. Não é por acaso. É porque, de facto, aquela relação pele a pele é uma relação que vai ser muito educativa pra eles, até porque, em função da forma muito frágil com que acabam por nascer, tudo o que seja mãe, desde o nascimento, pele com a té, a pele, o contacto corporal intenso, é uma magnífica campanha de vacinação, que faz com que depois do segundo para o terceiro mês, quando o sistema imunitário do bebê, e em boa verdade, o sistema nervoso, levam uma mexidela, os bebês não estejam tão frágeis e, nessas circunstâncias, essas alterações, que são alterações maturativas, não os apanhem desprevenidos e eles ganhem com isso. Do mesmo modo-- diga.
Não, continue.
Do mesmo modo, eu gosto muito que eles saiam do quarto dos pais dos oito para os 12 meses. Saiam com o berço, saiam com aquelas proteções de cabeça do berço, que estão ali a condensar o cheiro da mãe, o cheiro do leite, o cheiro do perfume da mãe, que ainda por cima é um cheiro muito importante e equipados invariavelmente com o urso que os pais têm o cuidado de lá pôr ou um boneco mais pequenino, que no final de contas, é um boneco fofo, macio, quente, que como está muito associado ao espaço da relação do bebê com a mãe, é como se ele, ao afastar-se um bocadinho de forma física dela, acaba por ter sempre a presença simbólica da mãe a olhar por si. Portanto, se nós fizermos destas maneiras, o que nós temos? Os bebês a autonomizarem-se também à boleia dos seus ritmos e com isso tudo a fazer com que essa autonomia não sofra sobressaltos e corresponda, de facto, àquilo que eles são capazes de dar.
O que a criança ganha então quando passa para o seu próprio quarto do ponto de vista emocional?
As ditas crianças aprendem primeiro a adormecer sem a mãe, para depois dormirem sem a mãe, para a seguir serem capazes de passar sem os pais. O ato de dormir, de um ponto de vista do nosso funcionamento, é um ato sofisticadíssimo, porque sejamos razoáveis, o sono profundo que nós temos em determinadas fases do nosso sono é um requisito dos grandes predadores, em que nós ficamos muito vulneráveis. O que é muito importante é que os bebês percebam que adormecerem sem a mãe ou dormirem sem os pais não impede que mal eles digam ai, têm ali um corpo de bombeiros absolutamente disponível para corresponder às suas necessidades. À medida que eles vão experimentando isso, eles ganham autonomia, ganham segurança, percebem que não estão desamparados e que passo a passo, vão podendo ir à escala das suas dificuldades, mas também das suas competências, vão começando a crescer para além da esfera da tutela mais próxima dos pais, o que é muito importante, porque peça a peça, quando se dá conta, eles vão ser capazes de ir pra uma ama, ficar com a tia, com o avô ou finalmente entrarem no jardim de infância. E se fizeram estes degraus todos sem grandes sobressaltos, o próximo vai ser razoavelmente tranquilo também.
Hoje ficamos por aqui. É ligeiramente mais curto este "Porque sim não é resposta", mas voltamos amanhã com mais um tema. Portanto, Eduardo, um grande abraço. Obrigada e até amanhã.
Outro pra si e até amanhã.