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Bem-vindos ao "Porque Sim Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje falamos de uma criança que todos os dias chora quando a mãe a deixa na escola. Olá, Eduardo. Esta mãe escreveu-nos angustiada com esta situação que se repete todos os dias. Quando uma criança de seis anos chora ao ser deixada na escola, o que esse comportamento nos diz do ponto de vista do desenvolvimento da criança?

Olá, Judite. Eu fico um pouco embaraçado, como já me estou. Pode querer dizer alguma coisa sobre o desenvolvimento da criança, claro, mas também pode querer dizer alguma coisa sobre o desenvolvimento da escola. Isto é, em condições normais, as crianças têm dias bons e dias maus, como toda a gente. Às vezes, os professores estão no mesmo comprimento de onda, outras vezes parecem muito longe dele. Às vezes, os amigos são colegas que caem nos braços de uma criança, outras vezes são um pouco mais do que estranhos, por mais que estejam na mesma turma ou na mesma escola. E, portanto, isso faz parte do dia de uma criança e, naturalmente, depois ela tem outra vida, tem uma família e às vezes a família é um sítio acolhedor, mas às vezes também tem os seus dias de reboliço, como todas as famílias. Seja como for, há uma diferença entre o chorar de forma episódica e o chorar de forma contínua. Quando chora continuadamente, eu, se calhar, num primeiro momento, correndo o risco de ser injusto, fico mais atento ao desenvolvimento da escola, isto é, o que está a acontecer para que mesmo que uma criança tenha as suas dificuldades de desenvolvimento, ou as suas necessidades educativas especiais, todas têm, aliás, ainda assim, eu fico preocupado, porque sinto que numa circunstância dessas a escola parece não ser tão versátil a ponto de ir lá buscar, de cativar, de trazer para a relação com os outros e de assustar, porque no fundo se trata um bocadinho disso. Uma escola tem que ser um sítio familiar e quando uma criança todos os dias tem esse comportamento, é como se dissesse à mãe ou ao pai: "Oh, meu Deus, tirem-me deste filme, porque aquilo que parecia ser um lugar acolhedor assusta-me muito mais do que devia todos os dias."

Então deve o pai ou a mãe pedir informação à professora?

É tão delicado, Judite de França, deve sim, senhor. Às vezes têm que pedir de uma forma um pouco mais musculada. Não é chegar lá e partir em loiça, não é isso, Judite, mas as escolas às vezes têm um pouco a ideia de que quando uma criança está a ter dificuldades de se inserir, é porque a imagem de marca da escola fica um bocadinho chamuscada, e não tem que ser assim. Às vezes, há a conjugação destes fatores todos, que em casa não se sentem, mas que ao chegar à escola fazem diferença. É isto que faz diferença. Se uma criança em casa parece estar razoavelmente bem, tanto quanto possível descontraída, mesmo que muito ligada à mãe ou muito ligada ao pai, se este tipo de comportamento acontece fundamentalmente com a escola, alguma coisa se passa ou com a escola ou com um dos colegas que de repente pode ter decidido infernizar a vida dessa criança, o que seja. E, portanto, os pais, de uma forma sensata, mas firme, têm que perguntar à escola o que está a acontecer, como é que se justifica, até para que todos juntos resolvam a situação. Prolongar isto para além do razoável, não, por razões óbvias. Quando uma criança se vai assustando da escola, isto não se cura de um dia para o outro. Vai ficando ali uma névoa, depois uma bruma mais espessa, depois uma dificuldade que parece ter se tornado quase real de tanto diária ela ser. E, portanto, isto tudo junto cria dificuldades onde não é suposto que elas existam.

Há pais que cedem, que voltam atrás, que ficam mais um bocadinho. Isto ajuda ou complica?

Judite, tem dias. Eu também percebo muito bem os pais que quando vão para deixar um filho na escola, se o percebem numa atitude de desespero, e às vezes é mesmo desespero, de "Livra-me, não me abandones." Eu percebo que os pais fiquem que só destroçados e que um episódio desses espatife completamente um dia, porque aquele pensamento e aquela imagem não lhes sai da cabeça. Às vezes as escolas, passada meia hora que se saiba de um episódio como este, lá mandam uma fotografia a dizer: "Está tudo bem", que é quase como quem diz: "Olha, afinal não se passa nada." Passa, evidentemente, se isto é repetido. E, portanto, eu acho que os pais não podem chegar lá e despejar uma criança e fugir, porque isso assusta ainda maisNão podem ficar lá a persuadi-la: "Vá lá, não chores". Porque isso não é razoável, mas em conjugação com o professor, evidentemente que têm que criar uma bolsa de oxigénio para que uma criança perceba que mãe e professor ou professora não estão de costas voltadas e que de uma forma não assustada, estão a tentar resolver uma situação que tem que se resolver, de preferência, muito rapidamente.

É verdade que o choro acontece, mas muitas vezes a criança passados cinco minutos está bem. O que isso pode significar? É o primeiro impacto que é complicado?

Pode significar que, às vezes, depois de ter acontecido um episódio desagradável, pode ser só haver um dia em que as coisas correram mal, só isto. E a partir daí, a mãe ou o pai, através do espelho retrovisor, começarem a dizer: "Olha, promete que te vais portar bem". E às vezes este registo assustadiço da mãe ou do pai ajudam a transformar uma coisa que em condições normais teria a validade de um dia, dois ou três no máximo, e a prolongar tudo isto. Se for só assim, significa que aquele chorar muito rápido é uma espécie de jogo habilidoso com a mãe ou com o pai, ou com quem a deixa, de maneira que ela tenha mais um bocadinho de colo. Se for isso, Judite, que bom que é e, portanto, nada de preocupações, a não ser que a mãe ou o pai, nessas circunstâncias, não podem ficar ali tipos Latina do Arraial, a tremer da cabeça aos pés. "Por favor, fica, vá lá, não chores", porque se for assim, lá temos o caldo entornado.

Esta mãe fala que a criança sente saudades dela. Esta saudade é saudável, mas acaba por se tornar neste sinal de alarme?

Sim.

Ok.

Judite, é saudável, mas repare, não é por acaso que as crianças muito pequeninas, muitíssimo antes de saberem as horas, fazem de conta, e não é por causa da hora da Pepsi, salvo erro, não é por isso que elas se põem a dizer "são quatro horas", porque elas vão interiorizando o tempo da escola e percebem que às quatro, com uma pontualidade mais ou menos suíça, que curiosamente os pais fazem questão de cumprir, e ainda bem, eles aparecem. E, portanto, a saudade não é uma coisa que consuma. Mas a saudade pode querer dizer qualquer coisinha nas entrelinhas, Judite, que é: "Eu ando a sentir a minha mãe muito frágil, às vezes meia tristonha, às vezes a suspirar sem legendas e de repente eu que estava tão descansado com ela, começo a ficar um bocadinho preocupado". Às vezes é uma forma em linguagem cifrada das crianças dizerem com uma delicadeza, que só as crianças são capazes de ter, que ela estará um bocadinho preocupada com a mãe. Aliás, as mães também não se preocupam com as crianças porque está sol ou porque entretanto estamos no inverno. E, portanto, há ali qualquer coisinha no ar que a está a deixar inquieta e muitas vezes as crianças com toda a delicadeza não dizem: "Ui, eu estou a ficar tão preocupado contigo". Dizem: "Estou com saudades", que é como quem diz: "Eu tenho a sensação que se estiver ao pé de ti, tu ficas melhor" e uma manifestação de bondade deste tamanho todo, é motivo para que esta mãe chore comovida e a dizer assim: "Caramba, posso ter feito muitas coisas mal, mas sou capaz de ter criado uma pessoa com uma pinta de todo o tamanho".

E bom, assim é uma boa forma de acabar o programa, Eduardo. Um grande abraço. Obrigada e até amanhã.

Muito felicidades, Judite. Até amanhã.