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A Feira de São Mateus em Viseu foi cancelada. O anúncio foi feito hoje pela autarquia de Viseu, depois do governo ter decretado a suspensão de festivais até ao final de setembro. O presidente da Câmara, Almeida Henriques, disse aos jornalistas que não existem condições para assegurar o distanciamento social e promete o regresso em 2021. Connosco está já Jorge Sobrado, da VisauMarca, a entidade que organiza esta Feira de São Mateus. Com a decisão de cancelar o evento, há agora uma série de questões a tratar. Como é que vai ser em relação ao cartaz para o ano e como é que vão gerir este adiamento?

Bom dia aos ouvintes, obrigado pelo convite. A decisão de cancelamento da Feira de São Mateus é naturalmente uma decisão difícil, que abre um vazio enorme na cidade de Viseu. É um certame histórico com mais de 600 anos e que tem uma dimensão simbólica e cultural extraordinária na cidade de Viseu. Aliás, um dos slogans da feira históricos dos anos 30 era que Viseu é feira e a feira é Viseu. E portanto, abre-se de facto aqui um vazio muito difícil de preencher. A gestão, todavia, é muito sustentável, a gestão do certame é muito sustentável, uma gestão privada, não envolve financiamento público, é 100% privada, mas a saúde financeira da estrutura promotora permite olhar o futuro com esperança e com sentido de sustentabilidade do evento.

Jorge, quanto dinheiro perdem, por exemplo, com este anulamento?

Estamos a falar do ponto de vista de geração de receita interna, estamos a falar de 2,5 milhões. Mas o valor económico da feira e o impacto económico da feira é muito superior. Portanto, segundo o estudo económico científico que foi feito por uma universidade em 2018, por encomenda da VisauMarca, é que a Feira de São Mateus gera internamente, ou seja, dentro das suas portas e na cidade de Viseu, um volume de negócios de 82 milhões de euros. O que era de esperar, porque se dentro da feira estão 300 empresas, se a feira tem 1,2 milhões de entradas e se garante à cidade e a toda a região de Viseu uma taxa de ocupação hoteleira na ordem dos 100% nos meses de agosto e de setembro, era expectável que fosse dessa ordem, quase a chegar aos três dígitos, o impacto económico da feira. E é sobretudo aí que está a nossa preocupação. A VisauMarca, a estrutura promotora, tem, felizmente, a sua sustentabilidade assegurada até ao próximo ano, mas é sobretudo o rasto de perda económica, de perda de emprego, que vai deixar na região que nos preocupa. É que a Feira de São Mateus sozinha justificava a criação de 270 postos de trabalho por ano e na feira trabalham mil pessoas durante o certame.

E como é que isso vai ser compensado agora?

Do ponto de vista de programação, a cidade hoje, quer a VisauMarca, quer o município, que é dono do evento e tem a responsabilidade da política cultural e turística da cidade, apresentou a vontade, o compromisso de um plano B, ou seja, de uma programação alternativa que acomode as exigências do ponto de vista sanitário e sobretudo as preocupações de pequena escala, de microescala, de distanciamento social, de higienização, que um evento de massas como a Feira de São Mateus, que por dia poderia ter 50 mil pessoas no recinto, era uma cidade dentro da cidade, não poderia acomodar. E portanto, em Viseu, nós assumimos o compromisso de, no verão, ter uma programação segura e atrativa, safe and sexy.

Mas essa programação passará pelo mesmo cartaz, por exemplo?

Não, não é possível assumir o mesmo cartaz. Aliás, essa foi, de alguma forma, a razão pela qual entendemos que a Feira de São Mateus deveria ser cancelada. É que o cartaz é um cartaz, naturalmente, para grande público, de massas. O próprio investimento associado a cachês e produção exigiria uma bilheteira forte. Seria um investimento ruinoso realizar alguns concertos para pequenas manchas de público. E, portanto, o cartaz e a quebra, digamos assim, a desistência de um palco e de uma grande praça de concertos foi uma das razões que motivou a decisão de cancelamento. Portanto, nós assumiremos com os nossos promotores, os nossos parceiros, o compromisso de reagendar integralmente a programação para 2021. Assim os artistas convidados e contratados o queiram, entendam. E iremos reprogramar usando de alguma forma a disposição legal que o próprio governo criou para os impactos na cultura da crise da pandemia. Portanto, iremos assumir o compromisso do reagendamento integral dos compromissos que assumimos para este ano em 2021 e criaremos uma programação à medida, espalhada por três meses, julho, agosto e setembro, mais espaçada, também distribuída na cidade de Viseu. Felizmente, a cidade de Viseu é uma cidade de praças, pracinhas, jardins, parques, o próprio recinto da feira, e portanto será distribuída no tempo e no espaço, de modo a contemplar mais de 100 microeventos que irão de alguma forma ativar uma retoma cultural, mas também económica. Na verdade, nós compreendemos que temos que nos acomodar às exigências sanitárias, ter a consciência de que este é um tempo de responsabilidade e de prudência, mas não baixar os braços num objetivo que é também tão importante quanto o sanitário, que é garantir as condições de vida e de sustentabilidade para o futuro. Isso quer dizer apoiar o pequeno comércio, apoiar a restauração e hotelaria, apoiar o tecido cultural local e regional. E teremos também alguns artistas nacionais convidados, com certeza que sim. Portanto, teremos a preocupação de fazer alguns convites também a artistas nacionais e eventualmente alguns artistas da feira cuja dimensão do público expectavelmente possa enquadrar-se neste espírito de programação, mas não deixaremos de ter um plano B. Não será a feira, teremos que assumir esse peito, essa decisão. Não será a feira, mas será um evento que será atrativo na comunidade, mas também para o turismo, porque a cidade vive também muito do turismo e queremos que esse setor se reanime com todos os cuidados.