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Bruno Ferreira Costa é especialista em Ciência Política, é professor na Universidade da Beira Interior, está agora em direto neste jornal. Bom dia, Bruno Ferreira Costa. Com tantas contradições que foram ouvidas ontem, o que é que pode sair da audição de hoje com João Galamba?

Muito bom dia. A primeira expectativa é que não saia o cenário lamentável que todos nós ontem vimos e assistimos com esta comissão parlamentar de inquérito. Isto claramente, do meu ponto de vista, é um ataque às instituições, um ataque à qualidade da democracia. Em relação a João Galamba, aquilo que me parece que vai ser evidente, porque todos os dados assim o indicam, são as contradições do ministro João Galamba, não só em relação ao convite para a reunião secreta de 17 de janeiro, à reunião prévia de 16 de janeiro, mas também em relação a este caso do SIS. Ou seja, nós todos ouvimos o ministro referir que após um contacto com a Ministra da Justiça, foi desencadeado o contacto junto das duas entidades. E João Galamba referia-se a duas entidades concretas, referia-se à Polícia Judiciária e ao SIS. A versão da ministra ontem, que falou pela primeira vez sobre o caso também no Parlamento, já é diferente. Refere que o telefonema apenas foi referente precisamente à Polícia Judiciária. Mas tudo isto é lamentável, porque de facto nós teremos versões completamente antagónicas, versões completamente distintas, mas mais preocupante para verificar a verdade dos factos, é nós assistirmos ao desaparecimento de informação crucial. Ou seja, de facto as imagens do quarto piso não funcionam, um conjunto de mensagens do telemóvel foram apagadas. Portanto, são muitos episódios que alimentam uma profunda dúvida sobre tudo aquilo que se terá passado. Mas no limite, do meu ponto de vista, a questão central que deve ser feita a João Galamba, independentemente de nós acreditarmos mais numa ou noutra versão, é se de facto ele não se sente responsável por tudo aquilo que se passou dentro do ministério. Ou seja, o impacto deste episódio extravasa qualquer questão de bom senso. E portanto, mesmo que acreditemos na versão de João Galamba e da sua equipa, o facto de ter havido um conjunto de potenciais agressões, termos aqui, de facto, o governo, a democracia discutidas com estes termos, com estas suposições em praça pública, abalam claramente a credibilidade de João Galamba. E portanto, eu acredito, até pela remodelação dos membros da própria comissão de inquérito, que o debate será centrado precisamente nestas contradições de João Galamba e numa questão também muito relevante. Ou seja, é difícil nós acreditarmos que em reuniões oficiais não existam atas, não existam notas, não existam registos. Ou seja, teríamos de acreditar que a gestão pública, que a gestão de assuntos tão importantes do Estado, seria feita quase com base na memória, porque de facto não ficaria nenhum registo. Tal como não é admissível a teoria de que só no computador do ex-assessor Frederico Pinheiro existisse a informação do plano de reestruturação da TAP. Ou seja, isto é um nível tão amador que a confirmar-se isto por parte de João Galamba, nós temos de levantar um conjunto de questões sobre toda a credibilidade e toda a estrutura e o modus de funcionamento do governo e mais concretamente do ministro, agora suportado por António Costa, que de facto abala qualquer perceção que nós tenhamos sobre quem nos representa e sobre quem tem responsabilidade de defender o interesse público.

E portanto, Bruno Ferreira Costa, até pelo que está a dizer, parece-lhe que esta comissão parlamentar de inquérito vai deixar as questões mais técnicas serem ultrapassadas pela questão política a partir de agora?

Essa é outra questão central, porque ontem assistimos em alguns momentos a alguma tentativa do novo presidente da comissão parlamentar de inquérito de recentrar o debate na tutela política da TAP por parte do Estado e num período balizado entre 2020 e 2022. Foi para isso que essa comissão parlamentar de inquérito foi criada. Mas de facto, os acontecimentos, os episódios, o próprio interesse público associado ao caso, faz com que as questões e faz também com que o interesse mediático neste momento esteja centrado nesta vertente política, nesta gestão política da situação, até porque foi isso que esteve na base do conflito institucional entre o primeiro-ministro e o Presidente da República. É verdade que Lacerda Sales foi autorizando um conjunto de questões muito mais transversais àquilo que era a base de criação desta comissão parlamentar de inquérito, mas aqui nós só teríamos eventualmente uma solução alternativa. Se houver aqui um bloqueio ou uma recusa de João Galamba de responder às questões que lhe forem colocadas, a possibilidade de uma nova comissão parlamentar de inquérito sobre nomeadamente essa questão da atuação do SIS, porque nós temos aqui uma posição muito clara. Mentir a uma comissão parlamentar de inquérito tem a mesma validade do que mentir num tribunal. E a partir do momento em que temos duas versões completamente opostas, temos de acreditar que alguém está a mentir. Portanto, há aqui um grau de seriedade que não pode ser relegado e eu creio que o ministro, que já foi em vários momentos confrontado, se não com mentiras, pelo menos com posições diferentes em relação ao comunicado de 6 de abril, por exemplo, e à comunicação pública que fez no momento em que assumiu ter condições para continuar, há de facto um conjunto de contradições insanáveis. E portanto, vamos ver qual é a versão final que João Galamba apresenta, porque é essa que a partir desse momento é validada para esse efeito.