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Verde, amarelo, vermelho são as cores do semáforo político que se liga sempre, mais ou menos por esta hora, na Rádio Observador, para acelerar, abrandar ou parar. Depende sempre da destreza das nossas condutoras de serviço e daquilo também que ditam as luzes, Luís.
E as nossas condutoras hoje são a Judite França e a Raquel Bocasis. Na frente vai hoje a Raquel. Raquel, e o Chega, será que vai? André Ventura quer enviar os salários dos políticos para o Tribunal Constitucional. Este é o tema que queres sinalizar hoje.
É, vamos lá ver se tenho destreza para me explicar.
Isto da destreza não te saiu muito bem, pareceu.
Vamos ver. Porque André Ventura agora inventou um novo argumento, que é exigir ao senhor Presidente da República que mande, imaginem só, o orçamento para o Tribunal Constitucional, com todo o atraso que isso implicaria para o país e para o processo orçamental e para o país poder ter um orçamento em janeiro, porque acha que esta questão do corte dos salários dos políticos deve ser observada, avaliada pelos juízes do Tribunal Constitucional. Só que se esqueceu de dizer ao abrigo de que artigo. Porque que o Tribunal Constitucional se pronuncie sobre cortes, isso nós já vimos muitas vezes, e até contrariamente aos cortes que Pedro Passos Coelho, na altura da troika, quis impor a alguns setores. Agora, o fim de cortes, eu não estou a ver, francamente. Já dei várias voltas à Constituição, não sou constitucionalista, obviamente, mas já dei várias voltas à Constituição e não estou a ver qual seja o motivo pelo qual os juízes do Tribunal Constitucional se possam pronunciar sobre o fim de cortes salariais a políticos, quando ainda por cima são os últimos a deixarem de ter esses cortes. E Ventura vai mais longe. Claro que isto é tudo demagogia, porque ele já sabe que a gente para a semana estamos todos a falar de outra coisa e, portanto, pode fazer aqui os seus comícios e diz que se não for o Presidente da República a fazê-lo, vai ser o Chega. Agora eu gostava, e acho que lhe devia ser perguntado a próxima vez que falar disso, ao abrigo de que artigo. Porque eu, de facto, estou curiosa e estamos todos curiosos, penso eu, qual é o artigo que, de acordo com a Constituição, impede que sejam eliminados os cortes que foram aplicados aos deputados e a todos os titulares de cargos políticos.
E é uma pergunta que podia ser bem feita a André Ventura, porque ele é licenciado em Direito.
Sim, exatamente, mas às vezes parece que não, a gente não percebe bem. Ele já quis processar, mandar pra prisão o Presidente da República também, enfim, uma série de coisas que não batem certo com a lei, mas ele gosta de fazer os seus números políticos e eu acho que é a nossa missão desfazer os números políticos de André Ventura. E já agora, antes de terminar este meu semáforo, também gostava de falar do dinheiro que as brincadeiras de André Ventura têm custado aos cofres públicos, dinheiro que é entregue ao Chega para fazer a ação política. Mas eu gostava de saber quanto é que custaram os cartazes, gostava de saber o que é que aconteceu aos €45 mil de que ouvimos falar há bocado no noticiário das 17h, por causa de uma brincadeira e de um alerta falso que o Chega fez, aparentemente, nas redes sociais e que-
Acabou por amplificar esse alerta. Acho que foi partilhado também por outras pessoas, mas o partido e com a dimensão que tem, amplificou muito.
E com a irresponsabilidade que tem também. E mais as escadamagens dos bombeiros e tudo isto. Eu achava que deve haver aqueles imensos pensionistas, daqueles com que André Ventura enche a boca, a quem lhes dava imenso jeito este dinheirinho que André Ventura anda a deitar pela janela fora, que é como quem diz a pôr à janela do Parlamento. E, portanto, entre estas ilusões, ou estes sonhos, ou estas ideias de inconstitucionalidades que não existem mais, o dinheiro que gasta talvez fizesse melhor se fizesse as contas e entregasse este dinheiro aos pensionistas. E, portanto, eu vou dar um encarnado arroxeado de vergonha, porque um político quando faz declarações deve ser consequente e deve minimamente tentar explicar-se. E eu acho que André Ventura anda a passar há tempo demais sem ser questionado e a dizer coisas que não fazem qualquer sentido.
Fica então este vermelho, sinal vermelho da Raquel.
É, um encarnado arroxeado que é uma nova cor deste semáforo político. Acho que sim.
É a vergonha que André Ventura gosta tanto de enunciar, portanto, aqui vai.
Aqui vai. E quem vai na frente, Judite França, bem destacado nas sondagens para as presidenciais e ainda nem sequer é candidato, é o almirante Gouveia e Melo. É o teu tema.
É o meu tema. E há vários pontos nesta sondagem que merecem análise. A primeira, claro, é Gouveia e Melo ganhar com números desta magnitude, 23,2%, quando o segundo lugar iria, porque nenhum destes é candidato ainda. E Passos Coelho, que é o segundo, provavelmente não será. Mas é uma diferença de quase 10 pontos percentuais, o que é imenso. E eu acho incrível, porque as pessoas não sabem muito de Gouveia e Melo, para dizer que sabem muito pouco. E claro, já sabemos, foi fundamental no processo de vacinação, disso lembrar-se-ão com certeza, mas ninguém sabe o que o almirante pensa sobre política nacional, sobre política internacional, sobre os poderes do presidente. E é normal que não saibam, porque enquanto militar não pode fazer esse tipo de análise e de discurso. Eu quando olho para o sucesso de Gouveia e Melo penso que a sua grande vantagem é não ser um político, não estar nos partidos, ser alguém que não tem esse passado. E é evidente que isso diz muito sobre os políticos, mas acho que não nos diz propriamente nenhuma novidade sobre aquilo que os eleitores pensam sobre os políticos. Mas Gouveia e Melo, que recusou ser conduzido como chefe do Estado-Maior da Armada, está disposto a avançar, aparentemente em março, e portanto terá muito tempo para fazer campanha e mostrar aos eleitores quem é. Veremos se isso lhe é benéfico ou não, porque objetivamente, ser uma carta fechada às vezes tem vantagens e do que sabemos é alguém obstinado, que cumpre a missão que lhe é confiada. Foi o que fez no processo de vacinação e isso parece ser uma vantagem na forma como os inquiridos olham para o almirante. O que pensa sobre o resto, de facto, nós não sabemos. Eu acho que para ajudar a forma como o almirante vai à frente, está a pulverização de candidatos, tanto à esquerda como à direita. E a sondagem foi feita com base nos nomes falados, tanto da área do PSD, falados apenas, como do PS. Temos Passos Coelho à frente, quando o antigo primeiro-ministro aparentemente não é candidato, ainda não ouvimos da sua boca, mas os mais próximos garantem que não é. E depois Marques Mendes em terceiro lugar, não chega aos 10%. É o que tem mais exposição e há mais tempo, na SIC, todos os domingos.
E é o segredo mais mal guardado.
Sim, já temos visto várias notícias que dão conta de que o próprio Luís Montenegro o quer como candidato, mas de que o próprio PSD não estará muito convencido sobre a sua capacidade de vencer eleições, sempre pensando em Gouveia e Melo, porque Gouveia e Melo é o nome que vem a amedrontar os partidos. E depois, em quarto lugar, com 6,6%, vem André Ventura. Só depois disso surge o primeiro nome da esquerda.
Em quinto lugar.
Em quinto lugar, que é o Mário Centeno, com 6,4%. Portanto, está ataque a ataque com André Ventura. Mas nós sabemos que o governador do Banco de Portugal foi aquele que deixou a porta mais escancarada para ser um candidato. Depois vem Ana Gomes, só depois António José Seguro, que fez o seu regresso há duas semanas, mostrando que não descura essa possibilidade e tem um resultado muito baixo para quem fez aquele comeback com todo o impacto na televisão. Resultado mesmo baixo é de facto o de Santana Lopes, tem 1,3%, esse é o resultado mais baixo. Também sabemos que não fechou a porta a uma candidatura.
Aliás, estava à espera das sondagens para perceber como é que elas iam andando.
Olhando para esta, não tem que esperar por muito mais. Mas já sabemos que à frente da palavra sondagens vem sempre aquela expressão: vale o que vale.
E ainda falta mais de um ano.
E falta mais de um ano. Depois temos outras questões interessantes. Por exemplo, numa segunda volta, Passos Coelho perdia com Mário Centeno e Gouveia e Melo, claro, que é revelador de uma coisa, se a esquerda se unir, ganha o candidato de esquerda, mas ainda assim Gouveia e Melo ganha a todos. E há também aqui uma questão importante, que são os dados dos indecisos. São muitos, são 15,3% dos inquiridos. Isto faz sentido porque falta mais de um ano e todos aqueles que são candidatos são apenas pré-candidatos, não sabemos, de facto, nenhum abertamente anunciou estar na corrida. E atenção que se Gouveia e Melo avançar como parece que quer avançar em março, os outros também têm que dar corda aos sapatinhos, porque Gouveia e Melo pode ser o primeiro a avançar, deixando os outros todos para trás. E não sei se isso é favorável, tendo em conta que Gouveia e Melo vai com este élan todo para a frente. Eu, posto isso, vou dar um verde a Gouveia e Melo, porque ganha este barómetro, por um lado, e ganha aos partidos sem ser sequer candidato. E é evidente que depois nós vamos ter um problema, que é um candidato sem partido que o ajude na campanha, é uma questão difícil. Marcelo Rebelo de Sousa conseguiu isso, mais ou menos, pelo menos na primeira candidatura, na primeira eleição, conseguiu sem o apoio dos partidos, mas o PSD andava ali um pouco a reboque. Mas eu acho que Marcelo Rebelo de Sousa era o único que conseguia fazer aquilo como fez. Não sei se Gouveia e Melo tem essa capacidade, porque não tem objetivamente.
Mas tem reconhecimento popular, que era aquilo que permitiu a Marcelo Rebelo de Sousa fazer uma campanha até sem cartazes.
Sim, é verdade.
Portanto, Gouveia e Melo tem essa vantagem de ser conhecido no país todo, o que lhe facilita, num certo sentido.
Mas Marcelo Rebelo de Sousa tinha o apoio tácito do PSD.
Tinha, o diretor da campanha de Marcelo Rebelo de Sousa era o Pedro Duarte, que é agora Ministro dos Assuntos Parlamentares.
Certo. E portanto, não sei se Gouveia e Melo, sem o apoio de um partido, consegue fazer uma campanha, porque é muito difícil fazer uma campanha, como sabes. Portanto, pode ser complicado. Vamos ver, vamos ter que esperar.
Mas Gouveia e Melo pode obrigar os partidos a marcarem passo.
Pois.
Enfim, vamos ver daqui até lá, mas eu não creio que Gouveia e Melo vá anunciar a sua candidatura tão cedo. Acho que Gouveia e Melo vai deixar-se chegar até à última hora exatamente por esta razão, porque ele não precisa e não lhe convém estar no terreno cedo demais. E portanto, eu acho que isso vai deixar os partidos cada vez mais nervosos com estes estudos e a tentar avaliar quem é a pessoa ideal para se ir bater com Gouveia e Melo. O que vai deixar os partidos divididos, mas já temos aqui o protagonista, analista desta questão.
Esta questão de março veio, digamos, nos mais como se fosse o próprio a avançar.
Não creio.
Vamos ver, Jorge Sampaio também avançou cedo e isso foi uma vantagem.
Pois. Mas era porque tinha que marcar terreno dentro do seu partido e Gouveia e Melo não tem.
Isso é verdade.
Temos que aguardar. É com este sinal verde da Judite para o almirante Gouveia e Melo que terminamos este semáforo político.