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Espanha

“Não sacrifiquem a maternidade pelo trabalho, ninguém vos vai agradecer por isso”

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Carme Chacón fez um último discurso três dias antes de morrer e as suas últimas palavras em público transformaram-se no seu testamento. Leia aqui as frases mais marcantes da antiga ministra espanhola.

AFP/Getty Images

Carme Chacón tornou-se num símbolo da luta pela igualdade de género em Espanha, por ter sido a primeira mulher nomeada para o cargo de ministra da Defesa. Não foram tempos fáceis — o El Español recorda os “vexames machistas que Carme Chacón sofreu por ser ministra da Defesa e mulher”. Enquanto ocupou um cargo que até então sempre tinha pertencido a homens, Chacón protagonizou momentos que ficarão para a história das mulheres na política em Espanha: exemplo claro disso é a icónica fotografia da governante, grávida de sete meses, a passar revista às tropas no Afeganistão.

Hace solo tres días tuvimos el honor de disfrutar de Carme Chacón en el CCEMiami, donde disfrutamos de su carisma y experiencias. Nuestro más sentido pésame para su familia y amigos.

Posted by CCEMiami on Sunday, April 9, 2017

Foi assim até ao fim da vida. Carme Chacón morreu este domingo, mas apenas três dias antes tinha feito um discurso emotivo em Miami sobre o papel das mulheres na política, numa iniciativa promovida pelo Centro Cultural Espanhol de Cooperação Iberoamericana de Miami.

Ativista insultou Carme Chacón no dia da morte

No curto discurso, que o El Español publicou na íntegra, Chacón refletiu, perante cerca de 70 pessoas, sobre a sua vida, a sua experiência na política e deixou conselhos a mulheres e a homens. Uma mensagem quase profética, poderá dizer-se. O jornal escreve que este discurso, proferido “menos de três dias antes da sua repentina morte, converteu-se, sem ela o saber, no seu testamento”. Recordamos algumas das principais passagens daquele discurso.

Sobre a vida política:

Perguntam-me muitas vezes em que dia decidi fazer política. Alguém me disse um dia: olha, eu nunca fui jovem, a história do meu país roubou-me a juventude, e quero que entendas que às vezes preciso de comprovar coisas que nunca vivi e que às vezes preciso de viver. Desde esse momento, tive a sensação de que tinha uma espécie de obrigação de que nunca uma neta ou um neto escutem uma frase como esta do seu avô.”

A política rouba-te muitíssimo tempo. O tempo do ócio, os fins de semana, e sobretudo rouba-te o anonimato. Por isso, há que saber o que te move, porque estás ali. Há dias maus, há dias péssimos, mas saber qual é o motor, quais as motivações, é o que nos faz melhorar.”

Aprendi com Felipe González a ter empatia, a ser capaz de me pôr nos sapatos do outro. Seguindo estes parâmetros, aprendi que para o êxito da minha gestão à frente do Ministério da Defesa, ia, em primeiro lugar, saber o que é que queria fazer nos meus quatro anos à frente do mesmo, qual era a marca que queria deixar ali.”

Sobre a maternidade e os direitos das mulheres:

Se quiserem ser mães, não sacrifiquem a vossa maternidade pelo trabalho. Ninguém vos vai agradecer por isso. O mesmo para os homens. Desfrutem. Podem fazer-se, sem dúvida nenhuma, ambas as coisas.”

Como disse Giaconda Belli: “Não há nada mais poderoso do que uma mulher. Tem mais poder do que o músculo. Tem mais poder do que as armas. Não há nada mais poderoso do que uma mulher, porque tem por detrás o poder da Igualdade. Tem por detrás o poder de todas as mulheres.”

Sobre a independência da Catalunha:

É evidente que nós, catalães, somos espanhóis de uma maneira distinta. Eu sinto-me, à vez, catalã e espanhola, mas sinto uma cultura própria que é da minha terra, uma língua que é da minha terra, um direito civil que é da minha terra, mas não saberia ser catalã sem ser espanhola. Por isso, certamente que somos capazes de entender e de fazer entender que a diferença não significa privilégio.”

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