Ex-ministra da Defesa espanhola Carme Chacón morreu este domingo em casa, na sequência de doença congénita do coração, avança o jornal espanhol El País. Tinha 46 anos e o chamado síndrome do “coração invertido”, uma anomalia relativamente rara no desenvolvimento do coração que acontece na fase embrionária. Filiada no partido socialista espanhol, Carme Chacón foi nomeada, em 2008, ministra da Defesa do governo de José Luis Rodríguez Zapatero, tornando-se a primeira mulher a chegar àquela pasta.

A ex-ministra socialista foi encontrada este domingo, pelas 19h30, sem vida no seu apartamento em Madrid, depois de vários amigos e familiares terem alertado para o facto de estar incontactável desde o dia anterior. Quando os bombeiros e a polícia chegaram ao apartamento já só puderam declarar o óbito. Segundo o El País, o corpo foi encontrado na cama, sendo que Carme Chacón já teria falecido há pelo menos sete horas.

Chacón sofria de problemas cardíacos desde criança e, enquanto figura de relevo da política espanhola, associava-se frequentemente a ações de sensibilização para a cardiopatia congénita. Numa entrevista ao La Vanguardia em 2015, explicava que tinha “35 pulsações por minuto [o habitual é 60 a 100 batimentos por minuto] e o coração virado ao contrário, com um bloqueio ventricular completo”. “Isso faz-me pensar que cada dia é um presente”, dizia na altura, acrescentando que procurava aproveitar diariamente os milagres da vida, como o facto de todos os médicos lhe dizerem desde criança que não poderia ser mãe, e depois ter conseguido de facto ter um filho. Chacón, de resto, protagonizou uma foto icónica, ao passar revista às tropas grávida de sete meses.

Uma das últimas ações de sensibilização em que participou foi em novembro, no primeiro congresso nacional da associação espanhola contra a morte súbita, em Valencia. Segundo o El País, nessa intervenção explicou que desde o nascimento que sofria de uma cardiopatia congénita conhecida como “coração invertido”, mas que sempre conseguiu levar uma “vida normal”, tendo conseguido mesmo jogar basquetebol, a sua “grande paixão”.

O que é o síndrome do “coração invertido”?

O nome técnico é mais complicado do que isso: Dextrocardia. Trata-se de uma anomalia congénita relativamente rara onde o coração do bebé se vira sem explicação aparente e se forma na direção do lado direito do tórax, em vez do lado esquerdo, como é habitual. Segundo o jornal El Espanhol, que falou com vários especialistas sobre a doença, afeta apenas uma em cada 10 mil pessoas.

Javier Moya, cardiologista do hospital Reina Sofía, de Córdoba, não tem dúvidas de que o mais provável é Carme Chácon ter morrido de “morte súbita provocada por uma arritmia”. A causa da arritmia, ainda assim, pode não ter sido motivada pela sua cardiopatia, mas o mais provável é os dois casos estarem relacionados, conclui àquele jornal espanhol. “Se tinha 35 pulsações por minuto, o mais provável é que tenha tido um bloqueio átrio-ventricular congénito”, diz ainda, explicando que a dextrocardia em si mesma não é causa de nenhuma doença e a esperança de vida de uma pessoa com o “coração invertido” não é, à partida, mais reduzida do que a das outras.

Certo é que a ex-ministra socialista estava avisada desde pequena de que deveria levar uma vida tranquila e que talvez precisasse de um pacemaker — coisa que ainda não tinha. “Desde muito pequena que os médicos me alertaram que devia ter de pôr um pacemaker e que devia ter uma vida muito tranquila”, chegou a dizer na entrevista ao La Vanguardia, em finais de 2015.

Há duas formas de a cardiopatia se manifestar: ou de forma isolada, ou juntamente com outros órgãos. Se for “total”, isto é, não só ao nível do coração mas também de outros órgãos, o que acontece é que todos os maiores órgãos do corpo se formam no lado oposto ao normal: estômago e baço no lado direito, fígado no esquerdo e vasos sanguíneos, nervos e intestinos aparecem transpostos. O facto de o coração estar virado para o lado direito, em si mesmo pode não representar quaisquer problemas ou sintomas visíveis, mas pode, de forma indireta, estar relacionado com um maior risco de aparecimento de outras doenças.

As reações da esquerda à direita

Militante do Partido Socialista da Catalunha (PSC) desde 1994, foi vereadora do município de Esplugues de Llobregat entre 1999 e 2003. Em 2000 entrou para a Comissão Executiva Nacional do PSC e foi deputada por Barcelona de 2000 a 2004. Mas nesse mesmo período foi também secretária da Educação, Universidades, Cultura e Investigação, do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE).

Entre 2003 e 2004 foi porta-voz do PSOE e em 2004 foi nomeada vice-presidente do Câmara dos Deputados (câmara baixa do parlamento espanhol), onde permaneceu até 2007, quando integrou o governo socialista de Zapatero — primeiro como ministra da Habitação e, depois, no ano seguinte, como ministra da Defesa, tornando-se a primeira mulher a dirigir a pasta. No congresso do PSOE de 2012 concorreu à liderança do partido mas perdeu (por 22 votos) para Alfredo Pérez Rubalcaba.

No congresso de 2014, contudo, foi eleita secretária das relações internacionais do partido socialista, e em 2015 foi cabeça de lista do PSC (Partido dos Socialistas da Catalunha) às legislativas espanholas, tendo sido eleita deputada. Renunciou depois a ser candidata às legislativas de junho do ano passado e passou a fazer parte de uma firma de advogados de Madrid. De 2013 a 2014 foi professora na Universidade de Dade, em Miami, na Florida.

Chacón foi uma dos 17 membros da Comissão Executiva Federal do PSOE que se demitiram para provocar a saída do secretário-geral Pedro Sanchéz, que renunciou em outubro do ano passado. Sanchéz, na sua conta na rede social Twitter, afirmou-se “consternado e triste pela morte inesperada da sua companheira [de partido] Carme Chacón”. O PSOE, que está em campanha interna para a escolha do novo líder, já anunciou a suspensão de todas as ações de campanha dos vários candidatos.

Também o atual primeiro-ministro de Espanha, Mariano Rajoy, do Partido Popular, lamentou a morte de Carme Chacón, à qual se referiu, também na sua conta no Twitter, como “grande política com sentido de Estado”.

Entre a esquerda mais à esquerda também não faltaram palavras de apreço, com o Podemos e o seu líder Pablo Iglesias a sublinharem as “grandes capacidades políticas” desta “grande mulher”.

A consternação já se fez sentir também entre os socialistas portugueses, com o PS de António Costa a manifestar o “profundo pesar” pela morte da antiga ministra e dirigente do PSOE Carme Chacón. “O Partido Socialista manifesta o seu profundo pesar pelo falecimento da ex-ministra da Defesa de Espanha e dirigente do PSOE, Carme Chacón”, escreve o PS, numa nota divulgada na sua página na internet.

“Carme Chacón, além de ter sido a primeira mulher a exercer o cargo de ministra da Defesa espanhola, foi sempre alguém que manteve ligações de proximidade com os socialistas portugueses. O Partido Socialista expressa aos seus camaradas do PSOE e à família de Carme Chacón as suas mais sentidas condolências por esta perda brutal hoje sofrida”, lê-se ainda na nota do PS. Fonte do PS acrescentou ainda à agência Lusa que o secretário-geral do partido, António Costa, já enviou ao PSOE e à família de Carme Chacón uma mensagem a manifestar “sinceras condolências”.