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Mediterrâneo

“As kwassa kwassa servem para trazer comorianos”: a piada falhada de Macron

"As kwasa kwasa pescam pouco, servem para trazer comorianos". A piada falhada do presidente francês está a levantar uma onda de críticas por ter brincado com a situação dos migrantes no Mediterrâneo.

No vídeo que registou esse momento, é visível um ambiente tenso e estranho, depois da piada de Macron

PHILIPPE WOJAZER/ POOL/EPA

Emmanuel Macron falava de embarcações com alguns oficiais do Centro Regional de Vigilância e Salvamento da Bretanha. A dado momento, o presidente francês interrompeu um dos oficiais que falava de tapouilles e de kwassa-kwassa quando afirmou que estas “servem para trazer comorianos”. Só que a piada sobre o assunto sério da migração no Mediterrâneo não caiu bem e está a gerar uma onda de críticas ao Presidente recentemente eleito.

Macron ouvia um dos oficiais a falar de tapouilles – umas embarcações de pesca típicas da Guiana – e de kwassa kwassa. O presidente francês tem um momento caricato quando afirma “As kwassa kwassa estão em Maiote. Mas as kwassa kwassa pescam pouco, servem para trazer comorianos [naturais das ilhas Comores], que é diferente“, disse entre sorrisos. A crítica resulta do facto de a piada estar diretamente ligada aos vários migrantes que diariamente tentam percorrer o Mediterrâneo naquelas embarcações, vitimando muitos destes no mar.

No vídeo que registou esse momento, é visível um ambiente tenso e estranho, depois da piada de Macron. O presidente, em jeito de aliviar o ambiente, completa com um comentário mais inofensivo: “os tapouiles são barcos camaroeiros”.

Os kwassa kwassa são pequenas embarcações precárias da zona de Comores (costa oriental africana). Vários migrantes africanos usam-nas, por via de imigração ilegal pelo mar, para chegar a Maiote, um território francês, separados por 70 quilómetros.

As críticas ao Presidente francês não demoraram a surgir. O líder esquerdista, Jean-Luc Mélenchon, considerou o comentário “uma forma de desrespeito pela classe”. Já Pierre Laurent, secretário nacional do partido comunista de França, achou “indigno” a afirmação do presidente. Também François Baroin, líder republicano para as legislativas, considerou a piada “preocupante” e “chocante, sobretudo quando se é presidente”.

Já um Twitter ligado à ilha de Maiote também recupera a situação infeliz de Macron e comenta que Maiote e Comores “querem soluções neste assunto tão sério”, mas pedem a Macron para que “não brinque”.

Fontes do governo francês já reconheceram a infelicidade da piada “sobre um tema sério” como este. O Eliseu assegura também que o presidente francês está “consciente” do comentário que fez e reconhece que foi “inaceitável e inapropriado”.

As explicações não impediram, no entanto, que as autoridades comorianos entrassem em contacto com Macron. A agência France-Presse (AFP) cita que ambos os países concordaram em “reforçar a cooperação bilateral” para “impedir novos dramas humanos”. Brevemente será celebrada uma reunião para abordar “os desafios de segurança e de desenvolvimento” partilhados entre ambos.

Segundo dados do senado francês de julho de 2012, entre 7000 e 10 mil migrantes morreram desde 1995 no mar quando tentavam atravessar o Mediterrâneo até Maiote. Desde então o número não tem parado de aumentar e o Mediterrâneo é hoje o cemitério que se conhece.

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