Carlos Fiolhais: “Fiquei preso na gruta de Mira de Aire. Parece que estamos sepultados vivos”

21 Janeiro 2018684

Não foi à tropa porque era daltónico, o que não o impediu de vencer um concurso de pintura. O prémio investiu-o em livros. A sua curiosidade levou a explorar grutas e a ficar preso numa delas.

À hora marcada, Carlos Fiolhais estava à porta do Departamento de Física de chave na mão. O dia era de tolerância de ponto, para recuperar das festividades natalícias, e a Universidade de Coimbra estava praticamente deserta. Mas o físico e divulgador de ciência, que se assume sempre disponível para responder aos jornalistas, não viu qualquer impedimento com a escolha da data.

Ainda mal tinha aberto a porta da biblioteca do Rómulo – Centro Ciência Viva, onde decorreu a entrevista, e já dava início a uma visita guiada, falando com o entusiasmo de quem é completamente apaixonado pelos livros. Correu as estantes como se conhecesse de cor o sítio dos livros que queria usar como exemplo. Se não os encontrava a resposta era simples: tinham sido requisitados. Um dia voltariam. Porque é assim que entende os livros de uma biblioteca, para serem usados e levados para casa.

A biblioteca tem cerca de 30 mil livros, mas apenas uma pequena parte se encontra exposta nas estantes das duas salas. Muitos destes livros foram cedidos pelo próprio Carlos Fiolhais, que admite que todos os dias traz alguns livros da sua biblioteca pessoal. Nesta biblioteca dedicada à cultura científica não há espaço para manuais de ciências, mas cabem todos os livros que de alguma forma abordem a ciência, sejam de poesia, banda desenhada ou de ficção científica.

A conversa durou várias horas, poucas para ouvir todas as histórias que Carlos Fiolhais tinha para contar. Além dos livros, das bibliotecas que dirigiu e do trabalho científico que tem realizado, o físico de 61 anos contou como ganhou um prémio de pintura, como ficou preso numa gruta, porque escreveu para o jornal da diocese ou como viveu o 25 de Abril sem grandes problemas.

Carlos Fiolhais na cave da Biblioteca Joanina em Coimbra, em 2017 — Vera Novais/Observador

Recebeu recentemente o Grande Prémio Ciência Viva Montepio. É um prémio importante para si?
Os prémios sabem bem e este soube particularmente bem. É uma honra receber um prémio com este nome — estou ligado à Ciência Viva [Agência Nacional para a Cultura Científica e Tecnológica] desde que o José Mariano Gago a criou, em 1996, um ano depois de ter sido criado o Ministério da Ciência e Tecnologia. O Mariano Gago percebeu que para haver Ciência em Portugal teria de haver Cultura Científica e a Ciência Viva é uma agência para disseminar a Cultura Científica. Trabalho para o qual também tenho contribuído. Ultimamente faço menos do que fazia antes, mas quando era mais novo corri tudo. Chamavam-me das escolas e ia a tudo, nem sequer escolhia.

Grande Prémio Ciência Viva Montepio

2012 – Guilherme Valente, editor da Gradiva. “Foi o único não cientista a receber o prémio.”
2013 – Galopim de Carvalho, geólogo. “Um homem que também percorreu a Terra e deixou pegadas ao lado das dos dinossauros.”
2014 – Jorge Paiva, botânico. “Apesar dos 80 anos, fala com uma motivação e com uma força em defesa de tudo o que é árvore.”
2015 – Manuel Paiva, físico. “O homem do espaço, o nosso cientista português na ESA [Agência Espacial Europeia].”
2016 – Manuel Sobrinho Simões, patologista. “Um médico que tem uma capacidade fantástica de comunicar e fazer a ponte entre a ciência e a sociedade.”

Tinha, e tem, muitas solicitações?
Sim, muitas solicitações. Se calhar estava a colecionar pontos para o prémio [risos]. Os prémios não se pedem, mas agradecem-se com certeza. Neste caso, tem a particularidade de ter sido atribuído, antes de mim, a pessoas que estimo [ver caixa]. Todas essas pessoas são exemplos. Só faltam aqui mulheres, a ver se é no próximo ano.

É engraçado que, em Portugal, as pessoas que são da Cultura Científica, ou da Divulgação Científica ou do que lhe quiserem chamar, são pessoas cuja causa os une. E há, muitas vezes, uma relação prolongada entre elas — estimam-se, fazem coisas em conjunto — e o prémio ajuda a criar essa comunidade, estabelece-se memória. E dá reconhecimento social. Os prémios são muito úteis e agradáveis para o próprio, mas também devem ser úteis e agradáveis para a sociedade, porque, de algum modo, arranjam modelos que podem seguir.

Também tem os seus modelos?
Conheço pessoas que fizeram coisas antes de mim que nunca terei a capacidade de fazer da mesma maneira, como o Rómulo de Carvalho, por exemplo. Um dia [em 2006], a Universidade de Évora deu-me o prémio Rómulo de Carvalho e isso para mim foi um estímulo. E esta biblioteca [onde decorreu a entrevista] e o Centro Ciência Viva Rómulo de Carvalho, não têm este nome por acaso. Aliás, foi na sequência desse prémio que falei com o José Mariano Gago. Disse-lhe: “Gostava de fazer um Centro Ciência Viva que fosse um centro de recursos.” Fui para a Ciência levado pela via dos livros — pela via verde dos livros — e gostava que esta via estivesse mais aberta e que tivesse portagens grátis.

Foi nos livros que descobriu o Rómulo de Carvalho?
Descobri o Rómulo através dos livros de divulgação científica que já existiam quando eu era estudante do liceu. Havia uma coleção chamada “Ciência para Gente Nova” e senti que aqueles livros eram para mim: “História do átomo”, “História do telefone”. Acima de tudo, reconhecia histórias naqueles livros, reconhecia que a Ciência era uma atividade humana — feita por humanos para humanos —, um bocadinho em contraste com os livros mais tradicionais, como os livros escolares, em que a Ciência já aparece feita, às vezes despersonalizada. Parece que é tudo entregue como um ato de fé: uma pessoa tem de acreditar nas Leis de Newton sem saber para que servem. Nos livros do Rómulo de Carvalho apanhava-se a Ciência em construção, a Ciência como empreendimento, a Ciência como cadeia no tempo.

Foram os primeiros livros de divulgação científica que leu?
Foram alguns dos primeiros. Já me perguntaram várias vezes quais foram os primeiros livros que li. Sou um devorador de livros e já li tantos depois disso que já não me lembro dos primeiros. Aprendi a ler um bocadinho antes da escola primária — meu pai diz que aos quatro anos eu já era capaz de ler, não me lembro. Lembro-me que uma das primeiras coisas que tive foram cadernetas de cromos com legendas, algumas de história natural. Depois lembro-me, na escola primária, daqueles primeiros livros que dão como prenda de aniversário. Em minha casa praticamente não havia livros, por isso tinha algum significado para mim darem-me um livro.

No outro dia fui a uma biblioteca e pedi, como faço sempre, para ver os depósitos da biblioteca, onde estão armazenados aqueles livros que já ninguém lê. Havia lá uma coisa chamada Biblioteca dos Rapazes e eu disse logo: “É pá, deram-me este livro quando fiz a quarta classe”. Chamava-se “O Clube do Espaço” e era sobre a construção de um foguetão por rapazes. Já não tenho esse livro, desapareceu nas mudanças de casa, mas foi um dos meus primeiros livros.

Primeira fotografia de Carlos Fiolhais, em 1956, em Lisboa – Fotografia cedida por Carlos Fiolhais

Já na altura se interessava por Ciência?
De algum modo sim. Sempre me interessou. Mas não era só. Lembro-me de um livro muito antigo — que li ou que me deram — e que se chamava “14 Novelas Históricas Portuguesas”. Havia um conto do Alexandre Herculano, “Bispo Negro”. Não percebia tudo — tinha 10 anos, não mais do que isso —, mas era uma coisa sanguinária: o enviado do Papa ao Afonso Henriques não queria reconhecer a independência e Afonso Henriques apertou-lhe a garganta. A história ficou-me gravada por causa da intensidade das imagens.

Se não tinha muitos livros em casa de onde lhe surgiu esse gosto?
A partir do momento que uma pessoa aprende a ler, tenta exercer. E como aprendi a ler mais cedo comecei a exercer mais cedo. Acho que é uma questão individual. Leio rápido. Conseguia fixar coisas, conseguia tirar do livro o essencial. E conseguia fazer isso desde cedo. Não tinha muitos livros em casa — sou de uma família humilde, que não tinha grande cultura. Tinha os livros que comprei — que não eram muitos, porque havia pouco dinheiro —, mas acima de tudo os livros da biblioteca da escola e da Biblioteca Municipal. Lembro-me de frequentar a Biblioteca Municipal de Coimbra de uma maneira omnívora. Tinha um cartão que custava 25 tostões por ano e levava três livros de cada vez para casa. Ao fim do terceiro dia lá ia devolvê-los e escolhia outros. Nessa altura lia tudo. Lia praticamente tudo o que houvesse e não apenas Ciência. Por exemplo, tudo o que eu sei sobre II Guerra Mundial vem do que li durante o tempo do liceu.

"Lembro-me de frequentar a Biblioteca Municipal de Coimbra de uma maneira omnívora. Tinha um cartão que custava 25 tostões por ano e levava três livros de cada vez para casa. Ao fim do terceiro dia lá ia devolvê-los e escolhia outros."

Já comprava livros na altura?
Na altura do liceu tinha muita habilidade para pintar — que perdi, não se pode trabalhar para tudo. Participava em concursos escolares e os prémios que ganhava — 50 escudos ou 20 escudos — convertia em livros. Mais importante do que os primeiros livros que nos dão, são aqueles que compramos com o nosso dinheiro — e eu tinha 13 ou 14 anos. Comprei a obra — lá está, de Ciência — “O Átomo” [“The Atom and The Foreseeable Future”], do prémio Nobel da Física George Thomson. Desde então comecei a gostar de comprar livros para mim. Tomei-lhe o gosto de tal modo que ainda hoje compro muitos livros, a maior parte de ensaio. Mas não quer dizer que seja a única coisa, interesso-me por literatura, por história. Mas sempre fui muito eclético, até porque no liceu as minhas melhores notas eram a Filosofia, não eram a Física. A Física apresentava alguma dificuldade para mim. Se calhar fui para Física porque era mais difícil [risos].

Carlos Fiolhais com os pais e o irmão Manuel (à esquerda), em Lisboa, em 1960 – Fotografia cedida por Carlos Fiolhais

Então, porquê Física?
O meu pai fez-me a mesma pergunta: “Ó meu filho, o que é isso? Isso dá para quê?” [risos]. O meu pai — infelizmente já falecido — viveu o suficiente para assistir à minha tomada de posse à frente da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, que inclui a Biblioteca Joanina, e que mostra que até um físico pode ser bibliotecário. Dá para muita coisa. Há físicos que são desportistas: há um campeão de triplo salto, por exemplo. O José Mariano Gago, que foi político, era físico. Lá por ser físico não quer dizer que não possa ser ao mesmo tempo ou depois disso, muitas coisas.

Fui para Física porque achava que não sabia o suficiente sobre isso, achava que havia ali mistérios do átomo e do núcleo que ainda estavam por descobrir. E, pensei eu na altura, era uma coisa em que podia participar — até podia ser imodéstia minha. E assim foi. A Física que me ensinavam no liceu — roldanas, planos inclinados, etc. — não tinha nada a ver com o núcleo. Parecia-me. Queria era Física moderna, queria a Física dos aceleradores e dos reatores. Aliás, no liceu, a única Física moderna chamava-se Química [risos].

Gostava mais de Química do que de Física?
Não. Química sempre foi um mistério para mim, por causa da complexidade. Quando entrei na Universidade de Coimbra, em 1973, havia alguma liberdade de escolher o currículo. Na altura — se calhar não fiz bem — só fiz duas cadeiras de Química: Química Geral e Química Inorgânica. Química Orgânica já não tive, em vez disso escolhi Matemática e, portanto, tornei-me num físico teórico, um físico ligado à matemática, porque a matemática é a linguagem da Física. Sou um físico teórico, não sei se é preciso dizê-lo ou se se vê logo a olhar para mim [risos].

Grupo de jovens junto à Igreja de Santo António dos Olivais, em Coimbra. Carlos Fiolhais teria cerca de 10 anos e está de pé do lado esquerdo – Fotografia cedida por Carlos Fiolhais

No liceu era um aluno exemplar?
Nos últimos anos pertencia aos quadros de honra, mas havia gente melhor do que eu. As minhas melhores notas eram a Filosofia. Ciências Naturais também tinha boas notas. Física nem por isso. Na universidade posso dizer que era bom aluno, ou muito bom aluno. No final do curso acho que tive média de 18,4, qualquer coisa desse género. Era um assunto que gostava e tinha outra maturidade. Na universidade dediquei-me a fazer os exames todos à primeira. Havia vontade de ter boas notas e foi isso que me proporcionou ser imediatamente contratado, primeiro como monitor, depois como assistente. E poder ir fazer o doutoramento quase imediatamente. Consegui fazer uma subida a professor auxiliar, depois de doutorado, relativamente rápida: uns quatro anos depois de ter terminado o curso. E sou professor catedrático desde 2000.

Ser bom aluno na universidade facilitou-lhe o percurso?
Fiz o curso de Física teórica em cinco anos. Depois fui logo contratado como assistente e comecei a dar aulas e a frequentar um curso de pós-graduação em Física teórica. Quando estava a acabar o curso veio cá uma delegação da Alemanha, porque queriam fazer um intercâmbio com Portugal. Disseram-me que havia uma hipótese de ir para a Alemanha e que era só escolher o sítio. Escolhi o sítio do aeroporto central, Frankfurt am Main [risos], e passei lá três anos e meio da minha vida, a partir de 1979. Já estava apalavrado quando acabei o curso [em 1978], mas estive aqui um ano a aprender alemão, a fazer um curso de pós-graduação, a dar umas aulas — muitas aulas. Na altura — quando se tem 21 anos — uma pessoa faz tudo.

Depois desse ano aqui, saltei logo lá para fora e imergi numa cultura completamente diferente. Tem de se saber a língua, perceber os hábitos. É diferente, mas uma pessoa desde que se adapte funciona, até funciona melhor do que a nossa cultura — os atrasos não existem, não existe quarto de hora académico nenhum. Integrei-me bem e passados três anos e meio, em dezembro de 1982, fiz o exame de doutoramento. Tinha uma bolsa da Gulbenkian que acabou e vim-me embora.

Uma pausa no doutoramento em Frankfurt am Main, em 1980

Fotografia cedida por Carlos Fiolhais

Antes de ir para a Alemanha deu-se o 25 de Abril de 1974. Já estava na universidade na altura?
Sim, mas não nos afetou muito. O nosso curso era pequeno, quando não havia aulas num dia, havia no outro, combinávamos com os professores.

E não afetou o ambiente geral na universidade?
Sim, sim. Aqui na universidade isto era uma revolução: desde estudantes a participar em órgãos de gestão, até assembleias gerais — fui a várias. Na altura fazia uma coisa engraçada: as assembleias eram coisas que nunca mais acabavam e eu fazia um ponto de ordem para ir para almoço. Nunca tomei posição nas lutas políticas. Mas despertou-me alguma consciência democrática quando entrei na universidade. Notava-se, naqueles primeiros seis meses — entre outubro [de 1973] e abril [de 1974] — que se passavam coisas estranhas: desde os folhetos clandestinos que apareciam nas casas de banho aos guardas mais musculados que iam afastar os alunos que interrompiam a aula para dizer que um colega nosso tinha sido preso. Havia um mal-estar, de que me apercebi rapidamente, de falta de liberdade. Também houve coisas que correram muito mal, como as assembleias para afastar professores — chamava-se saneamento — em que, às vezes, faziam acusações disparatadas.

E teve de ir à tropa?
Fui à tropa. Só um dia. Não gostava muito. O meu pai era militar da Guarda Republicana e vivi em quartéis durante um tempo — não foi das coisas que mais gostei. Fiz 18 anos em junho e, quando fui à inspeção, já tinha acontecido o 25 de Abril. Tive sorte. Ainda tentaram que fosse à tropa, mas sou daltónico. Mostraram-me umas manchas com cores para ver se era mesmo daltónico e eu dizia que não via nada. A certa altura disseram-me: “Você está a brincar connosco?”. “Não, não estou nada a gozar com a tropa.” [risos] “É que o senhor disse que era daltónico. E nestas figuras só os daltónicos é que veem lá números.” Passei imediatamente a ver números. É que eu estava distraído, nem olhava para lá. Ainda me mandaram para um oftalmologista, mas concluíram que era mesmo verdade. Por causa do daltonismo tenho alguma dificuldade em vestir-me. Não uso gravatas, por exemplo, tenho dificuldade em combinar as cores.

Milipeia, um supercomputador com milhares de processadores, sucedeu a Centopeia, um supercomputador criado pela equipa de Carlos Fiolhais com cem processadores – Fotografia cedida por Carlos Fiolhais

E que diferenças encontrou quando voltou da Alemanha?
A revolução tecnológica. Uma pessoa entra na escola num tempo em que não há computadores e regressa mais ou menos na mesma altura em que chegam a Portugal os primeiros computadores pessoais. O meu doutoramento foi feito com um grande computador, mas não havia computadores pessoais. E, quando voltei, comprei o primeiro computador pessoal da Universidade de Coimbra. E, depois desse, comprámos outros. Estive no Centro de Informática da Universidade de Coimbra e fiz as primeiras páginas web, nos anos 1990. Depois estive na Biblioteca Geral e fiz um dos primeiros repositórios digitais.

Comprou o primeiro computador pessoal da Universidade? Como assim?
O mercado, no que diz respeito aos computadores, evoluiu mais rápido que as universidades portuguesas. Enquanto que aqui havia um computador um bocado obsoleto, que era uma máquina grande para servir a todos, o mercado revelou o computador pessoal, um computador por pessoa. Fiz o doutoramento em Frankfurt com um computador grande — maior e melhor que os computadores portugueses —, mas o que começou a perceber-se, com o desenvolvimento da informática, é que era possível ter um grande poder de cálculo só para uma pessoa. Não era preciso partilhar os serviços, não precisávamos pôr o nosso programa numa fila de espera para fazer o processamento.

Ainda fiz a minha tese numa máquina de escrever, não a fiz num processador de texto. Já era elétrica, mas não era programável. Mas dois ou três anos depois começou a haver teses em processadores de texto através de computadores pessoais. Aliás, o primeiro computador pessoal em que escrevi não era para fazer cálculos, era para servir de processador de texto. Depois começámos a ver o que é que o computador era capaz. Lembro-me que, a certa altura, já podíamos dar aulas práticas de Física Computacional, não com um computador para todos, mas com um PC para cada um. Isto na segunda metade dos anos 1980, início dos anos 1990.

"Ainda fiz a minha tese numa máquina de escrever, não a fiz num processador de texto. Já era elétrica, mas não era programável."

Manteve-se ligado ao que se passava em Portugal, enquanto esteve na Alemanha?
Seguia a política em Portugal, porque se passavam aqui coisas intensas todos os dias. Assinava um jornal que recebia lá passados dois ou três dias — não havia Internet, não havia telemóveis e as chamadas de telefone eram caras. Devorava o jornal. Lia tudo sobre o conselho da revolução, aquelas coisas todas. Segui sempre a vida portuguesa, até porque era a minha maneira de estar ligado aqui. Nunca me desliguei. Mesmo lá na Alemanha estive muito ligado aos emigrantes: dava explicações aos filhos deles das mais variadas disciplinas. Ensinava de tudo. Ensinei alemão para estrangeiros e português a alemães.

Fiz traduções de alemão e ganhei dinheiro com as traduções. Lembro-me de uma empresa alemã que me pagou sem recibo — hoje acho que fui enganado — para fazer a tradução de estudos geológicos de Cabo Verde. Com o maior cuidado a traduzir, fui aprender coisas sobre a geologia de Cabo Verde para traduzir aquilo muito bem. Um trabalho especializado devia ser caríssimo e deram-me meia dúzia de marcos por aquela coisa.

Sempre tive esta atitude social. Pedem-me coisas: se souber, faço, e, se não souber, aprendo e faço [risos].

Carlos Fiolhais tem participado em eventos de divulgação de ciência para crianças e jovens. Aqui, na Fundação Calouste Gulbenkian, em 2005 — Fotografia cedida por Carlos Fiolhais

Nunca diz que não?
Dificilmente. Ainda agora, pediram-me para dar uma entrevista de vida e achei que era devida a entrevista [risos]. Não gosto de dizer que não. São desafios. Se há coisas que vejo que não posso, custa-me, mas digo que não. Mas dizer que não é dizer “Não” a mim próprio. “Será que não tenho uma abertura para conseguir aprender mais alguma coisa?” Vejo isto sempre como uma aprendizagem.

O maior limite é o tempo?
O maior limite é o tempo. Até me costumam perguntar se durmo. Durmo, durmo. O segredo é ter redes de colaboradores, pessoas com quem trabalhamos, e na interação com elas aprender coisas. E se falarmos com pessoas que dominam certos assuntos podemos aprender muito com elas por causa da falta das horas de sonos delas [risos].

E a família sempre apoiou esta vida tão ativa?
Sim, não me queixo. A minha mulher costuma dizer: “Fazes sempre o que tu queres”. Eu acho que é um elogio. Às vezes devolvo: “Olha, faz também o mesmo”. Duas pessoas só podem ser felizes se cada uma fizer o que quer, não é? Do ponto de vista familiar nunca houve problemas.

Tive um primeiro casamento com uma pessoa da academia, da Matemática, e tivemos um filho. Agora, tenho um segundo casamento feliz com uma pessoa que já não é da mesma área — é nutricionista —, o que também é uma aprendizagem. É uma mulher a quem devo muito. E espero que ela também me deva muito a mim, que é para estarmos pagos [risos]. O importante nestas vidas, é que cada pessoa faz o que gosta e há liberdade recíproca. E há coisas que gostamos os dois, então fazemos em conjunto, como viajar. Gosto de ver outros mundos. Já vivi em vários sítios e é sempre enriquecedor uma pessoa conhecer outras culturas, não só outras paisagens, mas outras pessoas.

O seu interesse pelos livros e pelas viagens é a sede de conhecimento?
É a descoberta, é saber coisas que eu não sei. É a única coisa que me interessa saber, no que já sei não estou interessado [risos].

Artigo científico mais citado

Carlos Fiolhais tem cerca de 160 artigos científicos publicados. Entre os quais o artigo mais citado de um autor com endereço em Portugal. “Atoms, molecules, solids and surfaces: Applications of the generalized gradient approximation for exchange and correlation”, publicado na American Physical Society em 1992, resultou de um trabalho realizado durante uma licença sabática nos Estados Unidos.

“O artigo foi muito citado porque é uma ‘receita de cola química’ que dá para aplicar em engenharia de materiais, biologia, química, engenharia química, dá para aplicar em muitas coisas”, disse Carlos Fiolhais. O algoritmo criado tem sido usado em programas informáticos e todos os investigadores que o usem citam a fonte nos artigos científicos que publicam. “Este algoritmo funciona tão bem que ainda hoje é usado.”

O seu percurso académico também tem sido uma viagem, com passagem por conhecimentos diferentes.
Comecei como físico nuclear e fiz a minha tese sobre a cisão teórica do urânio. Mas depois, em 1986, aconteceu [a explosão na central nuclear de] Chernobyl e, portanto, a Física Nuclear entra em declínio. Então, mudei para Física da Matéria Condensada — em vez de estudar os protões e neutrões unidos no núcleo, passei a estudar os átomos a formarem agregados ou cristais. Foi engraçado: usei as técnicas de partir um núcleo para partir um agregado atómico.

Tirando o doutoramento, estudou sempre em Coimbra?
Não. Nasci em Lisboa [em 1956] e fiz o primeiro ano da escola primária lá. Ainda tenho um diploma de exame da primeira classe. Tendo passado na primeira classe, com o meu primeiro exame [risos], vim para a escola de Coimbra onde fiz os três anos seguintes e depois fiz dois exames de quarta classe — um de admissão aos liceus.

A 3ª classe na Escola dos Olivais, em Coimbra (1965) — Fotografia cedida por Carlos Fiolhais

E foi no liceu que participou nos concursos de pintura?
Sim, ganhei um prémio internacional. Essa é que pouca gente sabe. Até eu quase já me esqueci, já foi há tanto tempo.

O que é que desenhava?
Desenhava várias coisas, entre o naturalista e o abstrato. Houve um concurso dos 50 anos da União Internacional dos Caminhos de Ferro: um concurso nacional, que ganhei. Depois [o trabalho] foi enviado lá para fora, para Paris, e ganhei também. Era um concurso juvenil, não estava a competir com os Picassos, mas de qualquer modo tinha 16 anos. E dei a minha primeira entrevista, ao Diário Popular — que já não existe —, sobre o que é que queria ser quando fosse grande.

E o que é que queria ser?
Acho que quero ser sempre aquilo que sou. As pessoas que querem ser outras coisas têm sempre um bocado dificuldade em concretizarem os seus sonhos. Perguntaram-me se queria ser pintor. Não queria, mas dei uma desculpa parva. Disse que em Portugal não se podia viver da pintura. Já viu o interesse económico? Acho que borrei a pintura com essa entrevista. Mas o título era-me favorável: “Jovem de futuro promissor ganha prémio internacional”. Foi a minha entrada no jornalismo, direta, aos 16 anos. Não prossegui por esse caminho da pintura, porque a escola também era exigente, mas já me disseram que tinha jeito. O único museu que tem obras minhas é a minha casa, com a indulgência da minha mulher — que é muito favorável aos meus dotes.

Uma das pinturas feitas por Carlos Fiolhais durante a juventude — Cedido por Carlos Fiolhais

E para escrever, tinha jeito?
Sempre tive jeito para escrever, não era só para ler — aliás, as duas coisas vêm juntas. Escrevia sobre aquilo que lia e comecei a escrever para os outros logo no jornal do liceu — O Estudante —, era chefe de redação ou uma coisa assim. Não só escrevia como desenhava, tenho artigos e ilustrações.

Lembro-me de uma vez ir lá o ministro da Educação do antigo regime, Veiga Simão, que tinha andado naquele liceu. Fui destacado pelos meus colegas pelo atrevimento de cravar dinheiro para o jornal ao Veiga Simão. E ele foi muito aberto, muito generoso. Perguntou-me: “E quanto é que precisa?”. Não sei se disse 500 ou 700 escudos e o ministro levou instintivamente a mão à carteira. O reitor é que não deixou: “Eu trato disso com os rapazes. Eu dou-lhes o que eles precisam”. Mostra como estávamos numa altura de transição, em que o ministro já queria dar dinheiro à rapaziada. Mas o que achei mais espantoso foi ele querer dar do bolso dele. No fundo estava a comprar a imprensa [risos].

E o reitor deixava-vos escrever o que queriam?
O reitor era mais ou menos fascista, era autoritário, mas tinha havido pior. Houve um que andava a distribuir estaladas pelo corredor a quem fosse a correr. Ou apontava quem não tinha ido à Mocidade Portuguesa no sábado anterior, tumba, dois tabefes e ficava registado. Aquele era do tempo do Marcelo Caetano, mas era autoritário. O reitor fazia censura do nosso jornal, portanto, cedo percebi a questão da falta de liberdade. “Mas então não posso dizer o que eu quero?”

Interessava-se por jornalismo?
No fundo, sou jornalista desde os tempos do liceu. Começou aí e depois continuei na universidade com o jornal O Mocho, um jornal dos estudantes da Faculdade de Ciências, com artigos e desenhos. E banda desenhada — era um autor promissor de banda desenhada. Além das ilustrações, tinha uma banda desenhada que aparecia sempre no jornal. Tínhamos artigos engraçados mesmo na época da revolução. Mas o jornal não nos sobreviveu, era um jornal de uma geração.

Tenho outra história de jornalismo fantástica. Esta pouca gente sabe. Nas aulas de moral no liceu, que eram mais ou menos obrigatórias, tínhamos um padre muito liberal. Um grande pensador, chamado Urbano Duarte, que permitia as perguntas dos alunos. E, para ser tudo permitido, eram secretas. As aulas de moral eram assim, a discutir as perguntas que fazíamos. Perguntávamos como é que o Adão teve netos e outras perguntas de biologia complicadas. Mas ele tinha uma grande relação connosco, porque nós gostávamos dele. Era diferente dos outros, não ia para lá ensinar doutrina, ia falar connosco. E convidou-nos, a mim e a um colega, aos 14 ou 15 anos para escrever para o jornal da diocese. Deu-nos uma página chamada Início. E, de facto, foi o nosso início no jornalismo. Foi mais ou menos na altura do jornal do liceu, mas este era um jornal para fora, impresso e tudo, não era de stencil como o do liceu. Tínhamos uma contribuição mensal e também fazia as ilustrações.

E havia censura ou vocês podiam escrever sobre o que quisessem?
O padre nunca nos censurou nada, mas a Censura mesmo, censurou. Ia à gráfica com o meu colega, isto aos 15 ou 16 anos, e e via os riscos da Comissão de Censura. A experiência da liberdade e da falta dela, entrou por essa altura em mim. As experiências que todos temos, do bem e do mal.

E sentia isso, sentia que lhe estavam a tirar a liberdade?
Acho que uma pessoa tem o direito de escrever e dizer o que quer e a liberdade de expressão é um dos direitos mais sagrados — aproveitar a palavra já que estou a falar do jornal da diocese [risos]. A liberdade é um dos bens mais preciosos. Se a liberdade é prejudicada, tudo o resto é prejudicado. O meu último livro “A Ciência e os Inimigos” [da Gradiva] fala da questão da liberdade e a ligação que existe entre ciência e liberdade. Pode haver ciência sem liberdade, mas é uma ciência que pode ser falsa e é precária. A liberdade é essencial, aplica-se à ciência e aplica-se a qualquer atividade humana. Se não se pode pensar o que se quiser, para que serve o pensamento?

Almoço com colegas para celebrar o fim do curso (Mealhada, 1978) — Fotografia cedida por Carlos Fiolhais

Uma das coisas que o caracteriza é que diz aquilo que pensa e aquilo que quer dizer sem problemas nenhuns.
Não estou ligado a nenhum grupo, nem a nenhum partido, nem sequer a uma Igreja ou a uma organização instituída. O único compromisso que tenho é comigo próprio. Posso pensar mal, mas aquilo que penso digo. Às vezes não meço bem, já me disseram. Uso a boca para dizer aquilo que penso e digo aquilo que me apetece.

Nunca se envolveu em questões políticas?
Todos nós temos de estar disponíveis para a vida pública, para a vida política. Já fui a umas eleições locais [pelo movimento independente “Somos Coimbra”], embora como suplente. Coimbra precisava de uma grande mudança, mas, infelizmente, não consegui essa mudança para a minha cidade — tivemos 16%. É preciso a participação ativa de todos, incluindo a minha. E pode demorar, mas havemos de transformar Coimbra. A política também se faz ao nível local. Tirando a intervenção cívica na campanha de Coimbra nunca tinha feito política, mas deu-me muito prazer. São experiências de vida. Durante três meses andei na rua a recolher assinaturas, a colar cartazes, e isso é uma aprendizagem. A comer aquelas comidas de carne assada que servem nos comícios [risos].

"As pessoas dizem que falo demais, mas não ligo. Tenho boca, mas não tenho ouvidos."

Em relação a dizer o que pensa, já teve problemas com isso?
Nem por isso. Se quer dizer se tive problemas sérios? Não. Nunca fui muito incomodado. As pessoas dizem que falo demais, mas não ligo. Tenho boca, mas não tenho ouvidos [risos]. Na imprensa escrevo há muito tempo, comecei nessa experiência do jornal da diocese, o Correio de Coimbra, que ainda existe.

E quando esteve na Alemanha, também escrevia?
Quando estive na Alemanha não escrevi nada. Bem, escrevi cartas aos amigos e há quem guarde essas cartas — escrevia cartas com as últimas anedotas. Mas quando volto da Alemanha, estavam a surgir os livros da Gradiva e faço uma carta engraçada, escrita à máquina (não havia computador). A carta era para o editor a dizer que tinha encontrado um erro numa tradução e a sugerir uns livros: “Venho da Alemanha, onde há um livro de um prémio Nobel…”. Ainda me lembro da resposta — que não foi por carta. O Guilherme Valente arranjou o meu número de telefone, não sei como, e telefonou-me para casa, muito cerimonioso. Estivemos duas horas ao telefone. Convidou-me para nos encontrarmos no fim-de-semana seguinte em Leiria. Ele percebeu que encaixávamos um no outro. Ele tinha um projeto de cultura científica, de divulgação e de liberdade.

Carlos Fiolhais (à esquerda) com Guilherme Valente, editor da Gradiva, na Feira do Livro de Lisboa 2005 — Fotografia cedida por Carlos Fiolhais

E foi nessa altura que começou a escrever para a Gradiva? E quando começou a coordenar a coleção Ciência Aberta?
Só comecei a coordenar a coleção Ciência Aberta a partir do número 200. É relativamente tardio, os últimos dois ou três anos. O que na altura acordámos foi que dava sugestões de livros — e dei —, alguns da Alemanha com os quais tinha contactado. E, uma vez que estava a criticar a tradução, que a fizesse. Isto foi uma resposta entusiasmante, porque imediatamente traduzi um dos livros que tinha proposto: “O Jogo”, de um prémio Nobel da Química, Manfred Eigen. Foi o meu primeiro trabalho para a editora. Ganhei-lhe o gosto e a seguir traduzi outro: “O que é uma lei Física?”, do Richard Feynman, um autor mais conhecido.

Traduzi ainda outro, com um colaborador, do Mandelbrot, um matemático francês, “Objetos Fractais”. Traduzi do alemão, do inglês e do francês. Essa tradução até foi premiada [Menção honrosa do prémio União Latina – Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica de tradução científica]. Nós — eu e o meu colaborador — detetámos alguns erros no original francês, do Mandelbrot, escrevemos-lhe e, na edição francesa seguinte, ele fez uma nota a agradecer ao editor português e ao seu tradutor português.

E o seu primeiro livro, surgiu em que altura?
No início da década de 1990 lancei o meu primeiro livro, chamado “Física Divertida”. E esse livro, inesperadamente para mim, pelo menos, teve muito êxito. Eram histórias da Física contadas de uma maneira atraente, supunha eu — e pelos vistos era. Tinha ido a muitas escolas num programa da Sociedade Portuguesa de Física, para motivar para a Física. Foi aí que fui vendo o que funcionava e o que não funcionava, fui afinando o discurso. Muitos quilómetros fiz eu — como voluntário. Era perfeitamente desconhecido, porque tinha estado quatro anos fora e nunca tinha tido intervenções públicas.

O livro tentava mostrar que a Física era uma coisa leve. No fundo era uma história da Física clássica e também tinha experiências. Era uma coisa que, na minha ideia, dava gozo ler. A minha surpresa foi que aquilo deu gosto ler a muita gente. Depois fui escrevendo outros livros. O segundo foi uma desilusão, já não vendeu tanto, mas era uma coisa sobre ensaios, uma coisa mais hermética. Mais tarde, escrevi uma sequela do primeiro, chamada Nova Física Divertida, que diz respeito à Física moderna, mas os tempos já eram outros, as vendas foram menores.

Com José Eduardo Franco, co-autor de “Obras Pioneiras da Cultura Portuguesa”,do Círculo de Leitores, um conjunto de 30 livros com as primeiras obras escritas de raiz em português nas mais variadas disciplinas – Fotografia cedida por Carlos Fiolhais

E já escreveu algum livro de ficção?
Nunca escrevi ficção ou poesia porque acho que seria absolutamente incompetente. Escrevo muito, mas dentro daquilo que sou capaz de fazer. Faço muita coisa, mas não faço tudo.

Além dos livros de divulgação científica também tem livros pedagógicos e escolares.

Os dois irmãos de Carlos Fiolhais

A maior parte dos livros escolares de Carlos Fiolhais foram feitos em colaboração com o irmão Manuel Fiolhais, dois anos mais novo. “Seguiu Física como eu e é professor no mesmo departamento que eu, mas no resto temos carreiras independentes.”

Carlos Fiolhais tem ainda outro irmão, 11 anos mais novo, o jurista Rui Fiolhais, que está neste momento à frente do Instituto de Segurança Social.

Fiz um dos primeiros projetos de Física experimental para crianças, do jardim escola e escola primária, uma coisa que depois deu uma série de livros na Bizâncio, “Ciência a Brincar”. Fizemos 10 livros de atividades. Eram os primeiros livros de atividades experimentais infantis feitos por autores portugueses.

Além desses livritos para o pré-escolar e para o 1º ciclo do básico, já escrevi muito, com muitos colaboradores, manuais escolares. Grande parte dos meus 60 livros — uns 30 e poucos — são manuais escolares de Física e de Química do 7º ao 12º ano. É a minha tentativa de continuar a ir às escolas, sem lá ir. Muitos alunos do país conhecem-me por ser o autor dos manuais deles.

Ler e escrever não foi a única relação que teve com os livros. Como é que chegou a diretor da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra?
Foi o reitor Fernando Seabra Santos que me convidou. Ser diretor da Biblioteca Geral é um cargo importante, porque inclui a Biblioteca Joanina, que é a sala de visitas da Universidade. O diretor é que mostra a sala, uma espécie de mestre de cerimónias. Havia uma grande tradição dos grandes professores das Letras serem os diretores da Biblioteca. Mas não era costume ser alguém das Ciências.

Eu era conhecido nas Físicas, primeiro por ter comprado o primeiro computador pessoal, depois por ter criado, com o meu grupo, o Centro de Física Computacional. Começámos a fazer supercomputadores ligando computadores pessoais, fazendo supercomputadores caseiros, juntando processadores. E antes disso, fui diretor do Centro de Informática da Universidade de Coimbra, o que significa que estava à frente do maior computador que ali existia, do centro de telecomunicações para fora, da rede de internet. As primeiras ligações entre as universidades passaram por Coimbra. Portanto, tinha o nome ligado à informática, aos computadores, e o reitor queria que alguém modernizasse a Biblioteca.

Modernização da Biblioteca Geral

  • Alma Mater: Biblioteca Digital de Fundo Antigo da Universidade de Coimbra
  • Estudo Geral: repositório digital, constituído com o objetivo de preservar, divulgar e dar acesso à produção cientifica da Universidade de Coimbra
  • Serviço Integrado das Bibliotecas da Universidade de Coimbra: que liga todas as bibliotecas da universidade em rede, criando um catálogo e regulamento comum

Quando lá cheguei não havia praticamente computadores na Biblioteca. Pelo menos no gabinete do diretor não havia. Fui diretor há 14 anos, mais ou menos, e estive lá durante sete anos. O meu programa era casar o computador com os livros e como gostava de computadores e gostava de livros foi fácil fazer esse casamento. Foi uma coisa que me deu muito gozo.

Entrei também no mundo dos livros antigos, no mundo da história. Uma das grandes secções que tenho na minha biblioteca em casa é sobre bibliotecas, biblioteconomia, história do livro, etc. Saí quando mudou o reitor, percebi que a orientação era outra e voltei [para o Departamento de] Física.

Durante esse tempo estava a 100% na Biblioteca?
Não, dava umas aulas, embora com horário reduzido. Nunca deixei de dar aulas de Física, mas a maior parte do meu tempo era na Biblioteca, a gerir pessoas, processos e métodos. Também tentei fazer uma biblioteca nova na penitenciária, mas falhei completamente. Fui enganado pelos políticos que diziam que sim. Agora percebo que os políticos são alguém que diz que sim a qualquer coisa [risos].

Mesmo tendo menos aulas, nunca as larguei. O que se ressentiu foi a investigação. Os meus alunos de doutoramento em Física Computacional começaram a ir para outros [orientadores] mais novos do que eu e mudei um pouco de assunto, passei a fazer História da Ciência, muito inspirado nos livros de história que entretanto fui lendo, vendo, apalpando, cheirando na Biblioteca. História da Ciência é a minha área científica neste momento, porque depois de sete anos na Biblioteca ja não estou na crista da onda da Física.

Os seus interesses são muito diversificados e variaram ao longo do tempo. Segundo sei, criou um grupo de espeleologia durante o liceu.
Com amigos e colegas — tínhamos 14 ou 15 anos — criámos o clube [Centro de Espeleologia de Coimbra], desenvolvemos o clube e estive muitos anos empenhado nisso. A certa altura saíamos todos os fins-de-semana, em campismo, no cimo de montanhas, deslocados de tudo, na Serra de Aire e antes na Serra do Sicó. Foi um tempo de aprendizagem, de contacto com as povoações. Às vezes davam-nos uma galinha que a gente assava na fogueira. Uma pessoa tinha pouco, mas divertia-se.

Uma coisa que me entusiasmava na espeleologia era a descoberta. Estar numa gruta, que ninguém tinha visto, que era nova e que alguém tinha indicado. Não sabíamos o que íamos encontrar. Depois tinha uma parte científica, fazer a planta, identificar a geologia e a biologia da cavidade. Na altura, eu era uma espécie de jornalista, um secretário do clube. Tínhamos uns boletins, uma publicação chamada A Gruta, que mandávamos para as pessoas interessadas, para as bibliotecas e tal. Entre o quinto ou sexto ano do liceu e o terceiro ano da universidade fui um espeleólogo intenso e produtivo. Quer dizer: descobrimos muitas grutas. Escrevi muito sobre as cavidades subterrâneas. Tenho inventários de grutas da Beira Litoral, feitos por mim, com muitas aventuras curiosas, incluindo uma vez em que fiquei preso no que hoje se chamam Grutas de Mira de Aire. Fiquei preso lá numa parte não turística e foi um problema para sair.

Estava a sair ou a entrar na gruta?
Aquilo tem uma parte acessível ao público que é relativamente fácil porque está artificializada. Em baixo tem um rio e umas galerias inundadas. E tinha uma passagem esguia e escorregadia, por onde uma pessoa descia. Eu coube no buraco — era mais magro do que sou hoje —, mas o problema foi à vinda para cima, não consegui subir. Usávamos umas lanternas de acetileno, como os mineiros, uns fatos de macaco, umas botas, uns capacetes, etecetera, e eu não conseguia subir. Empurravam-me, mas não conseguia subir. Estava exausto e molhado ao fim de muitas horas lá dentro. Parece que estamos sepultados vivos. Não é muito agradável. Mas sabe, nestas situações de aperto, o mais importante é a calma. Se uma pessoa entra em desespero não consegue fazer nada. Com um bocado de calma, com a ajuda dos outros, lá consegui sair, todo esfarrapado, todo desgrenhado.

Também tenho muito boas recordações dos tempos em que palmilhávamos as serras — não andámos só lá em baixo. Grandes caminhadas fizemos a pé, de dia e de noite. Íamos de camioneta, ninguém tinha carro. Íamos com as mochilas e subíamos a serra. Foram uns tempos de aprendizagem da natureza. Achei aquilo fantástico, aquele desporto aventura. Nunca me aconteceu nada de grave, exceto queimar um dedo, porque é preciso cumprir normas de segurança e, na altura, eu sabia-as. Era um mundo onde estive mergulhado muito tempo, mas de que agora já estou desligado há muito — tirando ser sócio da Sociedade Portuguesa de Espeleologia, mais como símbolo do que outra coisa. Os amigos ainda se lembram de coisas que nem me quero lembrar: num dia que estava cheio de cede e bebi o cantil da água dos outros. Foi engraçado ter escolhido um desporto ligado à ciência, no sentido que tem muito de descoberta. Uma coisa que me impressionava nisso, era uma pessoa estar dentro da Terra num sítio desligado de tudo e depois voltar e ver a luz do dia. Era como se fossemos a outro mundo. Conheço Portugal por dentro e por fora [risos].

Numa expedição espeleológica em Condeixa com Augusto Pinto, Condeixa (início dos anos 1970) — Fotografia cedida por Carlos Fiolhais

Também praticou um desporto menos físico: o xadrez.
Aí estive menos tempo. Quando estava no primeiro ano de faculdade inscrevi-me na Associação Académica de Coimbra e havia campeonatos universitários. Não era dos melhores jogadores de xadrez, de facto. Tinha de saber mais e praticar mais para jogar melhor. Não estive muito tempo nisso, mas ainda joguei em torneios. Depois percebi que para se ser um bom xadrezista é preciso viver obcecado, é preciso pensar no jogo de dia e de noite. O que, de facto, não era para mim. Nos desportos fiquei-me por aqui: um para a cabeça e outro para o corpo (e para a cabeça também). A minha relação com o desporto é um pouco distante, embora goste de ver um bom jogo de futebol, se for bem jogado e se eu não souber o resultado.

É aficionado do futebol?
Sou simpatizante, embora não seja sócio, da Associação Académica de Coimbra, porque quando eu era mais novo era um grande clube. Nos meus tempos de juventude, entre os 15 e os vinte e tal anos, foi uma época em que a Académica esteve no auge, chegou a estar em segundo lugar no campeonato. Eu tinha 14 anos quando houve a luta académica de 1969. Nessa época, a equipa da Académica era forte e ia ver os treinos porque ficava perto do meu liceu. Lembro-me também que vivia numa casa com vista para o estádio. Não ia muito ao futebol — até porque não havia muito dinheiro para isso —, mas lembro-me de ver jogos com os binóculos.

Fui muito poucas vezes ao futebol, fui mais para ensinar o meu filho certas expressões de português que ele não aprendia em casa [risos]. E depois fui com ele, em Londres, ver o Chelsea — as coisas que uma pessoa faz pelos filhos. Já agora, o meu filho é do [Futebol Clube do] Porto, porque a época em que ele cresceu é uma época em que o Porto ganhava tudo. Quando estava na Alemanha fui ver o [Sport Lisboa e] Benfica a Colónia. Faz parte de ser bom português ir ver jogar o Benfica — mesmo não sendo adepto. Na altura era o melhor clube português a jogar contra alguém estrangeiro. Sei do futebol o mínimo, dos outros desportos menos, mas não leio jornais desportivos, não sei o que é isso.

Também não escreve para jornais desportivos? Deve ser dos poucos tipos de publicações para as quais não faz crónicas.
Por acaso é. A última Prevenir, que é uma revista de moda e dietas, tem uma mini-entrevista minha. Já apareci na Caras. Mas essa falta-me no currículo: não tenho nada, acho eu, em jornais desportivos. Embora já tenha tido debates com pessoas do desporto, por várias razões. Um dia tive um debate com o então treinador do Leiria, o Manuel José, e foi um debate muito engraçado. Eu a falar das leis de Newton aplicadas à bola e ele a dizer que não era preciso saber as leis de Newton para perceber de futebol. E concordei com ele. Também já me pediram prefácios: pediu-me o professor de desporto, Manuel Sérgio, que fez um livro sobre Epistemologia do Desporto e, recentemente, houve um amigo que fez um texto sobre o Mundial de 1966 e pediu-me um texto sobre o meu Mundial de 1966. Tinha 10 anos, mas lembro-me de Portugal ganhar à Coreia do Norte. E conto essa memória: do que foi ver o Eusébio meter três golos. Depois fui falar na apresentação do livro e ao meu lado imagine quem é que estava, o Simões, um jogador do Benfica que participou nesse campeonato de 1966.

"Recentemente, houve um amigo que fez um texto sobre o Mundial de 1966 e pediu-me um texto sobre o meu Mundial de 1996. Tinha 10 anos, mas lembro-me de Portugal ganhar à Coreia do Norte. E conto essa memória: do que foi ver o Eusébio meter três golos."

Além das colaborações pontuais e de entrevistas ocasionais, tem muitas colunas fixas em revistas e jornais?
Tenho e tive. Tenho uma coluna no Público há cerca de 10 anos. Comecei no Público logo no início. Era um jornal com um grande suplemento de ciência e o José Vítor Malheiros convidou-me. O José Vítor Malheiros é responsável por ter escrito o meu primeiro artigo na imprensa nacional, na revista do Expresso, uma recensão de um livro da Ciência Aberta — na altura longe de imaginar que iria ser o diretor da coleção. Quando há uma separação do Expresso para o Público, comecei a escrever recensões no Público, mas não só, artigos grandes também. Já escrevi milhares de artigos. No Público escrevi muito, depois saí por várias razões — aquilo encolheu muito. Retornei, há 10 anos, com uma coluna de opinião, convidado pelo José Manuel Fernandes, que me disse que poderia escrever sobre o que quisesse. Coisa que sempre fiz. Enquanto que, no início, os artigos do Público eram muito sobre ciência, cultura científica, livros de ciência, depois, com o José Manuel Fernandes, comecei a escrever sobre os mais variados assuntos.

Além disso, escrevo numa revista cultural do Porto, As Artes Entre as Letras. Escrevo há vários anos, uma vez por mês. Antes disso, escrevi num jornal do Porto que já não existe, O Primeiro de Janeiro. Escrevo uma crónica na revista da Sociedade Portuguesa de Física, Gazeta de Física, também há vários anos. Fui cronista do jornal Sol durante seis anos, na revista Tabu, de 15 em 15 dias. Já escrevi vários artigos para a Visão e tive uma coluna regular no Jornal de Letras. Tenho colaborações avulsas, ocasionais, em tudo o que é publicação periódica, incluindo no Observador. A pedido sempre, nunca mandei nada para um jornal que não tenha sido solicitado.

E colaborações com a televisão, teve?
Com a televisão é que só tive duas experiências — tirando ir de vez em quando ao noticiário ou a um programa cultural ou qualquer coisa. Os dois programas com os quais colaborei foram o Mega Ciência, na SIC, onde era o consultor científico, e que teve grande audiência — ao nível do Herman José — e depois fiz o ABC Ciência na RTP2, mas já não teve tanto êxito.

E há uma coisa que ainda não lhe disse: sou empresário.

Empresário?
Tenho uma empresa com amigos chamada Coimbra Genomics, que faz a interpretação do genoma para médicos. A empresa está sedeada em Cantanhede, no parque de biotecnologia [Biocant], há cerca de três anos. Fui das primeiras pessoas em Portugal a ter o genoma sequenciado na totalidade. E, nesta empresa, temos produtos de interpretação automática de genoma, um software que está a funcionar em hospitais da Alemanha, por exemplo. Há um interesse do ponto de vista médico em saber se se tem propensão para alguma doença, algum defeito dos genes. Se tiver a sequenciação feita, as perguntas podem ser colocadas. O nosso software faz isso de forma automática, para dar resposta aos médicos. Temos cerca de 100 questões padronizadas.

Entrega do Grande Prémio Ciência Viva Montepio 2017 por Manuel Heitor, ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior — Pedro Granadeiro/Cintesis

Voltando ao prémio, houve pessoas que lhe prestaram homenagem com um pequeno discurso. Falaram da desorganização organizada, de como consegue encontrar coisas no meio das pilhas.
Eles exageraram. Foram buscar como exemplo um dia em que aquilo correu bem. De facto, o meu escritório é um caos. E gosto de viver no caos no seguinte sentido: gosto de reunir informação, coleciono informação, gosto muito de jornais — embora assine online, continuo a comprar jornais em papel. Tenho vício do papel, tenho vício de comprar o jornal, e recorto. Ao fim-de-semana, uma das tarefas que me dá mais descontração, é recortar os jornais. E o trabalho de recortar faz-me não só ver o título, mas rever o texto — não leio tudo, mas sei “se precisar disto está aqui”. Isso faz com que vá acumulando umas caixas com recortes: arcas enormes mais ou menos separadas pelos assuntos que me suscitam interesse, como ciência, cultura ou, às vezes, turismo.

E tem isso tudo catalogado?
Não, não está catalogado — é o caos —, isso seria demais. A não ser os meus recortes, que são muitos, que pedi a alguém para catalogar. Não só coisas que escrevi, mas coisas que falam sobre mim. Não é por narcisismo, uma pessoa gosta de mostrar ao pai e à mãe que gostam de ver essas coisas. E agora mostra à sogra [risos].

Então não tem portfólio de tudo o que o já escreveu?
Não. O que tenho é memória. Dizem que sou distraído, mas tenho boa memória fotográfica. E lembro-me de coisas que li e que vi — uma memória visual muito boa. Conhecer caras não é comigo, mas conhecer títulos, conhecer fotografias. O que eles ficam impressionados é que eles vêm com qualquer assunto, e eu tenho lá aquelas pilhas, que estão mais ou menos por assunto, mas sem grande ordem. Depois meto ali a mão e com um bocado de sorte, um certo número de ilusionismo e um bocado de teatro, vou lá e encontro. A mesma coisa com os livros. Tenho uma biblioteca à volta do meu escritório que se prolonga na cave a nas outras divisões todas, com livros em segunda linha, e ninguém diria que saberia onde estão os livros. Mas como fui eu que os coloquei lá…

Eu compro muitos livros e abro-os antes de colocar na estante — a maior parte das vezes não o leio. Perguntam-me: “Já leu isto tudo?”. Que pergunta parva, é impossível ter lido isto tudo. Mas só o facto de ter aberto o livro, ter visto do que é que se trata, às vezes passados 10 anos eu sei que é aquele livro que vai resolver uma questão e faço um número. Gosto muito de, quando vou a uma conferência, pegar em dois ou três livros e sinto-me muito seguro de ter lido qualquer coisa na véspera ou no dia sobre aquele assunto com um livro que tinha em casa. Às vezes dou um ar de grande sapiência, de grande profundidade, com livros que guardei até aquela hora. Mas o meu mérito é saber onde estavam.

Para terminarmos, que físico, vivo ou morto, gostaria de conhecer ou de ter conhecido?
O grande herói dos físicos de século XX é o Einstein. Ele representa a inteligência. O cérebro dele, a figura dele, a cara dele representa a capacidade que o homem tem de compreender o universo. Se tivesse de voltar atrás para falar com alguém, para ver alguém, para apertar a mão a alguém dos físicos acho que seria ao Einstein. Estou a dizer uma coisa trivial, eu sei.

E o que é que lhe diria?
[risos] Acho que ficava mudo. O que é que uma pessoa diz a outra pessoa que é uma espécie de herói de juventude? Estudei a teoria da relatividade ainda antes de entrar para a universidade, por mim próprio, usando livros de divulgação, e aquilo é, realmente, uma construção muito bem feita. A relação entre matéria, energia, tempo e espaço. Aprendi aquilo porque a matemática até nem é muito complicada. E é fabuloso. Uma coisa que me levou talvez a ir para Física foi querer saber mais sobre a teoria de Einstein. Acho que ainda tenho dos anos 1971-1972, antes de entrar para a universidade, trabalhos que fiz para mim próprio, para uso intelectual, para tentar perceber o que era a teoria de Einstein. Não sei o que lhe diria, palavra de honra. Não tenho nenhum chavão preparado.

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