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O que os espanhóis que andam nos fogos dizem dos portugueses

28 Julho 20178.582

É a terceira vez no espaço de 40 dias que vêm ajudar Portugal. Há elogios a Marcelo e aos voluntários, mas também reparos à falta de caminhos corta-fogo e à má forma física de alguns bombeiros.

Ao longo dos 40 km de estradas que ligam Mação a Nisa, a imponente coluna militar espanhola de viaturas de combate a incêndios é saudada pela população: dezenas de pessoas com casas à beira da estrada vêm à janela saudar, acenar, aplaudir, apoiar, filmar ou fotografar com o telemóvel, ou simplesmente assistir. Talvez uma parte significativa nem repare que as matrículas são espanholas. E, apesar de a marcha ser lenta, muitos dos populares, sobretudo os mais idosos, talvez não consigam ler que a sigla UME inscrita nas viaturas significa Unidade Militar de Emergências. Mas o horizonte continuava cheio de fumo esta quinta-feira ao início da noite e percebiam que aqueles homens iam tentar mudar esse cenário negro – daí as ovações.

São habitualmente referidos como bombeiros espanhóis, mas nem são bombeiros – são 3.500 militares especialmente vocacionados para lidar com catástrofes, como inundações e incêndios. Estão baseados em 5 cidades espanholas, a partir de onde podem chegar a qualquer ponto de Espanha em poucas horas, em caso de emergência. Na passada terça-feira de madrugada, 215 partiram rumo a Portugal. Foi a terceira vez no espaço de 40 dias que vieram ajudar – estiveram na tragédia de Pedrógão, na Guarda e, agora, em Mação e Nisa.

A coluna militar espanhola foi aplaudida por dezenas de pessoas na estrada entre Mação e Nisa

A Autoridade Nacional de Proteção Civil solicitou a presença de meios terrestres espanhóis no início da semana, face ao agravamento dos fogos nesta zona. O Governo acionou o Protocolo Bilateral Luso-Espanhol em matéria de Proteção Civil e Espanha enviou novamente os operacionais da Unidade Militar de Emergências.

Patrícia Gaspar, adjunta de operações da Proteção Civil, explicou ao Observador que se aplicam os princípios da solidariedade europeia em matéria de Proteção Civil: a ajuda é enviada a título gratuito, ficando o país de acolhimento responsável pelos custos de manutenção das equipas, nomeadamente a alimentação e o alojamento.

“A voz do fogo é complicada. Eu também não a conhecia. Uma coisa medonha, parece um filme de terror. Faz correntes de ar e sucções estranhas”, descreveu a autarca, crente na capacidade dos espanhóis para revigorarem os 500 homens que estavam no terreno: “Os nossos homens estão exaustos. Não comem. Temos de refrescar as equipas no terreno. Um combatente cansado é um guerreiro inútil.”

A presidente da Câmara de Nisa, Idalina Trindade (eleita pelo PS), falou expressamente destes espanhóis que iam entrar em ação, para ajudar a combater as chamas, numa altura em que tinha ainda duas frentes de fogo ameaçadoras para o concelho, em Portas de Ródão e Salavessa, e depois de ter visto três aldeias serem evacuadas, incluindo aquela onde reside, Amieira do Tejo, onde encontrou um “cenário dantesco”. Dos 200 residentes, metade aceitou sair, a outra metade ficou durante a noite para não largar as suas casas – uma parte destas pessoas subiu a uma torre do castelo e ficou ali a rezar contra as chamas.

“A voz do fogo é complicada. Eu também não a conhecia. Uma coisa medonha, parece um filme de terror. Faz correntes de ar e sucções estranhas”, descreveu a autarca, crente na capacidade dos espanhóis para revigorarem os 500 homens que estavam no terreno: “Os nossos homens estão exaustos. Não comem. Temos de refrescar as equipas no terreno. Um combatente cansado é um guerreiro inútil.”

Um operacional da UME numa pausa para descansar no tejadilho da sua viatura

Os jornais espanhóis têm sido bastante críticos em relação à desorganização no combate a incêndios em Portugal. Primeiro foram os artigos publicadas no El Mundo sob o pseudónimo de Sebastião Pereira a seguir à tragédia de Pedrógão, a falar em “caos” e “gestão desastrosa”. Depois um artigo do El Español enumerou várias falhas no combate aos incêndios, que apontou uma das causas para o fim da aparente lua-de-mel entre o governo de António Costa e a maioria dos portugueses.

Falta de limpeza e de corta-fogos; elogios a Marcelo e aos voluntários

Mas… e os operacionais espanhóis que estão no terreno, em Mação e em Nisa? Como veem eles esta onda destruidora de incêndios? E o que estamos a fazer pior do que eles? O homem que liderou a missão em Nisa, o capitão Zapito, enche-se de elogios à forma como foram recebidos pela população, à logística de apoio, à coordenação das forças e à capacidade dos bombeiros portugueses no terreno. É uma resposta diplomática, o que não quer dizer que não seja genuína, e que aponta para as condições meteorológicas como principal razão para esta tremenda devastação de área ardida. Admite que talvez seja preciso fazer mais na prevenção, mas garante que em Espanha é igual.

Os espanhóis da Unidade Militar de Emergências só fazem turnos de 12 horas por dia no máximo, para estarem sempre preparados para o pior cenário

O Observador ouviu vários outros espanhóis que estiveram a lutar contra as labaredas no terreno, garantindo-lhes o anonimato, para poderem falar à vontade. Como pontos negativos, e além da falta de limpeza das nossas florestas, apenas concordam que não veem em Portugal tantos caminhos corta-fogo como em Espanha, o que facilita a progressão das chamas.

Um deles acredita que em Espanha talvez não tivesse ganho estas proporções: “Temos meios aéreos e acho que o fogo não ia chegar a este ponto”. Mas outros companheiros recordam a catástrofe na Galiza, em 2006, onde estiveram bombeiros portugueses a ajudar.

O centralismo foi apontado por um dos espanhóis: “Parece que às vezes estão à espera de decisões de Lisboa, o que é incrível. Em Espanha cada comunidade autónoma assume maior responsabilidade”.

Outro olhou à volta e apontou um ligeiro reparo à má forma física de alguns bombeiros mais barrigudos com quem se cruza no terreno: “Nós somos todos magritos. Fazemos uma hora de treino por dia”.

“Às vezes as pessoas saúdam-nos quando passamos, mas aqui tem sido impressionante”, admitiu um deles. Ficou também bastante surpreendido quando viu o Presidente da República no quartel de Mação: não só por ter ido ali, e por ter também agradecido aos espanhóis, mas por o ter visto puxar de um tabuleiro para tomar a mesma refeição que eles: “Em Espanha não vemos o [primeiro-ministro, Mariano] Rajoy fazer isso.”

Mas um seu camarada até ficou espantado por haver tantos bombeiros que não são profissionais no terreno: garantiu que não notou diferenças nas técnicas de combate às chamas. Em Espanha não há associações de voluntários a assumir um papel tão importante como em Portugal. Outro ainda não estava à espera precisamente de ver tantos voluntários a ajudar na logística, a levar-lhes refeições por exemplo.

“Às vezes as pessoas saúdam-nos quando passamos, mas aqui tem sido impressionante”, admitiu um deles. Ficou também bastante surpreendido quando viu o Presidente da República no quartel de Mação: não só por ter ido ali, e por ter também agradecido aos espanhóis, mas por o ter visto puxar de um tabuleiro para tomar a mesma refeição que eles: “Em Espanha não vemos o [primeiro-ministro, Mariano] Rajoy fazer isso.”

As horas de descanso, a remuneração e as comunicações de emergência

Embora obedeçam ao comando operacional português – ou seja, atacam o fogo onde lhes pedem – no terreno, num determinado sector, não estão lado a lado com os portugueses. Desconhecem por exemplo as queixas, amplificadas esta sexta-feira pelo presidente da Associação Nacional de Bombeiros Profissionais, Fernando Curto, quanto às demoras na rendição dos homens que estão a lutar contra as chamas. O bombeiros portugueses trabalham em turnos de 24 horas, alternando fases em que estão mais ativamente a segurar a agulheta, com outras em que estão na retaguarda a apoiar as operações.

“Nós alternamos turnos de 12 horas. É fundamental os operacionais descansarem as 12 horas, para estarem sempre a postos para o pior”, argumentou um dos espanhóis.

Em termos remuneratórios também há diferenças significativas. Um elemento da Unidade Militar de Emergências, em início de carreira, ganha cerca de 1.340 euros líquidos, mais subsídios adicionais por cada deslocação, seguro de vida e seguro privado de saúde. “Em Portugal, praticamente não há incentivos: os voluntários recebem 45 euros por cada turno de 24 horas; retiraram-lhes a isenção das taxas moderadoras e a majoração na contagem do tempo para a reforma”, lamenta ao Observador Jaime Marta Soares, presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, que apontou também uma grande diferença nos meios, por haver tantas viaturas portuguesas antigas a precisar de serem substituídas e, claro, a falta de aviões: “Em Espanha têm 19 Canadairs, nós não temos nenhum”.

“Esta ajuda é fundamental, mas os espanhóis são mais reservados e muito teimosos. Um veículo espanhol não se despistou mas ficou com duas das rodas no ar na frente de fogo, num terreno inacessível. O condutor espanhol não quis abandonar a viatura nem o local, e também não quis despejar a viatura para ficar mais leve e conseguir sair dali. Veio um Canadair de Espanha fazer uma descarga para apagar o fogo naquela zona e lá conseguiram tirar o carro antes de ficar em risco. Eles coordenam-se e entendem-se.”

Outra diferença significativa: o SIRESP espanhol não é um escândalo permanente, como em Portugal. Chama-se SIRDEE (Sistema de Radiocomunicaciones Digitales de Emergencia del Estado) e embora não seja infalível, como admitem vários dos militares espanhóis, praticamente não é tema na atualidade política espanhola. A viatura de comunicações, com uma antena parabólica via satélite no tejadilho, é uma das mais vistosas da Unidade Militar de Emergências – não há quem não a tenha visto e comentado junto ao Posto de Comando de Mação. Trouxeram 49 viaturas no total, incluindo 4 cisternas, 12 auto-bombas, veículos de apoio e dois autocarros, segundo Alberto Vazquez, assessor de imprensa da UME.

Posto de comando de Nisa: a viatura de comunicações da Unidade Militar de Emergências, com a antena-satélite no tejadilho

O Observador apurou junto de fonte que acompanhou as operações em Salavessa que se registou um pequeno incidente com uma viatura espanhola que não pertence à UME, mas sim aos bombeiros da Extremadura: “Esta ajuda é fundamental, mas os espanhóis são mais reservados e muito teimosos. Um veículo espanhol não se despistou mas ficou com duas das rodas no ar na frente de fogo, num terreno inacessível. O condutor espanhol não quis abandonar a viatura nem o local, e também não quis despejar a viatura para ficar mais leve e conseguir sair dali. Veio um Canadair de Espanha fazer uma descarga para apagar o fogo naquela zona e lá conseguiram tirar o carro antes de ficar em risco. Eles coordenam-se e entendem-se.”

Fernando Curto: “Acho mal que venham como salvadores da pátria”

Fernando Curto, presidente da Associação Nacional de Bombeiros Profissionais, percebe e subscreve as críticas quanto à falta de limpeza das florestas, à falta de caminhos corta-fogo e até à má forma física de alguns bombeiros voluntários: “Claro que são pessoas que têm os seus empregos e vão fazer umas horas aos bombeiros, e a quem não pode ser exigido que estejam em forma física como se pede aos profissionais. Eu também faço uma hora de treino por dia.”

Embora agradeça as ajudas externas e admita que é prematuro fazer essa avaliação, Fernando Curto não esconde algum desconforto por terem sido chamados os profissionais espanhóis: “Os bombeiros estão a ser menosprezados e também a tropa. Não estou a escamotear a ajuda seja de quem for, mas acho mal que venham como salvadores da pátria quando os abnegados portugueses fazem tanto, desde que lhes dêem as condições para isso. Ainda não encontrei nenhuma mais-valia que eles viessem trazer. A não ser as comunicações, com parabólicas satélites. Se os espanhóis em Portugal conseguem falar para Espanha, como é que os portugueses com o Siresp não conseguem falar em Portugal uns outros”.

Patrícia Gaspar, a adjunta da Proteção Civil, reagiu assim a esta crítica à participação espanhola: “Até me custa ouvir isso. Foi absolutamente valioso o trabalho que fizeram em articulação com as forças que estão no terreno.”

Em Nisa, além da gratidão pública manifestada pela presidente da câmara, um habitante interrompeu ostensivamente uma conversa entre o Observador e um grupo de quatro operacionais espanhóis numa esplanada esta sexta-feira. Abraçou um deles e soltou uma frase algo exagerada e injusta para todos os portugueses, mas foi o que lhe saiu: “Graças a vocês é que o fogo ficou controlado”.

Os militares espanhóis receberam a missão de substituir os bombeiros portugueses que estavam a combater as chamas em Salavessa

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