Homossexualidade

À luz de moonlight: a homofobia mata

Autor
937

Um estudo publicado no Journal of the American Medical Association – Pediatrics mostra que a aprovação das novas leis do casamento levaram à redução de 7% nas tentativas de suicídio entre jovens LBGT.

Foi há cerca de uma década que se começou a debater a sério a possibilidade de em Portugal se legalizar o casamento de pessoas do mesmo sexo. O casamento viria a ser legalizado, finalmente, em 2010, tornando Portugal um país pioneiro nestes assuntos. O casamento homossexual (chamemos-lhe assim para simplificar) foi aprovado contra a vontade da generalidade dos deputados do PSD e do CDS e contra a vontade do Presidente da República de então. Cavaco Silva, antes de promulgar a lei, enviou-a para o Tribunal Constitucional; mais tarde, no momento da sua promulgação, convocou uma conferência de imprensa deixando bem claro que só não vetava a lei porque de nada serviria. Mesmo assim, a Igreja Católica censurou Cavaco Silva. Por exemplo, o Cardeal Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, não se conteve e declarou que sendo Cavaco Silva católico, seria de esperar que usasse o veto político. Portanto, a direita portuguesa esteve em peso, com honrosas excepções, do lado errado da história. Como de costume.

Lembrei-me deste assunto na semana passada, quando li um artigo interessantíssimo na revista científica Journal of the American Medical Association – Pediatrics. O estudo, da autoria de quatro cientistas — Julia Raifman, Ellen Moscoe S. Bryn Austin e Margaret McConnell —, debruça-se sobre o impacto das alterações às leis do casamento homossexual nas tentativas de suicídio de adolescentes nos Estados Unidos. Os dados foram obtidos entre 1999 e 2015 pelo Youth Risk Behavior Surveillance System e incluem informação sobre mais de 750.000 estudantes do ensino público de 47 Estados diferentes.

Apesar de se tratar do impacto da mudança de uma lei, a verdade é que os dados quase podem ser analisados como se se tratassem do resultado de uma experiência laboratorial. É aquilo a que em econometria chamamos uma experiência natural (natural experiment) ou, também, uma quase-experiência. Tal como num laboratório, existe um grupo de controlo, a quem não é aplicado, por exemplo, um determinado antibiótico. Esse grupo de controlo são os 15 Estados que não mudaram as suas leis sobre casamentos “pecaminosos” até 2015. E, claro, há o grupo a quem é aplicado o tratamento, no caso, os 32 Estados que mudaram as suas leis em favor de uma maior liberdade de acesso ao casamento. Entre estes últimos, há aqueles que mudaram as leis mais cedo e os que as mudaram uns anos depois. Juntando tudo, é possível estimar com bastante certeza qual o impacto que a mudança de lei teve.

Claro que, como não se trata de uma verdadeira experiência, é necessário filtrar para uma série de outros factores que tanto podem ser individuais — como a etnia, problemas anteriores de saúde ou idade — como estaduais — existência de outras leis mais ou menos discriminatórias, taxas de desemprego. Mas nada que seja particularmente difícil de fazer.

E quais foram os resultados a que se chegou? A aprovação das novas leis do casamento levaram a uma redução de 7% nas tentativas de suicídio entre estes jovens. Se tivermos em atenção que o suicídio é a segunda principal causa de morte nesta faixa etária, este resultado ganha um significado ainda mais importante. Um dos objectivos das políticas públicas americanas, definido na década passada, era o de reduzir as tentativas de suicídio juvenil em 10% (HealthyPeople2020). Aposto que nem lhes passava pela cabeça que a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo iria, por si só, percorrer mais de dois terços desse caminho. E, como seria de esperar, esta redução global de 7% esconde o verdadeiro impacto. Olhando para os resultados desagregados, percebemos que a redução é praticamente toda ela junto dos jovens que declaram pertencer a minorias sexuais, que também são aqueles que mais se suicidam (ou tentam suicidar).

Estes resultados podem surpreender, e a mim surpreenderam, por mostrarem um impacto tão grande de uma tão simples mudança de lei. Mas, na verdade, este é apenas mais um estudo que confirma o que outros trabalhos científicos já permitiam intuir. Por exemplo, Mark Hatzenbuehler, num trabalho publicado na revista Pediatrics, em 2011, mostrava que ambientes sociais opressivos aumentam o risco de tentativas de suicídio na comunidade jovem LGBT. E, no ano anterior, o mesmo autor, em colaboração com Katie McLaughlin, Katherine Keyes e Deborah S. Hasin, num estudo publicado no American Journal of Public Health, concluía que a discriminação institucional tinha um impacto brutal na saúde mental da população LGBT, levando, por exemplo, a um aumento da ansiedade e do abuso de álcool.

Vale a pena recordar o que foram os debates sobre o casamento homossexual em Portugal e como os opositores ficavam tão enxofrados (e ainda ficam), quando os chamam homofóbicos. No Prós e Contras de Fevereiro de 2009, um dos momentos mais quentes da noite foi numa das intervenções de Isabel Moreira, que enquanto falava (ou gritava, para se conseguir fazer ouvir) era assobiada e apupada pelos hooligans presentes. Nessa intervenção, como podem ouvir, a deputada disse o que neste artigo foi escrito ou seja, tinha toda a razão.

Ao contrário do que se costuma dizer, muitas vezes há um lado certo e um lado errado nestas questões ditas fracturantes. Com os dados que hoje são conhecidos, é justo afirmar que do lado certo deste debate estava a generalidade da esquerda portuguesa. Do lado errado, estava a direita portuguesa e a Igreja Católica, simbolizada no debate pelo padre António Vaz Pinto.

PS. – Por ser justo, e para não meter todos no mesmo saco imoral, devo destacar que a direita liberal estava bem representada por Adolfo Mesquita Nunes, do CDS. Apesar de não ter estado no Prós e Contras referido, apareceu noutros debates defendendo a liberdade de todos ao casamento.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Agências de Rating

De BB+ para BBB-

Luís Aguiar-Conraria
204

A procissão ainda vai no adro. Para a Fitch e a Moody’s a dívida portuguesa anda é investimento especulativo. E, enquanto estivermos muito endividados, estaremos sujeitos aos maus humores dos mercados

Assembleia Da República

Um hemiciclo com paredes de vidro

Luís Aguiar-Conraria
148

Temos agora um site que permite saber o sentido de voto de cada deputado em cada diploma discutido na Assembleia da República. Todo este trabalho foi gratuito, não resultou de um subsídio.

PS

Um Governo que desistiu de governar?

Luís Aguiar-Conraria
826

Um PS que prefere a actual solução parlamentar a uma maioria absoluta é um PS que desistiu de cumprir o seu programa. É deixar quem defende o essencial do seu programa eleitoral sem ter em quem votar.

Homossexualidade

Hereges e beatas

Luis Carvalho Rodrigues
2.601

Eu percebo que gente como a deputada Isabel Moreira não faça a mínima ideia do que é uma “verdade científica” sobre a homossexualidade. Mas já custa ver a professora Ana Matos Pires repetir a tolice.

Sociedade

Esquerda e instrumentalização da homossexualidade

João Marques de Almeida
806

Os liberais devem defender os direitos dos homossexuais e lutar, contra os ataques das esquerdas radicais, por uma sociedade assente na família tradicional. A maioria dos portugueses terá esta posição

Isabel Moreira

Basta! Venha lá o louvor a Gentil Martins

José Ribeiro e Castro
16.859

Isabel Moreira tem-se especializado em perseguir e ordenar perseguições a cidadãos e profissionais com base nas suas convicções, opiniões e afirmações, o que era uma das tarefas da Gestapo e da Stasi.

Igreja Católica

O milagre do Papa Francisco

P. Gonçalo Portocarrero de Almada
207

Há quem deseje que a Igreja católica se converta numa espécie de organização não-governamental, dedicada a causas sociais e ecológicas. No fundo, uma Igreja sem Deus.

Identidade de Género

A Esquerda e a libertação do Homem

Pedro Morais Vaz

Vamos dar esta mensagem a jovens de 16 anos: “Ainda não tens maturidade suficiente para ingerir uma cerveja, mas não nos opomos a que troques de sexo”. Serei o único a ver algo de patológico nisto?

Só mais um passo

Ligue-se agora via

Facebook Google

Não publicamos nada no seu perfil sem a sua autorização. Ao registar-se está a aceitar os Termos e Condições e a Política de Privacidade.

E tenha acesso a

  • Comentários - Dê a sua opinião e participe nos debates
  • Alertas - Siga os tópicos, autores e programas que quer acompanhar
  • Guardados - Guarde os artigos para ler mais tarde, sincronizado com a app
  • Histórico - Lista cronológica dos artigos que leu unificada entre app e site