Esta foi a semana em que o discurso do Pontal encheu o país de conselheiros de Passos Coelho. Admitamos que por vezes não é claro o que Passos espera do país. Às vezes, parece que não espera nada, a não ser a obrigação de um dia destes ter de nos desenrascar novamente, como um médico perante um doente sem juízo. Mas também teremos de reconhecer que não é claro o que os seus críticos esperam de Passos. Deve ele felicitar António Costa pelo desempenho da economia? Mas como, se a economia não reage à receita mágica de gastar mais com os funcionários públicos? Deve Passos tentar entender-se com o PS? Mas como, se Costa preferiu comprometer-se com os partidos que sempre combateram a democracia representativa, a economia de mercado e a integração europeia?

A pressão para que Passos faça as malas tem uma razão de ser: o medo de que ele possa regressar ao governo a qualquer momento. Portugal está num impasse. A economia não cresce há quinze anos. Por enquanto, o dinheiro barato do BCE disfarça a dificuldade de financiar o Estado. O governo de António Costa não tem tempo para essas questões. O seu único objectivo é manter a base de poder dos partidos que o apoiam, defendendo o Estado e as suas clientelas à custa do resto da população. Ninguém sabe quando isto vai acabar, mas já pouca gente acredita que acabe bem. O que quer dizer que Passos pode mesmo voltar a São Bento, sem ser preciso uma manhã de nevoeiro. E esse regresso assusta muitos oligarcas. É que durante o seu governo, Passos mostrou-se excessivamente irreverente. Não recuou perante os clientes e dependentes do Estado. Enfrentou os interesses instalados, dos sindicalistas do PCP aos banqueiros do poder. O anti-passismo é a medida da ansiedade oligárquica perante alguém que revelou não ser “um dos nossos”.

Mas é possível criticar Passos por outra razão. Em 2011, Passos convenceu-se de que era essencial restabelecer a credibilidade externa. Trabalhou para isso, e conseguiu a folga que Costa está a consumir. No Pontal, Passos deu agora a entender que está pronto para fazer o que já fez entre 2011 e 2014. Como se o seu destino fosse consertar o que os outros destroem. Está assim a inserir-se num ciclo, e não numa mudança. A sua história corre o risco de se converter numa mistura de Hamlet, a peça de teatro em que tudo existe para ser emendado pelo príncipe (“O mundo está fora dos eixos. Oh, maldita sorte! Porque nasci eu para o pôr na ordem?”), com Groundhog Day, o filme em que o personagem principal acorda sempre no mesmo dia de inverno (“Querem uma previsão do tempo? Vai ser frio, vai ser cinzento, e vai ser assim durante o resto das vossas vidas”).

Que deve Passos fazer? Outro tipo de discursos, dirão aqueles que não apreciaram a longa divagação do Pontal. Certamente. Formar uma equipa que possa protagonizar debates sobre grandes temas? Também. Tudo isso é importante, mas nada valerá a pena, se não houver uma visão muito clara do que o momento exige. E o que o momento exige não é “optimismo”, só para não parecer pessimista, nem “falar do futuro”, só para não parecer agarrado ao passado. É outra coisa: é criar as condições políticas e sociais de um esforço reformista que permita ao país escapar ordenadamente deste ciclo descendente de bancarrotas e de ajustamentos. Porque Portugal, cada vez mais estagnado e numa Europa cada vez mais instável, vai acabar por sair deste ciclo. Pode é não ser ordenadamente, nem para uma situação melhor. O ponto de partida de Passos Coelho tem de ser este: nada já é como dantes, e nada vai ser como dantes.

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