Politicamente Correto

Conversa da treta

Autor
550

A mutilação genital que passou a corte por causa do multiculturalismo. O presidente que acha que as mulheres podem cobrir as cabeças para combater a islamofobia... O que vem a seguir?

Então não vão votar Marine Le Pen? Não está na altura de a França ter uma presidente mulher? Que avanço civilizacional esse de ter finalmente uma mulher presidente num país cujos presidentes além de serem invariavelmente homens se pautam por um marialvismo vistoso.

Sei que o domínio da língua francesa já conheceu melhores dias mas se fizerem uma pesquisa para “vie privée” Mitterrand, Chirac e Hollande creio que ficarão os estimados leitores com material qb para animar vários jantares de amigos e naturalmente todos concluírem que a França só se redime elegendo uma mulher.

Nada disto faz sentido, pois não? Entendamo-nos: boa parte do discurso sobre os direitos das mulheres produzido pelos seus alegados libertadores é uma pura treta que apenas serve para manter os ditos libertadores nas suas comissões e gabinetes e justificar ainda mais gabinetes e mais comissões.

Aliás, muito sintomaticamente, o que os ditos libertadores fazem ao primeiro susto é atirar logo pela janela fora os direitos das mulheres. Assim, e numa breve leitura de notícias recentes tendo como protagonistas alguns auto-denominados progressistas, descobre-se que o presidente da Áustria, Alexander Van der Bellen, considerou que algum dia “ainda teremos de pedir a todas as mulheres para cobrirem as suas cabeças de forma a combatermos a islamofobia”.

Podia o senhor Alexander Van der Bellen ter dito que deixava de consumir bebidas alcoólicas ou não mais trincava um daqueles rutilantes assados de carne de porco para combater a islamofobia. Mas não, pareceu-lhe mais simples que as mulheres cobrissem as suas cabeças.

Mas temos mais. Para que os transgender, as pessoas que não sabem de que sexo são e todas as demais variantes mediaticamente possíveis desta circunstâncias não se sintam discriminados nas casas de banho públicas temos agora como sinónimo de progressismo as casas de banho unisexo ou a transformação da casa de banho das mulheres num espaço polivalente a ser frequentado pelas mulheres e por quem assim se sinta. Ambas as possibilidades retiram conforto e segurança às mulheres mas adiante que pode haver pior. Por exemplo, deve ou não usar-se a expressão mutilação genital feminina? Dado o carácter da intervenção é óbvio que estamos diante de uma mutilação e dificilmente se concebe algo de mais grave para as mulheres do que essa prática.

Mas eis que afinal pode não ser bem assim: a descoberta no Minnesota (que convém não esquecer está localizado nos EUA) de uma menina de sete anos que fora vítima de mutilação genital levou as autoridades (dos EUA, repito) a descobrir que uma médica, de seu nome Jumana Nagarwala, praticava mutilações genitais. O caso tem contornos graves não apenas pelo que revelou – algumas notícias referem que Jumana Nagarwala poderá ter começado a fazer mutilações genitais há doze anos – como pela polémica que gerou: o New York Times usou o termo corte genital e não mutilação. Porquê? perguntaram alguns leitores.

A resposta de Celia Dugger, editora de Ciência e Saúde daquele jornal, remete para as diferentes perspectivas que têm perante essa prática os povos que a seguem – habitualmente em África – e os ocidentais que a condenam. Ao usarmos o termo mutilação estamos já a condenar. Ao usarmos corte estamos apenas a descrever o gesto.

O horror a emitir qualquer juízo de valor faz com que vivamos uma fase de verdadeira purga das palavras; na verdade faz tanto sentido não usar a expressão mutilação genital para não chocar as populações provenientes de África quanto não usar o termo homicídio mas sim atravessamento com faca para dar conta das mortes provocadas pelas maras sul-americanas, nomeadamente nos seus rituais de admissão,

Comum às sugestões do presidente da Áustria, dos activistas das casas de banho e da escolha das palavras por parte do New York Times é a ideia de que a tolerância perante os outros implica que temos de abdicar dos nossos valores e que, como de costume, as mulheres podem ser as primeiras porque como todo o bom machista sabe as mulheres raramente fraquejam quando se lhes pede que sejam exemplares.

Quanto à candidatura de Marine le Pen pelo menos deve ter servido para se acabar de vez com a mania da “primeira mulher a”. E já agora a candidatura de Macron serviu para que os jornalistas descobrissem que as mulheres têm menopausa: “menopausal Barbie” chamou, citando um humorista, à mulher de Macron. o mesmo New York Times. Claro que a menopausa existe mas a mutilação genital também.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Habitação e Urbanismo

Nunca falha

Helena Matos
1.042

É ministro e está desinspirado? É líder político e quer mostrar o seu dinamismo?… Proponha qualquer coisa para o sector imobiliário. Resulta sempre. Em mais impostos, em mais votos e em boas notícias.

PCP

A gaveta

Helena Matos
951

É aqui que está o logro em que a geração de Cavaco Silva caiu: a ideologia não fica na gaveta. Muda é de gaveta. O controlo ideológico das nossas vidas é a gaveta que agora está no centro da questão.

Politicamente Correto

O homem unidimensional

Paulo Tunhas

Basta ler aqui e ali alguma prosa que se produz para se perceber que por detrás da encenada sofisticação está a mais fanática regressão à unidimensionalidade do pensamento e à crença mágica primitiva.

Educação

O enjoo do anti-‘politicamente correto’

Gabriel Mithá Ribeiro
238

O uso e abuso do termo ‘eduquês’ – por leviandade, ignorância ou falta de coragem – responsabiliza os críticos por terem deixado escapar uma rara oportunidade histórica de mudar o destino coletivo.

Politicamente Correto

O meu mundo não é deste reino

Maria João Avillez
4.230

Do outro lado da guerra cultural não há voz nem vontade. O comprometimento deixou de ter significado e perdeu poder de convocatória? Não sei, mas a fractura é grande.

Liberdade de Expressão

A geringonça gosta da censura

João Marques de Almeida
2.775

A censura aos livros escolares serviu também para as esquerdas mostrarem que sabem usar o poder com a brutalidade que for necessária. A censura funciona sempre como um aviso para todos. 

Só mais um passo

Ligue-se agora via

Facebook Google

Não publicamos nada no seu perfil sem a sua autorização. Ao registar-se está a aceitar os Termos e Condições e a Política de Privacidade.

E tenha acesso a

  • Comentários - Dê a sua opinião e participe nos debates
  • Alertas - Siga os tópicos, autores e programas que quer acompanhar
  • Guardados - Guarde os artigos para ler mais tarde, sincronizado com a app
  • Histórico - Lista cronológica dos artigos que leu unificada entre app e site