Política

Rescaldo de um verão muito quente

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Uma descoordenação inacreditável entre as entidades responsáveis, dezenas de armas desaparecidas, e tudo não foi mais do que uma série de eventos desafortunados num Verão especialmente quente.

Este verão foi demasiado quente para poder ser considerado um assunto arrumado, agora que se inicia a rentrée política habitual.

No caso do incêndio de Pedrógão Grande, 47 das 64 mortes ocorreram em estradas, e praticamente todas as restantes em habitações. Esta é a essência da questão: as mortes ocorreram em locais considerados seguros, e até como vias de fuga da ameaça que se aproximava. Isto aponta para um problema novo, diferente das circunstâncias habituais dos fogos florestais dos anos anteriores, cujas vítimas, quando as havia, se situavam essencialmente entre os bombeiros.

O que se passou este verão foi a falta de proteção das infraestruturas públicas de circulação. O drama foi não estar assegurada a circulação pelas estradas na região onde grassavam os fogos. O drama foi não estar limpa uma área suficiente de terreno nas laterais das estradas que garantisse que se podia circular em qualquer circunstância. O drama foi a descoordenação dos serviços de proteção civil que levou a GNR a encaminhar pessoas para as estradas da morte.

Para resolver este problema não é preciso uma nova política florestal. É importante e necessário tomar medidas para combater os fogos florestais, mas isso não vai resolver os problemas que enfrentámos este verão. Torna-se também necessário reformar os serviços de proteção civil, criar interligações mais eficazes entre as entidades responsáveis e legislar no sentido de que as estradas tenham uma zona limpa de arvoredo que permita a circulação de veículos em caso de fogo.

Ninguém acredita que, por melhor que sejam os planos de política florestal, se consiga realmente acabar totalmente com os fogos em Portugal. O nosso problema, neste verão de 2017, não foi a defesa da floresta: foi a defesa da população.

O caso de Tancos tem semelhanças. Quem é que se atreve a roubar material militar de um paiol das Forças Armadas? Primeiro é preciso saber onde está, depois conhecer as vulnerabilidades do sistema, em seguida montar uma equipe disposta a dar o golpe e, finalmente, ter um comprador assegurado. E quem reúne estas características? Quem, para além dos próprios militares? De onde resulta que o problema não está no roubo do material bélico, mas na corrupção dentro das Forças Armadas. A chefia intuiu isso ao decidir demitir cinco responsáveis militares: havia um iniludível inside job que justificava perda de confiança. Reforçar a segurança do paiol não ajuda a resolver este problema. Quem roubou já sabia que o roubo ia ser descoberto. Já tinha posto o material a milhas sem deixar qualquer rastro.

Aquilo que se está a passar nas nossas Forças Armadas é alarmante e perigoso: alguém põe em causa a essência da missão das Forças Armadas: de protetor da população passa a ameaça para esta.

Em ambos os casos, Pedrógão e Tancos, o problema central é a proteção das populações, e a solução apresentada pelos responsáveis políticos não foi ao encontro da essência dos problemas. Isto é grave porque não enfrentar os problemas torna inevitável a sua repetição.

Porque será que o governo tem dificuldade em enfrentar o cerne das questões?

A resposta não está só na nossa cultura política cada vez mais gramsciana, onde “aquele que controla as palavras controla a realidade”, privilegiando-se o responder sem pensar, o ativismo sem refletir, o agir só para não ser acusado de inação, e a resposta à argumentação da oposição em detrimento de medidas concretas. Mas o privilegiar do instantâneo, a promoção do soundbite, o navegar em função do mediatismo não são privilégios exclusivos da nossa democracia.

O principal problema, a raiz da questão, o nó górdio desta matéria é a recusa de admitir responsabilidades, atribuindo as culpas a “outros”, fingindo que está tudo sob controlo, mantendo a ilusão (própria e alheia) de que o País está a saber responder. O governo vai subsistindo sem qualquer tipo de autocrítica, não se empenhando, nem em identificar, nem em resolver o cerne dos problemas, mas sobretudo em demonstrar à opinião pública que nada de melhor se poderia ter feito nessas circunstâncias.

Mais de meia centena de mortos, uma descoordenação inacreditável entre as entidades responsáveis, dezenas de armas desaparecidas, e tudo não foi mais do que uma série de eventos desafortunados atribuídos a um Verão especialmente quente.

Obviamente, ninguém se demite. Isso seria admitir que houve um problema.

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