Fogo de Pedrógão Grande

Uma crónica sem aproveitamento algum

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2.055

O aproveitamento político é de facto o nosso maior problema. Falimos várias vezes, morreram dezenas de pessoas num incêndio florestal, mas o que é isso quando comparado com o aproveitamento político?

“Costa lamenta aproveitamento político de mortes em Pedrógão”; “Marcelo contra aproveitamento político das vítimas de Pedrógão”; “Pedrógão Grande: Bloco acusa PSD de aproveitamento político”

De repente o país descobriu que o seu maior problema não é o falhanço da protecção civil. Muito menos o roubo em Tancos de material que começou por ser de guerra, depois passou a material obsoleto e agora é de guerra novamente. Nada disso mas mesmo nada se compara com o transcendente problema do aproveitamento político.
O aproveitamento político é de facto o nosso maior problema. Falimos várias vezes, morreram dezenas de pessoas num incêndio florestal; o SNS gasta consigo mesmo o que devia gastar com os utentes; a polícia é chamada às escolas públicas porque sendo os alunos oficialmente todos iguais uns são mais iguais que os outros; o Governo (de Portugal não o do Qatar) considera que pode estar numa situação de pobreza severa alguém que é proprietário de uma viatura no valor de 25 mil euros e como tal reunir as condições para receber RSI… mas o que é isso quando comparado com o aproveitamento político?

Só por absoluta má fé não se percebe esta evidência. Por exemplo, o que é estar cercado pelo fogo e perceber que os bombeiros não conseguem comunicar entre si porque o SIRESP falhou comparado com o aproveitamento político subjacente a declarar que o SIRESP não funciona? Está bem, não funciona, mas há que falar nisso? De facto só uma alma mal intencionada não percebe que o aproveitamento político é um problema para não dizer um crime face à minudência de o SIRESP não funcionar.

Absolutamente determinada a expurgar os meus textos de qualquer aproveitamento político passei algumas horas a tentar perceber quando e como acontece o aproveitamento político. Dada a complexidade do tema creio até que mais cedo ou mais tarde será criado um Alto Comissariado para o Combate ao Aproveitamento Político que obviamente elaborará um questionário-teste que rapidamente nos dirá se estamos ou não diante de um caso de aproveitamento político.

Esta espécie de teste é urgente porque de modo algum se pode deixar ao arbítrio de cada um decidir nesta matéria. Por exemplo, uma pessoa mal informada sobre a natureza transcendentemdo aproveitamento político, pode fazer um juízo de valor menos abonatório da eurodeputada Marisa Matias. Considera a eurodeputada Marisa Matias que no caso das vítimas de Pedrogão a lista dos mortos não deve ser pública “por respeito às vítimas”. Ora uma pessoa não devidamente esclarecida sobre os meandros do aproveitamento político até podia pensar que a eurodeputada quer é respeito pelo seu sossego pois não é para todos (e todas, como diria a senhora eurodeputada) apoiar um governo que se confronte com tal lista. Para mais a senhora eurodeputada faz campanha (política, claro) por essa Europa fora ao lado do espanhol Pablo Iglesias cujo Podemos transformou a Lei da Memória Histórica numa agência de desenterramentos dos mortos da Guerra Civil. Em que ficamos – perguntará o tal mal informado – os mortos afinal são para ser assinalados ou escondidos? E o que é respeito em Portugal – a omissão – é crime em Espanha? Como se percebe isto do aproveitamento político tem muito que se lhe diga.

A mesma ambivalência por assim dizer geo-política caracteriza o nosso Presidente da República. Por exemplo, o mesmo Marcelo Rebelo de Sousa que agora declara que a prioridade é combater os fogos e que tanto teme o “aproveitamento político das vítimas de Pedrógão”, prontamente declarou em 2005 que a administração Bush se tinha mostrado incapaz de prevenir os efeitos devastadores da passagem do furacão Katrina nos EUA e que as autoridades norte-americanas tinham falhado no apoio às populações. É certo que houve quem fosse mais longe e até acusasse o então presidente dos EUA de ser responsável pelo furação em si mesmo e até por ter congeminado a ruptura dos diques, mas perante tão assombrosa diferença de atitude, cabe perguntar: para Marcelo Rebelo de Sousa onde começa e acaba o aproveitamento político?

O mistério do aproveitamento político dos mortos de Pedrogão é tão mais espantoso quanto as mesmas pessoas que agora consideram ser aproveitamento político querer saber quantos e porquê morreram em Pedrogão, levaram o período entre 2011 e 2015 a denunciar os mortos da austeridade. Eram as pessoas que morriam com fome, os que se suicidavam, os que desistiam de viver… Curiosamente nunca então se colocou a questão do aproveitamento político.

Nestas matérias do aproveitamento político há que contar até cem antes de responder. Caso contrário a melhor intencionada das respostas transforma-se num enredo. Por exemplo, manda a cartilha que manifestemos a nossa preocupação com a forma como o governo da Polónia trata ou gostaria de tratar os juízes polacos. Não há nessa atitude vestígio de aproveitamento político. Curiosamente portas adentro manifestar solidariedade com um juiz que foi e continua a ser ameaçado – o juiz Carlos Alexandre – não só é mal visto como incorre no terrível âmbito do aproveitamento político.

Na verdade nada disto devia surpreender: Portugal é o país em que denunciar e condenar politica e moralmente o primeiro-ministro José Sócrates foi visto como um óbvio caso de aproveitamento político. Portugal é também o país em que se pode condenar a pedofilia se praticada em instituições católicas. Outro caso bem diverso foi quando se descobriu que esses crimes tinham lugar na Casa Pia. O facto de entre os suspeitos se contar também gente dita republicana e laica logo fez surgir o espectro do aproveitamento político.

Em resumo, o aproveitamento político é aquilo que um homem quiser. Ou mais precisamente em Portugal o aproveitamento político é aquilo que certos homens quiserem. Donde resulta que não fazer nada que se aproveite não é defeito mas sim seguro de vida.

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