O funeral do jovem palestiniano assassinado na quarta-feira num aparente ato de vingança de Israel tornou-se caótico durante a tarde e noite de sexta-feira, com centenas de árabes a envolverem-se em confrontos com as autoridades e o caixão que transportava o corpo de Mohammed Abu Khdeir a ter de ser afastado à pressa da procissão para fugir à ofensiva da polícia israelita, que respondeu aos palestinianos desordeiros com gás lacrimogéneo.

“Isto não é maneira de enterrar um mártir”, disse um palestiniano, Samir Abu Saleh, à Al Jazeera, enquanto esperava pelas cerimónias fúnebres à porta da mesquita. “Ele devia ter sido sepultado há dois dias, assim é inaceitável”, disse.

Receios de nova “intifada”

Durante o caminho para o funeral, que já tinha sido adiado em parte devido aos confrontos que se fizeram sentir logo na quarta e quinta-feira, centenas de palestinianos furiosos ecoaram palavras de ordem como”Intifada! Intifada!”, incitando a uma nova revolução contra Israel. As autoridades palestinianas, no entanto, numa tentativa de acalmar as tensões entre os dois lados, já disseram que vão evitar qualquer revolução maior e vão procurar uma solução diplomática para a crise israelo-palestiniana que se reacendeu depois de os três adolescentes terem sido assassinados em Israel, supostamente pelo Hamas.

De acordo com a Reuters, durante o trajeto que ligou a casa da família de Khdeir ao cemitério local, milhares de vozes gritaram “Com as nossas almas e com o nosso sangue vamos redimir-te, mártir” e pediram ao Hamas, o grupo que Israel responsabiliza pelo sequestro dos três adolescentes, que vingasse a morte do jovem. Entretanto foram publicados vários vídeos na internet que dão conta do caos instalado durante a procissão fúnebre.

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O cortejo fúnebre ficou especialmente marcado pelos confrontos acesos com a polícia israelita que estava alinhada na fronteira da cidade. Os manifestantes que faziam o luto ao jovem morto começaram por atirar pedras à polícia, que respondeu com gás lacrimogéneo, granadas atordoantes e balas de borracha, naquele que a Al Jazeera descreve como um dos conflitos mais fervorosos vistos em Jerusalém nos últimos anos.

Mohammed Abu Khdeir foi raptado às portas da sua casa na quarta-feira quando se preparava para ir rezar na mesquita da cidade de Shoafat, e apareceu horas depois numa floresta na zona de Jerusalém Oriental – o corpo totalmente carbonizado. A investigação está em curso mas cresce a tese de que o crime se tratou de um ato de vingança por parte de Israel, que na segunda-feira chorou o rapto e posterior morte de três adolescentes na Cisjordânia e reclamou responsabilidades do grupo islamita do Hamas.

Os confrontos continuaram durante toda a tarde e noite de sexta-feira ao longo da zona ocupada de Jerusalém Oriental, com pelo menos um palestiniano ferido na cidade de Nablus, e alastraram-se também a cidades árabes de Israel.

A maior parte da desordem oconteceu em Shoafat, local onde decorreram as cerimónias e para onde Israel destacou um forte contingente militar, mas estenderam-se a outras localidades dos arredores de Jerusálem e também da Cisjordânia. Em Ramallah, cidade onde se encontra a sede do governo palestiniano na Cisjordânia, jovens palestinianos lançaram pedras e cocktails molotov contra a polícia israelita, que respondeu com gás lacrimogéneo.

Queimado vivo

Até quinta-feira, a data do funeral do jovem palestiniano esteve em dúvida devido aos confrontos e à demora, por parte das autoridades israelitas, em entregar o corpo à família. O cadáver, que foi encontrado “totalmente carbonizado” em Jerusalém Oriental, foi entregue aos pais depois de autopsiado. O relatório preliminar da autópsia, segundo a agência de notícias palestiniana Wafa, deu conta de que o adolescente foi “queimado vivo” e ficou com 90% do corpo carbonizado.

“A causa da morte foram as queimaduras”, confirmou este sábado o procurador-geral palestiniano Mohammed al-A’wewy.