6 de agosto, quarta-feira à tarde. Largo de Camões, em Lisboa. Nicolas Spath está rodeado de turistas que, curiosos, o interrogam sobre a máquina fotográfica de aspeto antiquado — todos parecem querer um retrato a preto e branco, à moda antiga, captado por Nicolas. O colombiano está ali desde as 11h00 da manhã, sujeito ao interesse de quem por ele passa. A muitas pessoas conta, em tom de brincadeira, que a máquina, uma espécie de daguerreótipo (câmara inventada pelo francês Daguerre no século XIX), é herança de família: “Tem 60 anos e era do meu avô que, agora, está lá no céu a olhar para mim enquanto trabalho”. Faz parte do marketing e ninguém leva a mal.

O fotógrafo profissional, licenciado pela Universidade Pontifícia Javeriana, está a viajar pela Europa há cerca de três meses. A aventura começou a 9 de maio e, entretanto, Nicolas já esteve em cidades de países como Itália, França, Holanda, Alemanha, Áustria, República Checa e Espanha. Por terras lusas está há quase uma semana. Antes de Lisboa passou ainda por Lagos e por Faro. Mas a partida acontece já esta quinta-feira à noite: Nicolas vai deixar a capital portuguesa e seguir para Madrid onde, alguns dias depois, vai apanhar o voo de regresso a casa. Sempre com a dita câmara fotográfica atrás.

“Sou fotógrafo quase desde nascença”, conta ao Observador. “Desde os nove anos que faço fotografia. O meu irmão ensinou-me muito, mas também aprendi muito sozinho”. A veia autodidata comprova-se pela mera existência da máquina de pé alto. Ao contrário do que vai contando a alguns turistas, foi ele que a construiu. É uma combinação entre peças antigas (é o caso da caixa que pertence a uma câmara original) e outras mais recentes (como a lente). O processo levou-lhe seis meses e grandes doses de paciência. “Errei muitas vezes, mas foi a coisa mais bonita que já fiz na minha vida”, conta.

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© Hugo Amaral

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A máquina é o seu ganha-pão, não só na viagem em curso, que vai financiando com as fotografias que tira, mas também no dia-a-dia quando está na Colômbia. É dono de si próprio e está no “negócio” há quatro anos. Nicolas tem por hábito fazer uma viagem grande por ano, para a qual vai juntando dinheiro. Já esteve no Peru, no Equador, na Bolívia e no Brasil. E, agora, na Europa. Mas é também dentro das fronteiras do país que o viu nascer que se lança à estrada uma vez por mês. O objetivo? Ir fotografando quem se cruza no seu caminho. “Quero fazer isto para o resto da minha vida”, afirma convicto.

Para Nicolas, isto é mais do que tirar fotografias. Garante estar a dar continuidade a uma arte quase extinta, a da imagem analógica, “uma tradição da qual as pessoas não se deviam esquecer”. O processo que usa está associado aos primórdios da fotografia: o papel onde a imagem é registada é à base de nitrato de prata sensível à luz. Há dois líquidos essenciais, o revelador e o fixador. Tirada a fotografia, Nicolas coloca o negativo no exterior, diante da lente, a qual vai abrindo. Outro papel é colocado dentro da máquina para captar a imagem final. No fim, passa a fotografia por água, para retirar os químicos, e limpa-a com um pano. O processo demora poucos minutos e, nos entretantos, o colombiano vai fazendo conversa — além de castelhano, fala inglês e um português quase cantado.

“Quanto custa?” é a pergunta mais comum. Tanto portugueses como turistas têm a mesma atitude. Param junto dele, ficam a admirar a câmara e as fotografias que, tiradas noutra altura, estão expostas junto à máquina, presas por molas. Só depois perguntam pelo preço. “São sete euros cada foto. E 10 euros para duas”, repete Nicolas ao longo do dia. Até agora (19h00) já tirou 15 fotografias, pelo que perguntamos se o negócio dá para sobreviver. Com um sorriso rasgado explica que “sobrevive-se e vive-se muito bem”.

Marguerita Benassai e Sergio Formica são dois dos turistas que não resistiram à tentação. O casal de italianos está a viajar por Portugal há mais de dez dias — a última escala é feita esta sexta-feira, na Madeira. Sergio também é fotógrafo profissional e aproveita a ocasião para contar a Nicolas que tem um estúdio por terras italianas. Opta ainda por dar um cartão de contacto ao colombiano. Marguerita, por seu turno, deixa escapar a confissão: “Nunca vi uma máquina destas a funcionar!”.

Também o português César pede um retrato. Registada a imagem, Nicolas confessa-lhe: “És o melhor modelo de hoje”. O César da foto está sério, de chapéu na cabeça e óculos sobre o nariz. O César real mostra-se satisfeito e pergunta se Nicolas tem algum site onde se possa consultar o trabalho do colombiano. “De cada vez que faço um retrato pedem-me quase sempre pelo contacto”, explica Nicolas que se limita a dar a sua página de Facebook.

Perguntamos se conhece muitas pessoas nesta demanda errante: “Muitos amigos e muitas namoradas”, diz divertido. E saudades de casa? Nicolas garante que manda um e-mail diário ao pai e, uma vez por semana, fala com ele via Skype. Conta ainda que vem de uma família de artistas. A mãe trabalha com têxteis e aos irmãos cabe o papel de pintor e de antropólogo. “O pai… O pai não é artista, mas tem bom coração”.