O financiamento de 897 milhões de euros concedido pela Portugal Telecom à Rio Forte é qualificado como uma “desastrosa operação” por Otávio Azevedo e Fernando Portella, dois administradores que representavam os interesses brasileiros na operadora de telecomunicações portuguesa e que se demitiram dos cargos a 30 de junho, pouco dias depois de o Expresso ter noticiado o empréstimo. A expressão é usada numa longa nota de esclarecimento, que é publicada na edição desta sexta-feira do semanário, em que Ricardo Salgado é acusado de alegar falsidades.

Os dois gestores fazem uma exposição cronológica dos acontecimentos desde 26 de junho, dia em que o Expresso revelou que a PT, liderada por Henrique Granadeiro, tinha subscrito papel comercial da holding do Grupo Espírito Santo (GES), e voltam a negar ter tido qualquer informação sobre a operação antes de esta se tornar do conhecimento público. “Em nenhum momento, qualquer um dos sócios e administradores da Oi”, empresa brasileira que se encontra em processo de fusão com a PT e que tem como presidente executivo Zeinal Bava, “foram informados ou tiveram conhecimento sobre os investimentos de 897 milhões de euros realizados pela Portugal Telecom SGPS na Rio Forte”, afirmam no documento em causa.

Otávio Azevedo e Fernando Portella revelam, ainda, que apenas obtiveram esclarecimentos sobre o financiamento prestado no dia em que se demitiram, através “do encaminhamento por email de um comunicado” da PT “que seria feito ao mercado no decorrer do próprio dia 30” de junho. Isto depois de já terem exigido esclarecimentos e manifestado “espanto pela não submissão de operação daquela magnitude e relevância ao conselho de administração” da PT SGPS.

No comunicado citado, a PT revelava ter subscrito “através das então subsidiárias PT International Finance BV e PT Portugal SGPS um total de 897 milhões de euros em papel comercial da Rioforte com uma remuneração média anual de 3,6%”. E adiantava: “todas as aplicações de tesouraria em papel comercial da Rioforte atualmente em carteira têm vencimento em 15 e 17 de julho de 2014 (847 e 50 milhões de euros, respetivamente)”. A holding do GES não procedeu ao reembolso dos valores em dívida e, a 22 de julho, pediu a proteção de credores junto das autoridades judiciais do Luxemburgo, onde tem sede.

A 1 de julho, prossegue a nota de esclarecimento, “diante da impossibilidade de conseguir um contacto telefónico, o presidente do conselho de administração da Andrade Gutierrez, Sérgio Andrade (…) enviou um email” para Ricardo Salgado, na altura presidente executivo do Banco Espírito Santo (BES), com o objetivo de dar conhecimento de uma proposta que visava “minimizar”, na fusão entre PT e Oi, “os efeitos da aplicação financeira realizada na Rio Forte” e dar continuidade à operação. A resposta, afirmam os gestores brasileiros, apenas surgiu a 8 de julho. E não satisfez.

Otávio Azevedo e Fernando Portella acusam Ricardo Salgado de alegar, “falsamente”, que os financiamentos da PT à Rio Forte “eram do conhecimento dos sócios brasileiros da Oi e que, supostamente, faziam parte de um acordo de investimentos cruzados” entre a operadora portuguesa, a Oi, o GES e os sócios brasileiros, situação que estes garantiram desconhecer numa resposta enviada no mesmo dia ao ex-líder do BES.

O documento anuncia, também, que a Oi está a contratar uma auditoria contabilística e jurídica “para rever todos os factos que envolvem a aplicação financeira realizada na Rio Forte, assim como outros que possam estar vinculados com a operação em questão”. Apesar da situação, os gestores referem a manutenção do compromisso de da Oi em prosseguir a operação de fusão com a PT e acreditar que o novo memorando de entendimento entre as duas partes, celebrado a 15 de julho, será aprovado durante a assembleia geral de acionistas que decorrerá a 8 de setembro.