A história é antiga e a disputa já vai longa. Foi há mais de dois séculos que o Reino Unido se apropriou de grande parte do friso interno do Partenón – mais de metade da decoração daquele ícone da Grécia antiga – e não mais devolveu. São ao todo 75 metros de friso, de um total de 160, 17 esculturas e 15 painéis, que estão hoje no Museu Britânico e que os vários governos helénicos têm vindo a reclamar. A polémica não é de agora mas ganhou novo argumento quando, em 2009, os gregos construíram um novo museu, numa localização estrategicamente pensada, com uma sala vazia à espera do tão desejado regresso dos mármores.

A história, recuperada esta semana pelo El País, remete para o início do século XIX, entre 1801 e 1805, quando o embaixador britânico no Império Otomano, Thomas Bruce (conde de Elgin), fez uso de uma controversa permissão do Sultão para remover as peças de mármore do templo. A remoção demorou mais de 11 anos a ser dada por terminada e as esculturas foram depois transportadas para o Reino Unido por via marítima – apesar de muitos críticos compararem já na altura o ato do embaixador a um gesto de vandalismo. O objetivo inicial era o de decorar a sua casa (o Conde de Elgin era um conhecido apreciador de antiguidades), mas acabou por vender o espólio ao governo por 35 mil libras. Só depois, em 1816, após uma longa discussão no Parlamento, foi adquirido pelo Museu Britânico, onde permanece até hoje.

Mas não foi certamente por falta de apelos vindos da Grécia. O último esforço chegou este ano, em junho, depois de a embaixadora da Boa Vontade da UNESCO, Marianna Vardinoyiannis, ter lançado uma campanha sob o nome “Devolver (os mármores), Restaurar (o Partenón) e Recomeçar (a história)“, com o intuito de reacender o debate e intensificar esforços para o Londres devolver o espólio à Acrópole. Até porque, diz, “esta não é uma questão que diz só respeito à Grécia. É sobre a humanidade, e significaria o cumprimento do nosso dever com a história e a cultura para conseguir restaurar a unidade de um monumento icónico”.

Mas afinal o Reino Unido deve ou não devolver o espólio ao seu país de origem?

Os argumentos são muitos e pendem para os dois lados. Por um lado, há o argumento grego que diz que “o contexto é tudo” e a coleção, que dizem que deve estar unida para permitir contar a narrativa completa, só faz sentido se estiver alojada no local sobre o qual diz respeito – tal como a Capela Sistina não faria sentido se não estivesse no Vaticano. Daí que tenha sido criada uma sala envidraçada no novo museu a 300 metros da Acrópole, onde o friso e as esculturas de mármore ficariam posicionados precisamente de frente para o templo. Outro argumento é o da unidade, já que o espólio está espalhado, não só pelo Museu de Londres como também no Louvre, em Paris, e no Museu Nacional de Copenhaga, na Dinamarca.

Por outro lado, como defende o diretor do Museu do Prado, Miguel Zugaza, “os mármores de Elgin estão consolidados no seio de uma das coleções mais extraordinárias do planeta e mais necessárias nos dias de hoje para entender o mundo com uma perspetiva histórica completa”, e por isso estão bem entregues ao Museu Britânico. Segundo o diretor do museu de Madrid, “há um grande consenso entre os museus europeus sobre a resposta a dar a este tipo de reclamações”.

O certo é que é um tema complexo, que envolve muitos interesses não só culturais como económicos. “Do ponto de vista humano e lógico é justo que se devolvam ao lugar de onde foram retiradas, sobretudo porque existe já um museu na Acrópole desenhado para esse efeito”, diz ao El País o pintor Juan Uslé, que acrescenta que só se a UNESCO “contribuir de forma decisiva para estabelecer as diretrizes e os processos exatos nesse sentido” se sairá deste impasse secular.