“Ficaria com o coração partido se esta família de nações se separasse”, disse David Cameron aos escoceses esta quarta-feira. O primeiro-ministro britânico apelou àqueles que no dia 18 de setembro vão votar no referendo da independência para que não usem o voto para castigar os conservadores. De forma irónica, Cameron tentou explicar aos escoceses que as consequências de um voto positivo são mais sérias do que um “murro” ao Partido Conservador [A expressão exata foi esta: “if you’re fed up with the effing Tories, give them a kick”]. A urgência e o tom emotivo do discurso do primeiro-ministro britânico são bem visíveis. “Esta não é uma decisão sobre os próximos cinco anos, mas sobre o próximo século”, disse.

Mas no meio desta defesa apaixonada do Reino Unido (o Guardian escreve que Cameron ficou “à beira das lágrimas”), o primeiro-ministro conservador deixou um aviso à Escócia: se os escoceses votarem a favor da separação, estão a votar também pela “separação das instituições que criámos juntos”. As ameaças de Cameron foram reforçadas pelo aviso da Standard Life, uma empresa de seguros que é um dos pilares da indústria financeira escocesa, de que tiraria as pensões e investimentos dos seus clientes da Escócia caso o referendo dê uma vitória ao “Sim”. Esta quarta-feira também o diretor executivo da BP, Bob Dudley, apelou aos escoceses para votarem contra a independência, defendendo que o petróleo estará mais protegido se continuar dentro do Reino Unido.

O Wall Street Journal escrevia na terça-feira sobre o nervosismo que o avanço do “Sim” nas sondagens está a provocar junto das indústrias de defesa, energia e de serviços financeiros no Reino Unido. Muitas delas viram as suas ações cair nos últimos dias. O mesmo jornal avançava ainda que setores como o whisky, o tabaco, as farmacêuticas e o turismo poderiam sair beneficiados, uma vez que a desvalorização da libra pode ajudar as exportações. Isto admitindo que os escoceses manteriam a libra, tal como propõe a campanha separatista.

“Se a Escócia se separar do Reino Unido e continuar a usar uma moeda que não lhe pertence, as instituições financeiras podem deixar o país e deixá-lo sem dinheiro”, disse David Cameron.

 

Cameron já disse que caso a união se dissolva os principais partidos do Reino Unido não iriam concordar com a formação de uma união monetária com a Escócia. E quanto ao plano de Alex Salmond de continuar a usar a libra mesmo sem o consentimento de Londres? “A resposta rápida é esta: se a Escócia se separar do Reino Unido e continuar a usar uma moeda que não lhe pertence, as instituições financeiras podem deixar o país e deixá-lo sem dinheiro”, disse Cameron.

O Guardian escreve esta quarta-feira que os empréstimos bancários também podem ser afetados se o “Sim” vencer no dia 18. Segundo o jornal britânico, os principais credores estão a preparar-se para impor limites ao crédito por recearem a incerteza em torno da moeda usada por uma Escócia independente.

O antigo primeiro-ministro britânico John Major receia que a independência escocesa ponha em risco o lugar permanente do Reino Unido no Conselho de Segurança da ONU e pensa que o “Sim” escocês poderia incentivar o movimento independentista no País de Gales.

“A melhor forma de alcançar os vossos valores é se ficarmos todos juntos, não separando-nos. Não escolham uma separação irreversível”, afirmou Ed Miliband.

O líder trabalhista Ed Miliband também fez um discurso emotivo em que tentou convencer os escoceses de que os seus valores são mais facilmente defendidos dentro da união: “A melhor forma de alcançar os vossos valores é se ficarmos todos juntos, não separando-nos. Não escolham uma separação irreversível; escolham pela união com base nesses valores. Solidariedade, justiça social. Juntos, não isolados. Com a cabeça, com o coração, com a alma – votem não neste referendo e vamos mudar o Reino Unido juntos”.

A ofensiva que levou os líderes dos três principais partidos britânicos à Escócia foi desvalorizada pelo líder dos separatistas escoceses, Alex Salmond, que declarou o triunfo da “Equipa Escócia” sobre a “Equipa Westminster”. “Se o grupo de Westminster se lança na campanha, é porque está em vias de entrar em pânico”, comentou Salmond. Na terça-feira, o Palácio de Buckingham afastou a hipótese de a rainha Isabel II interferir na campanha, tal como tinha sido sugerido por alguns deputados britânicos, e insistiu que o referendo “é uma questão do povo escocês”. Alex Salmond tinha dito que a rainha “ficaria orgulhosa” de ser a monarca de uma Escócia independente.

O papel que Cameron está a desempenhar nestes últimos dias parece revelar a pressão a que está sujeito. Vários meios de comunicação afirmam que o chefe do governo de Londres pode ser forçado a demitir-se caso não consiga impedir a Escócia de abandonar o Reino Unido. O discurso do líder dos Tories esta quarta-feira tentou mostrar aos escoceses que Cameron coloca o Reino Unido à frente dos interesses do seu partido. Mesmo que a saída da Escócia permitisse uma maioria conservadora em Westminster. “Às vezes as pessoas perguntam-me: porque é tão importante para ti? A tua vida não seria mais fácil, não seria mais fácil para ti conseguires uma maioria se a Escócia se separasse do Reino Unido?”, disse Cameron, respondendo logo de seguida. “Importo-me muito mais com o meu país do que com o meu partido. Preocupo-me imensamente com este extraordinário país, este Reino Unido que construímos juntos”.