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“Uma queimadura é uma verdadeira catástrofe numa família”. As palavras têm uma carga fortíssima. Quem as profere é Celso Cruzeiro, Presidente da Associação Amigos dos Queimados. A instituição tenta minimizar as consequências destes acidentes. E, por sua vez, “há muitos acidentes que podiam ser evitados”…

O fogo ou o Sol são os mais mediáticos, mas há outros tipos de queimaduras. António Oliveira tem 63 anos. Em 2000, “o ciclo da vida quebrou”. Foi eletrocutado com uma corrente de 15 000 volts e esteve três dias em coma. Passou um mês e meio na unidade de queimados do Hospital da Universidade de Coimbra (HUC). Em relação a esse período, é categórico: “As pessoas da associação foram inexcedíveis”. Da Associação Amigos dos Queimados ou da unidade de queimados dos HUC? “Falar numa coisa é falar na outra”, responde.

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A associação organiza campos de férias

 

A Associação surgiu em 1995. A qualidade de internamento, o apoio psicológico, a realização de colóquios sobre o tema e a ajuda na reinserção social são algumas das áreas em que intervém. Foi criada por enfermeiros e médicos mas, progressivamente, começou a integrar pessoas que sofreram queimaduras. António Oliveira é sócio e colaborador pontual da associação. É orador em palestras onde contribui com os conhecimentos e a experiência vivida no acidente. E, para ele, “acaba por ser um desabafo”.

O líder da Associação Amigos dos Queimados é também cirurgião plástico. Em termos domésticos, Celso Cruzeiro garante que “muitos incêndios acontecem em habitações de pessoas com condições económicas mais baixas, sem o mínimo de prevenção”. E enquadra isso num contexto social preocupante, mas taxativo: “É a realidade dura na periferia das nossas cidades e no interior”.

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Por sua vez, o verão costuma trazer o flagelo dos incêndios florestais. O médico de Coimbra não analisa a prevenção, mas a necessidade de minimizar as suas consequências. “Após anos de promessas dos sucessivos governos, os bombeiros continuam a estar mal equipados”, assegura. Uma das iniciativas da Associação é o campo de férias anual de crianças e adolescentes. Um oásis sem discriminação, olhares de pena, perguntas incómodas ou gozos desumanos. “Quando estes meninos estão reunidos, ninguém é queimado”, garante António Oliveira. Uma das crianças que participou em diversas edições foi Carina Duarte, hoje com 21 anos.

Carina sofreu queimaduras graves quando tinha seis anos. Afetaram 45% do corpo: tronco, membros superiores e parte da cara. Os dias do campo de férias são muito especiais na vida destes meninos: “Naquela semana é como se vivêssemos num mundo à parte. Sentimo-nos todos iguais”. Depois de anos como participante, Carina é hoje monitora voluntária nos campos de férias. A explicação é óbvia: “Da mesma forma que fui ajudada, quero agora ajudar os outros”. E salienta a importância de quem passou por situações idênticas na superação dos dramas psicológicos. “Quando eles me falam que lhes custa sair à rua, que não querem ir à praia, se calhar é mais fácil para mim ajudá-los a vencer esses medos”, exemplifica.

Em termos financeiros, a associação está, segundo Celso Cruzeiro, “sempre aflita”. Vai vivendo do contributo dos sócios, de alguns apoios pontuais ou de certas iniciativas solidárias, como a receita do recente concerto de Sérgio Godinho em Coimbra. E, com esses fundos, vai tentando cumprir as principais missões para as quais foi criada.

Uma das dimensões em que a associação pretende ter mais intervenção é em termos psicológicos. Não só no apoio às vítimas, mas também às respetivas famílias. Como queimaduras graves estão sujeitas a tratamentos pesados e internamentos prolongados e deixam sequelas para toda a vida, o presidente da instituição considera que provocam “uma desestabilização total na orgânica familiar”. E, assim sendo, esse acompanhamento é fundamental. “Qualquer coisa que nós precisemos, eles estão lá a 100% para nos ajudar”, garante Carina Duarte.

António Oliveira reconhece o apoio conjunto da família e da associação como fundamental para a recuperação. Em resultado do acidente que sofreu, foram-lhe amputadas as duas mãos. Colocou duas próteses, mas o processo foi traumático. “A visão levava o sentimento ao cérebro e este rejeitava-as”, explica.

Hoje, António conduz um carro com mudanças automáticas e consegue escrever no computador. Conquistas impossíveis sem as próteses: “Sem elas não conseguiria fazer quase nada”. Reaprendeu a viver com as limitações inerentes às queimaduras que sofreu e experienciou o contacto com outros queimados, nomeadamente crianças. E, sem vitimizações nem egoísmos, há um desabafo que lhe sai de forma sentida, mas pragmática: “Há sempre alguém com pior aspecto do que nós próprios”.