Nas europeias, Marinho e Pinto, então candidato pelo MPT, conseguiu 7,72% dos votos – fazendo com que o partido elegesse dois eurodeputados para o Parlamento Europeu. Cinco meses depois e em rutura com o MPT, Marinho e Pinto lança este domingo o seu próprio partido chamado Partido Democrático Republicano. Apesar das afirmações coloridas do antigo bastonário da Ordem dos Advogados, a declaração de princípios do partido conhecida esta semana apenas traz uma novidade em termos de medidas a tomar no futuro: permitir a candidatura de listas independentes ao Parlamento.

Sempre com afirmações polémicas, a declaração de princípio do Partido Democrático Republicano (PDR) empalidece perante as declarações que Marinho e Pinto tem feito ao longo dos últimos meses. Este projeto de partido, que vai reunir alguns apoiantes pela primeira vez neste domingo em Coimbra e que vai agregar alguns descontentes de outras forças políticas como o ex-socialista Eurico Figueiredo e Fernando Condesso, antigo líder da bancada parlamentar do PSD, diz fundar-se “na base da dignidade humana, da liberdade, da igualdade, da justiça e da solidariedade”, assim como numa “democracia representativa e parlamentar, baseada em eleições livres e justas”.

Mas tem correspondência com o que Marinho e Pinto tem dito nas várias entrevistas desde que entrou na política?

  • Corrupção

A declaração aponta que o PDR vai defender “o estrito controlo das finanças partidárias, a luta efetiva contra a corrupção e o tráfico de influências e em geral contra todas as formas de enriquecimento à custa do interesse público”. Este é um dos temas em que Marinho e Pinto mais se tem centrado, até como bastonário. Defendeu que os tribunais arbitrais são uma “gigantesca farsa” e servem apenas para “legitimar verdadeiros actos de corrupção”. Já na política, defendeu em 2010 na Assembleia da República que “o património dos políticos não deve ter a mesma protecção de privacidade que tem o património de um cidadão comum”, e que até lá só havia “muito espetáculo” e que “era preciso uma responsabilização política”.

Agora, diz que um dos objetivos do PDR ser fazer com que o Parlamento “não seja um centro de corrupção”. Em tempos, Marinho defendeu mesmo a criação de um crime de “corrupção informativa”. Ele, que já foi jornalista, defendeu que os “comportamentos ativos e passivos que atentem contra a verdade jornalística” deveriam ser punidos. Na sua mais recente entrevista à Rádio Renascença, quando fala sobre a remuneração de 4.800 euros de um deputado ser insuficiente para viver em Lisboa, Marinho acrescenta “muitos políticos encontram formas, por vezes ilícitas, de suprirem essa deficiência”.

  • Sistema político

O PDR diz acreditar na “democracia representativa e parlamentar, baseada em eleições livres e justas”. Publicamente, Marinho e Pinto já se mostrou contra a redução do número de deputados, mas pretende apoiar a reforma do sistema eleitoral introduzindo círculos uninominais e fazendo com que seja possível a listas constituídas por independentes concorrerem nas legislativas. Se o seu novo partido está à esquerda ou à direita, Marinho e Pinto, não adianta, dizendo à Visão que aceita coligações com PS, PSD e PCP: “Aceito coligações com o PS, o PSD ou o PCP, que são as três principais forças políticas da democracia portuguesa”. Mas mais recentemente já disse à TSF que estava disposto a tudo para chegar ao governo. “Serei capaz de fazer alianças com o diabo se isso for útil ao povo português. Não há dogmas”, disse.

  • Figuras da política portuguesa

Embora defenda coligações, Marinho e Pinto tem criticado fortemente os seus oponentes políticos. Esta semana sobre António Costa, disse que atua como “um eucalipto” que seca tudo à sua volta, afirmando que, mesmo assim, António José Seguro “dava mais garantias de honestidade política do que os atuais dirigentes do PS, porque Costa vai ter de pagar um preço muito caro pelo exército de clientes que tinha à sua volta”. Sobre a direita, as palavras não foram mais simpáticas: “A direita portuguesa guarda os seus princípios no mesmo bolso onde guarda o seu dinheiro”. Em 2012, Marinho e Pinto pediu mesmo que Cavaco Silva tomasse medidas de exceção face à governação social-democrata. “Como patriota que sou, espero que o Conselho de Estado aconselhe o Presidente da República a tomar uma decisão patriótica, nomear um governo de salvação nacional, um governo liderado pelo PSD, mas integrando o Partido Socialista”, sugeriu então.

  • Europa

Sobre a integração europeia, o PDR defende que esta se deve fazer “como factor de paz, de liberdade e de prosperidade compartilhada, na base dos princípios da igualdade dos Estados-membros, da legitimidade democrática e da transparência das instituições europeias”. Já Marinho e Pinto, que conta com uma experiência de quatro meses no Parlamento Europeu, diz-se desiludido com papel de eurodeputado, ainda que não venha abdicar do mandato caso não consiga ser eleito para a Assembleia da República.

“Verifiquei uma coisa que não sabia antes: o Parlamento Europeu não tem utilidade. É um faz-de-conta. Não manda nada, apesar de todas as ilusões, todas as proclamações, que são mentiras”, disse ao Económico a meio de agosto. Ao DN, também em agosto, Marinho garantiu que sairia do Parlamento menos europeísta do que quando entrou. “O elemento agregador da Europa não está nos ideais, nem nas políticas, mas no dinheiro”, dizendo ainda que não acredita “numa organização toda construída em torno desse dinheiro”.