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O domínio parecia descontrolado. Traidor até. Escolhera o pé esquerdo para calçar uma pantufa na bola, mas ela tocou-lhe no calcanhar. Por isso, fugiu-lhe. Só um pouco. Foi para trás de si e obrigou-o a, num segundo, rodopiar e ir à caça do tesouro. Cena confusa. Tanto que o contrário que mais perto estava, Tiago, escorregou com tanta volta. Caiu. E abriu uma auto-estrada. A tal onde Nani entrou, acelerou, meteu a quinta, ignorou duas portagens (adversários) e só abrandou quando avistou a única saída possível: o golo.

Aí colocou o pisca para a direita, armou o pé atrás e cá vai disto. A bola, que sai rápida, não descola da relva. Dá golo. E com direito a carro capotado, aos saltos e às carambolas na estrada. Não era um acidente — era Nani aos saltos mortais no Estádio do Bessa. Os primeiros que dava na liga, com o Sporting, como futebolista, como craque. Há oito anos, em 2006, marcava o primeiro golo pelos leões.  Dezanove anos, magrinho, novato e já a decidir.

Depois saiu, voou para Manchester, foi diabo durante uns tempos, brilhou, deixou de brilhar e emprestou-se à casa de partida. Voltou. E decidiu. Muito, mais ainda. E voltou ao Bessa. Ao mesmo estádio e a uma relva diferente, sem nada de natural e com tudo de artificial. Foi ele, aos 17’, que já perto da área do Boavista passou a bola a Fredy Montero, de novo armado em número 10, que rematou contra Mamadou Ba, o guarda-redes. Perigo, um pouco dele, houve aqui. Antes, nada. O Sporting tinha a bola, aproximava-se bastante da área boavisteira, mas rematar à baliza parecia mentira.

De uma maneira ou de outra, a defesa axadrezada metia-se no caminho. Chutava, cortava e intercetava. Os jogadores estavam juntos, próximos uns dos outros, e só permitiam veleidades longe da área. De resto, aguardavam. Esperava pelo erro leonino e, mesmo se ele não aparecesse, o Boavista estava formato para, numa jogada, o terceiro ou quarto passe servir para atirar a bola para Uchebo. O gigantão avançado, nigeriano, que lá na frente, logo no primeiro minuto, até assustou Rui Patrício — que riscava a casa dos 300 no calendário do número de jogos no campeonato.

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Ele que teve olho. E percebeu cedo que William, por desgostar da relva sintético, por estar distraído ou por ser traído pela confiança, falhava muitos passes no centro do campo. E Uchebo era quem apanhava muitos deles. Mas, mesmo assim, o Boavista não rematava à baliza. Não conseguia. Nem Adrien Silva, que aos 26’ correu até à área para Mané lhe entregar a bola rasteira e o médio rematar ao lado do poste esquerdo. Depois, a tragédia. O azar que, no Bessa, nunca tocara em Nani. Agarra-se à coxa e pede para sair. Lesiona-se e, aos 33’, diz adeus ao jogo.

E André Carrillo, la culebra, a cobra peruana, dizia olá. Três minutos depois era a bola quem cumprimentava o poste esquerdo da baliza do Boavista, quando Miguel Lopes, ladrão da lateral direita onde costuma estar Cédric Soares, a cruzou para a cabeça de Slimani a rematar. E pronto. Intervalo. A partida pouco dava em troca a quem a via. Até que as coisas mudaram.

Azar ou não, Nani teve mão nisso. Afinal foi ele que, o craque, o extremo que marca e dá golos aos outros, que saiu de campo para Carrillo ter espaço e entrar. E foi por isso que, aos 54’, havia um peruano a correr, à direita, quando o Sporting recuperou uma bola e William teve que ligar o modo contra-ataque: passou-a ao extremo, que com ela arrancou, sprintou e, mal entrou na área, disparou. Deu golo. O 1-0 e o quarto que Carrillo marcava na liga.

Havia festa. Mas duraria pouco tempo, pois, de rajada, teve de dar lugar a outra. Dois minutos volvidos, outra bola vai parar a Carrillo, na direita. Esta era mais calma. Havia muitos adversários por perto. E o peruano decidiu pedalar: passou uma, duas, três vezes as pernas por cima da bola, antes de fintar dois homens, entrar na área e passar a bola a Carlos Mané — que, ainda com mais calma, rematou a bola rasteira e fê-la passar entre as pernas de Ba. 2-0, de rompante, e jogo a tombar para o lado dos leões.

A quem vestia de xadrez não faltava vontade. Corria-se muito, lutava-se mais e batalhava-se por cada bola. Mas jogadas, com vários toques e passes, era coisa rara. Só um canto, aos 63’, deu a Idris a hipótese de cabecear uma bola que Rui Patrício defendeu. O resto era verde e branco. O Sporting, mais tranquilo, sem Slimani e com João Mário, reclamava mais companhia da bola e trocava-a mais vezes. Montero ficara em campo para ajudar nisto e, aos 74’, serviu João Mário para este rematar ao lado. Falhou.

Mas aos 81’ acertou. Em cheio. E depois de Carrillo, só ele, ziguezaguear outra vez por entre adversários e servir a bola a outrém. De novo, deu em golo. No 3-0 e no segundo de João Mário no campeonato. Agora sim, jogo feito. Nada mais? Não, porque tempo houve ainda para Jonathan Silva imitar Jefferson, com quem batalha pelo lugar na lateral esquerda, e também ele colocar a bola dentro da baliza de Rui Patrício, aos 87’ — o brasileiro fê-lo em Alvalade, contra o Schalke 04, na Champions. E vão cinco auto-golos para o Sporting esta época.

Fim. Era quarta vitória consecutiva dos leões e a transformação do Boavista na baliza menos protegida do campeonato: 25 golos sofridos. O Sporting soma 23 pontos, salta para o quarto posto, cola-se ao Vitória de Guimarães (25 pontos) e fica à espera que tanto este como o vizinho minhoto (Sporting de Braga) percam pontos este fim de semana. E, já agora, que Nani repouse e recupere, pois na terça-feira há Liga dos Campeões por jogar em Londres, frente ao Chelsea de José Mourinho. E aí, com ou sem cobra, o português será sempre preciso.