Ricardo Salgado não consultou os franceses do Crédit Agricole, segundo maior acionista do BES, enquanto planeava o plano de sucessão, que passava pela promoção do administrador financeiro, Amílcar Morais Pires, a presidente-executivo do banco. O Observador sabe que um dos principais administradores do grupo francês contactou o Banco de Portugal em finais de junho, mostrando desconforto por ter sido colocado de parte nos planos de sucessão a Ricardo Salgado e na criação do novo órgão estatutário, o Conselho Estratégico.

O desconforto foi motivo suficiente para que o governador, Carlos Costa, escrevesse a Ricardo Salgado, pedindo não só um amplo e sólido consenso acionista, mas também uma solução que não tivesse problemas de idoneidade. Isto no meio de um processo tenso, no qual o presidente executivo do BES (então de saída) pressionava o Banco de Portugal a dar aval rapidamente aos nomes propostos – tema que foi marcante na audição de hoje no Parlamento a Salgado.

Segundo os dados a que o Observador teve acesso, o Crédit Agricole, que reduziu a posição no BES com o aumento de capital realizado em junho, mas que continuou a ser acionista de referência do banco, foi mantido à margem dos planos de Ricardo Salgado para a reestruturação dos órgãos sociais do grupo. Foi Xavier Musca, presidente-adjunto do Crédit Agricole, quem contactou o Banco de Portugal e o governador Carlos Costa, a 24 de junho, para transmitir que Salgado – na qualidade de líder da Espírito Santo Financial Group (ESFG), principal acionista do BES – não estava a envolver os franceses na definição desses planos.

Este contacto surgiu em antecipação à convocatória por parte da ESFG de uma assembleia-geral de acionistas para 31 de julho, que iria discutir as alterações na estrutura do banco e as alterações dos titulares dos cargos, nomeadamente o de presidente-executivo do banco. Na sequência, o Banco de Portugal instou Salgado a procurar uma solução que garantisse uma representação adequada dos diferentes acionistas de referência, na proporção da sua posição no capital.

Nesta altura, eram frias as relações entre Ricardo Salgado e o Crédit Agricole, liderado por Jean-Paul Chifflet e Xavier Musca. Em entrevista ao Jornal de Negócios, a 21 de maio, Ricardo Salgado já indicava que o Crédit Agricole iria vender direitos no aumento de capital, o que levaria a uma diluição da posição acionista. Ao jornal, Salgado pedia aos jornalistas que o entrevistaram para questionarem o Crédit Agricole sobre o que pretendiam fazer e porquê. Os franceses “pretendem continuar no capital, com uma posição mais reduzida, mas vai ter de falar com eles”, dizia Salgado.

De todo o modo, o presidente do BES (à altura) salientava que “temos de perceber que manter, do ponto de vista estratégico no longo prazo, participações desta dimensão requer um esforço colossal em termos financeiros”. Ricardo Salgado dizia que “estamos muito gratos ao Crédit Agricole”, salientando, contudo, que “o banco foi muito rentável até 2011, e o Crédit Agricole também pôde beneficiar da alta rentabilidade do banco”. “As circunstâncias da vida alteram-se e nada é eterno”, rematou Salgado.

Já depois do colapso do BES, o jornal i noticiou que o banco francês ameaçou processar Ricardo Salgado em janeiro (de 2014). Isto porque Salgado tinha ido a Paris propor dividir uma imparidade de mil milhões entre o BES e a “holding” do ramo financeiro. Nessa altura, responsáveis do Crédit Agricole vieram a Lisboa e visitaram o Banco de Portugal, ameaçando Salgado com um processo judicial caso tivessem um prejuízo por causa de dívidas do Grupo Espírito Santo.