Há cerca de cinco anos, Manuel Bragança, de 63 anos, tomou uma decisão: ir viver para o paraíso. Para trás, ficou Portugal. A vida que tinha construído na Nazaré, a família, a comida de que tem tantas saudades.

Nunca se arrependeu. Não houve indecisões, hesitações de última hora. “Quando a crise começou a mexer no país, disse à minha mulher: ‘é tempo de nos pirarmos daqui'”, contou ao Observador. E assim foi.

A escolha recaiu sobre a Costa Rica, mas não foi por acaso. Quando trabalhava como diretor no Jardim Zoológico de Lisboa, Manuel fez uma visita ao zoo de Colónia, na Alemanha. “Tinha lá ido fazer umas coisas relacionadas com a área comercial, mas aproveitei e trouxe também uns animais”, explicou.

Foi aí que conheceu um “indivíduo responsável pelos insetos” que, sem saber, acabaria por mudar radicalmente a sua vida. “Disse-lhe ‘então você agora tem de vir visitar o Jardim Zoológico de Lisboa’. E ele disse-me ‘não Manel, agora vou reformar-me e vou viver para o paraíso“. Manuel não resistiu. “Onde é que fica o paraíso?”, perguntou sem hesitar. “Ele disse-me que era a Costa Rica e eu fiquei com esta história no ouvido”.

Quando quis sair de Portugal, soube para onde ir. “Quando andava à procura de um sítio para investir e para me ir embora de Portugal, encontrei isto na Costa Rica”. “Isto” foi um resort abandonado a cerca de 20 quilómetros de Quepos, uma cidade na província de Puntarenas.

Ao fim de três emails, o negócio estava feito. “O dono disse-me que não estava interessado em falar comigo por email e que, se quisesse comprar o resort, que viesse cá à Costa Rica”. Manuel fez as malas, disse à mulher que ia à Costa Rica comprar um hotel e meteu-se num avião. “Estive aqui quinze dias e comprei-lhe o hotel”.

“Sempre fui diretor hoteleiro. Dirigi hotéis em Portugal, em África e no Brasil”, explicou. “Isto estava abandonado quando vim para cá. Recuperei-o e vim para cá há três anos. É um projeto muito bonito”.

Há três anos na Costa Rica, Manuel admite ter uma “vida muito calma”. Acorda todos os dias por volta das sete da manhã até porque, mesmo que quisesse, não conseguia dormir mais. “Acordo de manhã com os passarinhos a fazer barulho. Há muitos pássaros na Costa Rica”. Sai de casa e dirige-se para o hotel, o La Palapa Resort. Pelo caminho, vê as borboletas, as montanhas. “Isto aqui é lindíssimo”, elogiou.

Depois do pequeno-almoço, mete-se no carro e vai até Quepos, a cidade mais próxima, para fazer as compras do dia. “Para comprar um ovo tenho de fazer 23 quilómetros”, explicou. “Todos os dias tenho de lá ir. Se não é para depositar dinheiro, é para tratar de outros assuntos”.

Admite ter uma vida “muito presa”, até porque um “hotel prende muito uma pessoa”. Mas não poupou elogios ao país. “É um país que tem um clima fantástico. É quente o ano inteiro. Há coqueiros por todo o lado, boa fruta e é muito pacífico. Há praias de perder de vista — paradisíacas — e muitos pássaros. A Costa Rica é cheia de vida selvagem”.

Cerca de 25% do território está coberto com florestas, parques naturais e zonas protegidas. O resort de Manuel fica perto de um dos muitos parques naturais costa-riquenhos, o Parque Nacional Manuel Antonio. “Tenho 50 hectares de floresta tropical no meu terreno. Tenho um projeto para proteger e preservar a vida selvagem. O que faço aqui, faço com gosto”.

O país mais feliz do mundo

Em 2014, a Costa Rica foi considerada o país mais feliz do mundo pelo Happy Planet Index (HPI). Mas esta não foi a primeira vez. Num país onde, há 66 anos, foi abolido o exército, a felicidade parece fazer parte da maneira de ser dos costa-riquenhos.

Mas Manuel Bragança não parece estar muito convencido. “Até posso aceitar que digam que a Costa Rica é um país onde as pessoas são mais felizes, mas eu tenho um conceito sobre a felicidade”. Para ele, não existe uma felicidade constante. Existem momentos. “Não há ninguém permanentemente feliz”, admitiu.

Na Costa Rica, diz existir “um conceito de vida diferente”. “Viver aqui é uma maneira totalmente diferente de ver as coisas. É uma cultura muito diferente da nossa. São indivíduos que não gostam do confronto, que não são capazes de discutir. Têm uma cultura muito deles”. E isso nota-se na forma como se cumprimentam. “Não se diz bom dia, boa tarde ou boa noite. Diz-se pura vida“.

Apesar disso, Manuel diz que quer regressar. “Eu não vou morrer na Costa Rica”, disse. “As minhas cinzas são para Portugal”. Admite ter muitas saudades, “de um bom cozido à portuguesa, do bacalhau”. “Tenho ali o meu bacalhau no congelador, onde é altamente proibido alguém mexer!”.

Em junho, vai visitar Portugal pela primeira vez em dois anos. “Vou agora em junho e vou ficar aí três meses, e depois regresso”. “Portugal é o meu país, o país que mais amo”. E quanto mais tempo passa na Costa Rica, o país mais feliz do mundo, mais se apercebe disso.