Hung Tran, diretor executivo do Institute of International Finance (IFF), avisou que uma saída da Grécia da zona euro teria implicações mais profundas do que aquelas que estão a ser antecipadas pelos mercados. Tran, que participou nas negociações que levaram, em 2012, a uma reestruturação da dívida pública grega que estava na posse de investidores privados, referiu ao jornal britânico Telegraph que aquele cenário iria atirar a zona euro para o caos e colocar em causa “toda a coesão da aliança ocidental”.

Os bancos reduziram a exposição à Grécia e a economia do país representa apenas 2% do produto interno bruto (PIB) da região da moeda única, mas os investidores estão a ser demasiado complacentes na avaliação das implicações de um Grexit, afirmou Hung Tran, que, a verificar-se, terá ramificações políticas de longo alcance e aumentará a polarização entre os países que constituem o “núcleo duro” do euro e as nações periféricas. O responsável do IFF declarou-se otimista quanto à existência de “margem para um compromisso de última hora” entre os credores internacionais e Atenas, mas alertou que se a Grécia for forçada a abandonar o euro as consequências serão complexas e não estão a ser “completamente entendidas”.

No curto prazo, prosseguiu Hung Tran, é provável que o contágio de uma subida das taxas de juro para países periféricos como Portugal ou Espanha fosse mais limitada do aquilo que sucederia em 2010 ou em 2012. No entanto, acrescentou, haveria efeitos a prazo sobre as expectativas dos mercados pelo facto de ficarem a saber que o euro, afinal, era um projeto reversível. “A questão natural seria: quem será o seguinte?”, referiu Tran.

O diretor do IFF colocou ainda outras dúvidas em cima da mesa. “Se uma saída da Grécia da zona euro colocaria sob tensão a relação do país com a União Europeia, também se levantariam questões sobre o alinhamento do país em termos de política externa e segurança”. Tran adiantou que o atual programa de injeção de liquidez na economia protagonizado pelo Banco Central Europeu (BCE), que “vale” 60 mil milhões de euros por mês, tem criado um falso sentimento de segurança que se sobrepõe a qualquer sentido dos perigos que a crise grega representa.

“Tem havido uma polarização aguda à esquerda e à direita, sob o argumento de que a austeridade não funcionou. Por isto, o fracasso num entendimento com a Grécia e a sequente saída da zona euro faria este debate ficar ainda mais extremado e mais problemático”, avisou, ainda, Hung Tran. Para este especialista, a esperança é a de que haja um compromisso “prático e sensível” entre o Eurogrupo e Atenas que, por um lado, amarre o país à “concretização de reformas que reanimem o crescimento”, e, por outro lado, que proporcione “um calendário de ajustamento que não seja demasiado apertado”.

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