Mário entretem-se a fazer o que faz sempre. Mexe no cabelo, dá umas tesouradas ali, outras acolá, e recorta tudo ao gosto do cliente. Mas já que tem o homem ali sentado, e Mário tem à vontade de sobra e ainda sente a memória fresca, atreve-se a perguntar: “Ó Jorge, então o que é que aquele gajo foi fazer?” A resposta que espera não é igual à que recebe e, em vez de um desabafo, ouve uma defesa. “O Cardozo também falhou penáltis e chegámos a perder muitos pontos por causa dele. Só falha quem está lá dentro”, diz o Jorge que está ali sentado, mesmo à sua frente, virado para um espelho dos grandes.

Di-lo de forma calma e descontraída. Porque esse é o Jorge “puro, transparente e sempre sorridente”, e não o Jesus que berra e gesticula quando o Benfica joga. “Não tem nada a ver com a imagem que tem no banco, durante o jogo”, garante quem corta o cabelo a Jorge, e, de Jesus, apenas conhece o que vê pela televisão. Mário Costa tem 53 anos e há mais de 10 que também tem a confiança de Jorge Jesus. “Acho que lhe comecei a cortar o cabelo quando ele estava no Vitória”, suspeita, rebobinando a cassete até 2002/2003, a única época que o treinador passou em Guimarães. Foi aí que começou esta relação.

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Apareceu do nada, depois de a mulher de Jorge Jesus lhe perguntar se podia “cortar o cabelo ao marido”. Não havia como rejeitar e, por isso, Mário disse “claro que sim”. Não fazia “a mínima ideia” de quem se tratava, mas reconheceu-o assim que o viu. Percebeu “logo” que era treinador de futebol e lembra-se que, na altura, “vestia todo de preto porque tinha perdido a mãe” há pouco tempo. “Era dessa maneira que sentia o luto”, resume. A experiência correu bem, tão bem que Jesus foi reaparecendo e ainda hoje continua a aparecer. Muita coisa se passa pelo meio: o treinador sai de Guimarães, passa em Moreira de Cónegos, dá um salto a Leiria e, em 2006, aterra em Lisboa, para ajudar o Belenenses. Mário Costa também muda de sítio. Em 2007 chega onde está hoje: ao cabeleireiro que tem no bairro de Campo de Ourique, na capital.

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É lá que o cabelo de Jorge Jesus passa do branco de outrora para o grisalho atual. É lá onde o treinador vai sem vir de longe, porque há seis anos que vive perto do Seixal, na outra margem do rio Tejo. E é lá que Mário Costa já está quando, em 2009 e 2014, Jorge é campeão nacional com os encarnados. Mas Mário não consegue esmiuçar, ao certo, em que dia da semana costuma ter Jorge Jesus à mercê das suas tesouradas: “Não tem uma hora fixa. Ou vem ao final do dia, depois do treino, ou numa folga, a uma segunda-feira, depois de um jogo.” Mas o cabeleireiro sabe que, nos últimos tempos, os hábitos mudaram. “Agora vem mais vezes, porque usa o cabelo mais curto. Talvez a cada mês e meio, por aí. Quando deixava crescer o cabelo é que se esticava um bocado”, confessa, antes de admitir outra coisa à boleia de uns risos — sim, o treinador do Benfica pinta o cabelo e “dá-lhe um toquezinho diferente”.

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O espaço é moderno e amplo, bem maior do que a impressão que dá à entrada. Não é estranho que por ali apareçam caras conhecidas — quando entramos e perguntamos se acertamos no sítio onde o treinador do Benfica corta o cabelo, Mário Costa ainda está a tratar de Maria Cavaco Silva, mulher do Presidente da República. Mas há mais. “Tenho amigos que jogaram à bola, também são meus clientes e, por coincidência, também jogaram no Benfica. São o Zé Carlos, o César Brito e o João Manuel Pinto”, enumera. Cada um podia chegar, sentar-se, cortar o cabelo e ir embora, mas uma ida ao cabeleireiro é mais que isso.

Há sempre conversa pelo meio e já foram muitas as palavras que Mário trocou com Jorge. “Gosta de falar e não sinto que ele fique chateado se puxar a conversa do futebol. Às vezes nem estou a puxar a conversa e é ele próprio a falar disso. Por vezes até me arranja bilhetes para ir ver a bola e pronto, falamos sobre isso. Até costuma perguntar: ‘Então, foste à bola?’. Depois há aquelas inconfidências que a gente vê, ouve ou lê, e às vezes também lhe pergunto se é verdade. E ele responde-me“, assegura. O cabeleireiro repara e tem a certeza de que o treinador, mesmo quando não está a treinar, “vive imensamente” a profissão que tem. “O Jorge às vezes até traz o iPad para ver o que os outros fazem ou deixam de fazer. Está sempre a pensar em futebol, vive aquilo a 1000%”, descreve, sem poupar elogios a alguém que está “sempre bem-disposto e sorridente”.

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E o homem que vai com quase seis anos contados a dar ordens no Benfica pouco costuma desviar-se deste semblante. As clientes — porque o cabeleireiro de Mário é sobretudo para senhoras — agradecem. “Pedem-lhe fotografias e autógrafos e ele está sempre disponível. Sempre, sempre, sempre. É super acessível e simpático. As pessoas quando o conhecem até ficam admiradas por ser uma pessoa muito simples e nada vedeta. Mesmo nada”, garante, bem ciente de que o feitio risonho do treinador também se deve ao pouco que sofre em campo: “Felizmente para ele e para mim, que sou do Benfica, raramente perde.”

Os números provam que Mário fala verdade, mesmo que, de vez em quando, as derrotas apareçam. “Quando perdeu o título para o Porto e se ajoelhou lá em cima, aí claro que apareceu mais em baixo”, diz, recuando dois anos até ao momento em que Jesus e o Benfica sucumbiram ao pontapé de um brasileiro chamado Kelvin que, à penúltima jornada, lhes tirou um campeonato. Nessa temporada, a tal dos últimos minutos malditos que roubaram três canecos aos encarnados (liga, Taça de Portugal e Liga Europa), Jorge Jesus não saiu do clube.

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Ficou e foi ficando, mas poderá chegar o dia em que o treinador decida ir aventurar-se para o estrangeiro. “Às vezes até comento isso com ele e digo-lhe: ‘Ó Jorge, se um dia te fores embora depois eu vou lá ver um jogo’. E ele diz: ‘Claro que vais!’”, conta quem, além de torcer para que esse dia não chegue, acredita verdadeiramente que esse nunca vai chegar. Porque, em Jorge, o cabeleireiro vê “uma pessoa muito agarrada à família, aos amigos e às pessoas de quem gosta”. É por isso que, justifica Mário, ainda hoje Jesus vai quase todos os dias à Amadora, onde nasceu, para ver velhas caras conhecidas e, sobretudo, para estar com o pai.

O cabeleireiro sabe disto e de muito mais, porque já muita conversa rolou entre os dois. A última aconteceu na passada semana, quando Jorge Jesus foi aparar o cabelo antes do jogo contra o Penafiel (4-0). Mário viu-o “calmo” e “sereno” e fez questão em dizer-lhe que “já faltava pouco”. Jesus estava “confiante”, mas “com os pés bem assentes na terra”. O amigo sabe porquê: “Já lhe aconteceu perder tudo, mas desta vez não.” E Mário Costa também sabe que quando sai de um jogo, Jorge Jesus “já está a pensar no próximo” porque “respira mesmo futebol”. Às vezes, suspeita, até “o vive em demasia”. Mas tanto ele como o treinador sabiam e sabem que basta uma vitória em Guimarães, no domingo, para o Benfica voltar a ser campeão. Como dizia Mário, já falta pouco.