Milhares de brasileiros vão voltar a sair à rua contra o governo de Dilma Rousseff. A manifestação, marcada para mais de 200 cidades brasileiras, irá estender-se a outros países, como Portugal e Argentina. Por trás da iniciativa estão os mesmos três grupos de manifestações anteriores — o Movimento Brasil Livre (MBL), o Revoltados Online e o Vem Pra Rua. Afinal o que é que os faz mover?

O MBL descreve-se como uma “entidade apartidária, composta por “adultos, adolescentes e idosos” e cujo principal objetivo é mobilizar os cidadãos brasileiros que defendem uma “sociedade mais livre, justa e próspera”.

“Somos brancos, negros, pardos, amarelos e até meio rosados; somos empresários, empregados, autónomos, estudantes e funcionários públicos; somos ricos, pobres, classe-média; somos homens e mulheres. Somos brasileiros”, refere o manifesto do movimento publicado no site oficial.

Entre as principais reivindicações do movimento, destacam-se a liberdade de imprensa, a liberdade económica, a separação dos poderes e a existência de eleições livres e idóneas, com um “processo eleitoral transparente e livre de coerções partidárias”.

Já os Revoltados Online, descrevem-se como “uma organização de iniciativa popular de combate aos corruptos do poder”, que defende ser necessário agir porque a indignação já não é suficiente. Formado em agosto de 2010, o grupo tem como objetivo “fazer o bem sem ver a quem”, uma vez que acredita que “o verdadeiro espírito da revolta consiste justamente em exigir a felicidade aqui nesta vida”.

O Vem Pra Rua trata-se de uma plataforma de “indignados” que quer servir de palco a todos os brasileiros. Através da organização de grandes manifestações, ordeiras e pacíficas, o grupo pretende “protestar contra o Governo, contra a falta de ética e contra as mentiras que são contadas diariamente e contra os políticos corruptos”, através da organização de grandes manifestações ordeiras e pacíficas.

No manifesto publicado no site oficial, o movimento descreve-se como sendo “a favor da democracia, da ética, da política e de um Estado eficiente e desinchado” e mostra-se contra qualquer tipo de violência ou extremismo. O seu objetivo é lutar por um Brasil mais justo, próspero, com valores sólidos e, acima de tudo, unido.

“Quando o Governo e os políticos agem apenas em interesse próprio, impedem o desenvolvimento deste Brasil que todos merecemos. Esta é uma distorção que cabe a nós, cidadãos brasileiros, corrigir”, refere o manifesto do Vem Pra Rua.

Ao MBL, aos Revoltados Online e ao Vem Pra Rua, junta-se este ano o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), de Aécio Neves, que convocou os militantes através de um anúncio divulgado através da televisão brasileira.

Juntos pelo fim do governo de Dilma Rousseff

Os principais alvos são os suspeitos do costume — o Partido dos Trabalhadores (PT) e Dilma Roussef, cuja popularidade caiu abaixo do nível registado por Collor de Mello, o único presidente brasileiro que foi afastado do cargo por causa de corrupção. Este impeachment ocorreu em 1992.

Visado é também o antecessor de Dilma, Luiz Inácio Lula da Silva, que recentemente apareceu associado aos escândalos de corrupção, estando sob investigação. De fora dos protestos de 16 de agosto ficou Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados envolvido no caso Petrobas e acusado de ter recebido 4,48 milhões de euros de suborno.

Carla Zambelli, porta-voz da Aliança Nacional dos Movimentos Democráticos, explicou ao Estadão que “a questão de Eduardo da Cunha não é central”. “O foco não é ele, mas vamos pressioná-lo para que admita os pedidos de impeachment que estão na Câmara”, acrescentou ao jornal brasileiro.

Um impeachment é um processo que visa impedir o exercício das funções governamentais. Este pode ser ser instaurado contra altos cargos do governo (como o presidente da república, governadores ou presidentes da câmara), acusados de infringirem os seus deveres constitucionais. É à Câmara dos Deputados que cabe decidir a instauração deste tipo de processo.

Fábio Ostermann, um dos líderes do MBL, corrobora a opinião de Zambelli e dos outros grupos contestatários. “Concordamos com o Vem Pra Rua e com o Revoltados Online de que o mote geral da manifestação deve ser realmente ‘Fora Dilma'”, disse à BBC Brasil, frisando que, “misturar as pautas”, é o que interessa ao PT, que quer transformar Cunha num “bode expiatório”.

“Claramente não está a funcionar. É importante saber quais são as prioridades neste momento. Se o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, tiver de acertar contas com a justiça e com a população, isso vai acontecer na hora certa. Não será certamente no dia 16 de agosto”, referiu Ostermann. O objetivo dos protestos de domingo é, assim, essencialmente um — derrubar o governo da presidente brasileira Dilma Rousseff.

Desde que Dilma subiu ao poder, em 2011, as manifestações têm-se sucedido umas atrás das outras. Em março de 2015, um protesto contra o impeachment da presidente reuniu em São Paulo cerca de 210 mil manifestantes, apesar de números divulgados pela Polícia Militar apontarem para cerca de um milhão.

À BBC Brasil, Marcello Reis, líder dos Revoltados Online, salientou que o foco da manifestação é o governo federal. “Não queremos meter o vagão à frente da locomotiva. Todas as conversas que tivemos com Cunha foram pela apresentação do impeachment. É um protesto específico pela saída da presidente, quer seja por impeachment, por revogação ou renúncia.”

“Acredito que o dia 16 vai mudar o quadro político, se for maior que os protestos de março. Os políticos têm medo do povo. De certeza que teremos novidades na semana seguinte. Ou o Cunha vai votar o impeachment ou a Dilma vai baixar a crista e renunciar”, acrescentou Reis.

Já Rogério Chequer, do Vem Pra Rua, defende que, apesar de os protestos terem como objetivo principal a queda do governo, estes devem atingir com mais força os membros do Partido dos Trabalhadores. “Acho que as críticas vão ser maiores em relação à maneira como os factos têm sido revelados e comprovados. O PT já foi condenado por um caso de 2005”, o chamado escândalo do Mensalão, que dizia respeito à de votos de parlamentares no Congresso Nacional do Brasil.

O caminho a seguir

Apesar de o objetivo comum ser derrubar Dilma Rousseff, os principais líderes dos movimentos não parecem ter chegado ainda a um consenso sobre o caminho a seguir depois. Marcello Reis não hesita em dizer que, caso o vice-presidente Michel Temer assuma o lugar de Dilma, também será pedido um impeachment.

Por outro lado, Fábio Ostermann, do MBL, defende que Temer seria a solução “constitucional”. “Temos de seguir a solução constitucional. Não acho que seja uma questão de apoiar Temer ou não. É o que temos, por causa da Constituição. Vamos respeitá-la”, disse o líder do MBL à BBC Brasil.

Apesar de acreditar que Temer é a melhor solução, Ostermann garante que o vice-presidente não tem o seu apoio. “Se me perguntar: ‘gosta do Temer? Apoia-o?’ Claro que não. Até porque foram as mesmas pessoas que elegeram Temer e Dilma. Mas temos o procedimento constitucional, que precisa de ser respeitado.”

Como pano de fundo de mais um protesto está a degradação da economia brasileira que entrará em recessão este ano, com o Produto Interno Bruto a encolher 1,5%, segundo estimativa do Fundo Monetário Internacional (FMI).