O jornal Folha de São Paulo divulgou nesta segunda-feira um comunicado do Instituto Datafolha que revê em baixa o número de manifestantes presentes neste domingo na Avenida Paulista, em São Paulo. De acordo com o instituto, o protesto reuniu 210 mil pessoas entre as 14h00 e 18h00 e o horário em que houve maior concentração de pessoas na avenida ocorreu às 16h00, quando 188 mil pessoas estavam no local. Este número contrasta com o resultado divulgado pela Polícia Militar (PM) do Estado de São Paulo, que havia divulgado que estiveram presentes um milhão de pessoas na manifestação.

A explicação para a diferença nas duas cifras está no uso de metodologias diferentes para o cálculo. A PM informou que utiliza uma ferramenta tecnológica com mapas e georreferenciamento, baseada em imagens aéreas. O número do último domingo incluiu ruas adjacentes à Avenida Paulista e adotou como parâmetro o cálculo de cinco pessoas por metro quadrado, conforme indicado pelo site G1. A Revista Época explicou que ainda foi levada em consideração a informação da companhia de metro da cidade de São Paulo de que a cada dois minutos chegavam 4 mil pessoas para o protesto.

A PM utilizou a sua conta no Twitter para divulgar o total de 1 milhão de manifestantes na Avenida Paulista às 15h40 do domingo, mas em seguida informou que não atualizaria mais o número, porque o helicóptero Águia que estava a ser utilizado na contagem foi deslocado para apoiar uma ocorrência de roubo de um caixa forte com refém na capital paulista.

Por sua vez, o Instituto Datafolha utiliza um sistema de medição da área ocupada a partir de um software de georreferenciamento terrestre. Primeiramente, foi feita a divisão em áreas menores da Avenida Paulista, por quadra e faixa, para o cálculo da densidade local, sem considerar as adjacências do local. Em seguida, foram aplicados questionários às pessoas presentes para a coleta de dados de perfil, opinião sobre temas relacionados à manifestação e horário de chegada no evento, de modo a calcular o número de participantes que estiveram ao longo de toda a manifestação, os horários de pico de ocupação e a taxa total de participantes, independente do horário em que estiveram presentes no evento. De acordo com esta metodologia, “a área de 135,5 mil metros quadrados da avenida [Paulista] suportaria 950 mil em sua aglomeração máxima“.

Esta não é a primeira vez em São Paulo que há divergência quanto à contagem do número de pessoas num evento público. A “Marcha para Jesus”, evento organizado por associações cristãs, reuniu em 2012 cerca de 500 mil pessoas na Avenida Paulista seguno a PM, enquanto a Datafolha falou em 335 mil. Em 2013, a Parada Gay de São Paulo reuniu 220 mil apoiantes da causa LGBT segundo o instituto, enquanto a Polícia Militar divulgou o número de 600 mil pessoas.

Em comparação com as manifestações ocorridas no Brasil em de junho de 2013, o maior número de pessoas reunidas na Avenida Paulista foi de 110 mil manifestantes. O recorde de manifestantes foi registado no dia 16 de abril de 1984, quando 400 mil pessoas foram à região da Praça da Sé como parte da campanha “Diretas-Já” durante a transição da ditadura para a democracia.

Perfil dos manifestantes

Protestar contra a corrupção foi o principal motivo que levou as pessoas à Avenida Paulista, na cidade de São Paulo, segundo a pesquisa realizada pela Datafolha. Entre os manifestantes entrevistados, 47% apontaram esta como a principal causa para ir à manifestação, enquanto 27% foram para pedir o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Outras razões citadas incluem protestar contra o PT (20%) e contra os políticos (14%). O instituto indica que a pergunta era de múltipla escolha e a resposta do tipo espontânea.

Quanto ao perfil socioeconómico dos participantes, 76% tem ensino superior e 41% declararam receber mais de 10 salários mínimos (no Brasil, o salário mínimo equivale a 230 euros).

Ainda de acordo com a sondagem da Datafolha, 82% dos entrevistados declararam ter votado no senador Aécio Neves (PSDB) na segunda volta da eleição presidencial de 2014, enquanto 37% manifestaram simpatia pelo partido tucano independente de ter votado no candidato. O artigo não cita as mesmas informações relativas a Dilma Rousseff ou a outros candidatos às eleições presidenciais de 2014.

Quanto à avaliação do governo Dilma, 96% dos manifestantes consideram-no “ruim ou péssimo”, enquanto 3% descrevem-no como “regular” e 0% dos entrevistados respondeu “bom ou ótimo”. O Congresso brasileiro teve um desempenho ligeiramente melhor: 77% avaliaram-no como “ruim ou péssimo”, 19% como “regular” e 3% como “ruim ou péssimo”.

Sobre o esquema de corrupção na Petrobras, 90% dos entrevistados afirmou que Dilma Rousseff sabia do assunto mas deixou correr, enquanto 9% disseram que ela sabia, mas não poderia fazer nada. Segundo o instituto, 0% dos entrevistados respondeu que acreditava que ela não tinha conhecimento sobre a corrupção.

Por fim, a maioria dos manifestantes (74%) participou de um protesto na rua pela primeira vez e a democracia foi defendida como o melhor sistema político para o país (85%), enquanto 10% disseram que em certas circunstâncias é melhor uma ditadura e 3% não se importam se é ditadura ou democracia.

A margem de erro da sondagem é de 5% e os números finais não consideram as casas decimais.