“Todas as campanhas têm o seu picantezinho, hoje também o há”. Foi assim que Passos começou por reagir, logo de manhã, às tentativas dos jornalistas de o questionar sobre a notícia da Antena 1 que dava conta de uma alteração à estimativa das imparidades do BPN nas contas da Parvalorem, feita em 2013 pela então secretária de Estado do Tesouro, Maria Luís Albuquerque. O picante vinha a propósito, já que a caravana da coligação tinha estacionado numa fábrica de produção de azeitonas, pickles e molho piri-piri em Mira, Coimbra. Mas o rótulo ficaria colado ao discurso de Passos e Portas durante todo aquele que viria a ser o dia de campanha mais entalado pelos números.

Com a campanha a andar em velocidade de cruzeiro agora que deixou a azáfama do norte e voltou, provisoriamente, ao centro do país, Passos e Portas passaram o dia a visitar fábricas e empresas das áreas agro-alimentar e tecnológicas. Primeiro, a Maçarico, onde Passos e Portas se entristeceram ao constatarem que as cenouras e os pepinos pequenos não eram produção nacional (“Ai não? Oh…”, diria Passos). Portas adora pickles, “de manhã, à tarde, à noite, a qualquer hora”, mas Passos adverte para a “azia” que isso pode causar. Azia? Mas quem tem azia costumam ser os perdedores… Afinal em que ficamos? Nada disso. “Não era nenhuma piada, era mesmo para alertar para o facto de as refeições terem de ser equilibradas”, responde Passos, tirando dos pickles o sentido político.

Depois do piri-piri, outra visita. Agora à Sulpasteis, em Arganil, onde, de bata e touca, os candidatos viram de perto a produção de chamuças, croquetes e pastéis de bacalhau. Depois, a fábrica de sofás e móveis Aquinos, uma das maiores da região. O objetivo, previsto no guião da campanha desde o início, é fazer, nesta fase, uma campanha positiva quando se está em terreno menos fértil para as hostes laranja e azuis. Por isso, em Leiria, Coimbra e Viseu, onde a comitiva estará até amanhã, vão-se as pessoas e ficam os números. Números do investimento, números das exportações, propostas para políticas activas de emprego, etc. etc. E, infelizmente para a coligação, números dos alegados prejuízos escondidos do BPN.

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A notícia sobre os prejuízos do ex-BPN só viria a ser comentada aos jornalistas perto da hora de almoço, durante uma visita a uma empresa bio-tecnológica de Cantanhede. E aí, depois de ter provado os pickles que Portas tanto adora e de ter visto parte do fabrico de piri-piri, Passos esclareceu que, afinal, “o picante do dia podia parecer mais picante do que de facto é”. Insinuando que a notícia a alegada alteração das contas fazia parte de um processo de “intenções” devido à proximidade das eleições, Passos garantiu que não houve “ocultação” de nada e que o Governo “não martelou as contas”, explicando que o que a agora ministra fez foi recomendar uma revisão de uma de uma estimativa que, na altura, “pareceu demasiado pessimista”. Passos teria feito o mesmo, diz, sublinhando tratar-se apenas de uma estimativa.

Justificação dada, o outro picante seria o número do desemprego revelado esta terça-feira pelo INE, que apontava para um aumento de 0,1 pontos percentuais face a agosto. Já preparados para a eventualidade de serem confrontados com essa pergunta, Passos passou a bola a Portas para responder. Assim é a divisão de tarefas entre a coligação. E Portas lá tentou apagar mais um fogo de números, desvalorizando a ligeira alta de agosto para valorizar a baixa global dos números do desemprego quando comparados, não com o mês passado mas com o ano passado.

O chapéus de Portas e a burra que mija para trás

“Olhem, vim para ver o mar e acabei a ser entrevistada”, ri-se a dona Leonor, que não contava que os candidatos da coligação Portugal à Frente, que por acaso são o primeiro-ministro e o vice-primeiro-ministro, tivessem a mesma ideia que ela: ir ver o mar. Mas tiveram. Entre a visita à fábrica de azeitonas e pickles em Mira, e a visita ao parque tecnológico Biocant, em Cantanhede, Passos tinha uma paragem obrigatória (mas não programada) em mente: a Praia de Mira, onde o líder do PSD passou algumas férias enquanto criança, no parque de campismo da vila. O cenário, praia com pouca gente e muitas gaivotas e o mar em plano de fundo, era propício à nostalgia e foi o que aconteceu.

“Lembro-me de ser garoto e de vir para aqui fazer as birras que os miúdos fazem nessas idades. A última que me ocorre é a do avião – vi um avião a passar e disse ao meu pai que queria um avião. O meu pai dizia ‘aquele avião vai para África’, mas eu insistia que queria um avião como aquele, e, como não me calava, ele teve mesmo de me arranjar um avião de plástico para brincar”, conta. Só que a birra de criança não acabaria ali. “Passado meia hora já tinha destruído as peças todas e já ninguém conseguia pôr o avião a voar”, ri-se. O rapaz teimoso, no entanto, já não mora aqui. “À medida que fui crescendo comecei a aumentar a minha habilidade para reconstruir as coisas”, nota, com uma pontinha de auto-reconhecimento.

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Mas adiante. Ou para a frente, que é o caminho. “Portugal à Frente! Portugal à Frente!”, ouvia-se exclamar alegremente uma senhora de idade que tinha parado junto à praia para ver Passos e Portas passar. “Portugal à Frente! Nunca para trás”, continuava, em jeito de claque solitária. “Ah!Ah!Ah! Isso mesmo! Sempre para a frente que para trás mija a burra!”, respondia Passos que entretanto, ouvindo a mulher, se juntara a ela para a cumprimentar no pequeno passeio à boleia da maresia.

Não eram muitas as pessoas que, dado o fator inesperado da visita, se tinham deslocado a Praia de Mira para cumprimentar o primeiro e o vice-primeiro-ministro. Mas uma das banhistas não quis desperdiçar o momento e, vendo a comitiva ao fundo, saltou da toalha e tratou de correr até lá para “não perder a oportunidade”. Beijinhos a Passos, beijinhos a Portas e um recado do líder do CDS na despedida: “Faça ai um bocadinho de campanha por nós, ok?”. Disse que sim, mas, assim como assim, “hoje há cá pouca gente”.

Número suficiente, no entanto, para Paulo Portas, em versão rock star, receber uma proposta irrecusável de uma popular da vila, de nome Rosa Camarinha. “Paulo Portas dê-me o seu chapéu!”. O pedido foi feito mais do que uma vez, e a insistência foi tanta que quase venceu o apego que o líder centrista tem ao chapéu que o acompanha em todas as visitas da campanha. Dois dedos de conversa e assinou-se o acordo ali mesmo: “Fazemos assim, dá-me o seu número de telefone e no final da campanha dou-lhe o meu chapéu, combinado?”. Combinadíssimo. Rosa Camarinha saiu de barrete enfiado, mas satisfeita. Acredita na promessa?, perguntamos. “Acredito, ele nunca falha”.