Os ataques aéreos russos iniciados na quarta-feira na Síria vieram apenas confirmar a complexidade da guerra que se arrasta há mais de quatro anos naquele país. A Rússia, que é o maior apoiante a nível internacional do regime de Bashar al-Assad, diz que ataca o Estado Islâmico. Mas os EUA negam que os alvos tenham sido esses e aventa a possibilidade de serem sim forças da oposição democrática. Leia as cinco questões que, para já, convém saber:

  • O que é que se passou no dia 30, o dia do início dos bombardeamentos russos?
  • A Rússia foi o primeiro país a bombardear o Estado Islâmico?
  • Porque é que a Rússia começou por bombardear o Estado Islâmico?
  • A Rússia está a agir a pedido de Bashar al-Assad? E conta com mais ajuda?
  • EUA e Rússia estiveram reunidos ontem. Há sinais de uma cooperação no futuro?

O que é que se passou no dia 30, o dia dos bombardeamentos russos? 

Horas depois do Presidente da Rússia, Vladimir Putin, ter conseguido o apoio do seu parlamento para fazer ataques aéreos na Síria, vinte caças com o patrocínio de Moscovo sobrevoaram os céus de Homs, uma cidade no centro-litoral do país, e bombardearam vários alvos. É a partir daqui que as leituras do que se terá passado divergem.

Primeiro, os russos. O ministério da Defesa de Moscovo garantiu que atingiu oito alvos do Estado Islâmico, nomeadamente armazéns de armamento, munições e de combustível, tal como postos de comunicação. “Os caças russos não usaram armas contra infraestruturas civis ou zonas próximas”, garantiu o porta-voz do ministro da Defesa da Rússia na quarta-feira.

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Pouco tempo antes, Putin voltou a sublinhar a sua intenção de fortalecer o regime de Bashar al-Assad e debilitar os que se lhe opõem, aos quais, para discórdia da comunidade internacional, cola o rótulo do terrorismo: “Não há outra solução para a crise na Síria além do fortalecimento das estruturas do governo efetivo e sem lhes dar ajuda na luta contra o terrorismo”. E já na quinta-feira o diretor do comité do parlamento russo para os assuntos internacionais escreveu no Twitter: “A ‘oposição moderada’ é em grande parte um mito inventado pelos EUA. Os seus combatentes não estão a combater o Estado Islâmico, juntam-se à al-Qaeda e disparam contra a embaixada russa. Isso é moderação?”.

Depois, a oposição democrática da Síria. O Presidente da Coligação Nacional da Síria, o principal órgão da oposição ao regime e que atualmente está exilado, Khaled Khoja, reagiu prontamente aos bombardeamentos com a informação de que estes terão matado 36 civis. Além disso, Khoja escreveu no Twitter que, ao contrário do que a Rússia anunciara, a zona afetada pelo raide não era do domínio do Estado Islâmico e que nele se encontram membros do Exército Sírio Livre e outros grupos rebeldes que são apoiados pelos EUA.

Por fim, os EUA. As reações de Washington alternaram entre dedos apontados e alguma prudência. “Parece que [as tropas russas] estavam em zonas onde não havia nenhum grupo do Estado Islâmico”, afirmou o secretário de Estado da Defesa norte-americano, Ashton Carter. A prudência partiu do secretário de Estado norte-americano, responsável pela política externa dos EUA, John Kerry, que, ao criticar a Rússia, também abriu caminho a uma futura colaboração com Moscovo no âmbito da Síria. “Se as ações recentes da Rússia representarem um compromisso genuíno para derrotar o Estado Islâmico, então nós saudamos o gesto e encontraremos uma maneira de multiplicá-lo”, começou, para depois contrapor: “Mas não devemos, e não vamos, confundir a nossa luta contra o Estado Islâmico com apoio por Assad”.

A Rússia foi o primeiro país a bombardear o Estado Islâmico?

Não. Os primeiros ataques aéreos estrangeiros foram levados a cabo por um coligação formada em setembro de 2014 que tem à cabeça os EUA e que inclui o Reino Unido, o Canadá, a Arábia Saudita, o Catar, o Bahrein, os Emirados Árabes Unidos e a Jordânia. Mais tarde juntaram-se a Austrália, a Dinamarca, a Bélgica, Marrocos e a Holanda.

Os EUA são a principal fonte dos bombardeamentos e a maior parte dos restantes países atua através de voos de reconhecimento e de pesquisa. Dada a dimensão geográfica do Estado Islâmico, os ataques por parte desta coligação militar são feitos tanto na Síria como no Iraque.

Além disso, os EUA são responsáveis pelo treino de grupos rebeldes na Síria, aos quais também dão armamento. Ainda recentemente, em setembro, o exército norte-americano admitiu a hipótese de munições e veículos fornecidos por Washington aos rebeldes terem sido extorquidos pelos radicais islamistas da al-Nusra, aliados da al-Qaeda.

Além disso, de forma isolada, a França começou a bombardear posições do Estado Islâmico no domingo (27 de setembro) após evocar “legítima defesa”.

Porque é que a Rússia começou por bombardear Homs?

Quatro anos e meio depois do início da guerra na Síria, o regime de Bashar al-Assad já só tem o controlo do litoral do país. Ainda assim, é lá que se concentra a maior parte da população daquele país, uma vez que o interior é sobretudo deserto e conta com pouca população. Apesar disso é importante referir que Aleppo, que segundo números de antes da guerra era a cidade mais populosa da Síria com 3,2 milhões de habitantes, já não está sob a alçada de Assad e é agora disputada por vários grupos, incluindo o Estado Islâmico.

Homs, que fica mesmo no centro do litoral sírio, é um ponto importante e um daqueles que são mais disputados entre o regime e os grupos da oposição democrática ou forças islamistas. Se Assad perder o controlo de Homs, a capital do país, Damasco, fica praticamente isolada do resto do território controlado pelo regime, cujo bastião é Latakia (para onde a Rússia levou caças e tanques de guerra em meados de setembro) e que também tem bastante peso em Tartous, onde existe uma base naval russa.

Assim, e partindo do pressuposto defendido por Vladimir Putin de que para combater o Estado Islâmico é preciso “fortalecer” Assad, elimina a oposição em volta de Homs é essencial para conseguir o controlo efetivo daquela cidade.

A Rússia está a agir a pedido de Bashar al-Assad? E conta com mais ajuda?

Sim, a atual intervenção da Rússia está a ser feita após Bashar al-Assad ter feito um pedido formal ao seu homólogo russo, Vladimir Putin. Putin é, de longe, o maior aliado internacional de Bashar al-Assad — mas não é por isso que não há outros a juntarem-se nesta iniciativa. Poucos dias antes da assembleia geral das Nações Unidas, a Rússia anunciou ter chegado a um acordo com o Iraque e com o Irão assegurando cooperação nas operações militares vindouras.

Em declarações à Tass, uma agência noticiosa detida pelo governo russo, a presidente da Câmara Alta da Duma disse que a ação russa foi feita após um pedido das “autoridades legítimas da Síria”.”Não nos podíamos recusar ajuda ao Presidente da Síria, Bashar al-Assad, e continuar a ver como as pessoas morre, como são mortas mulheres e crianças como, locais históricos e culturais têm sido destruídos.”

Esta avaliação da guerra na Síria é, porém, praticamente exclusiva da Rússia no que diz respeito aos maiores agentes da política e geopolítica mundial, tal como das ONG, onde a condenação ao regime de Assad é alta — sem que, porém, isso signifique uma defesa do Estado Islâmico. Ainda assim, um relatório da Rede Síria dos Direitos Humanos somente no mês de agosto indicam que a maior parte das mortes na guerra da Síria é causada por forças do regime  e não pelos Estado Islâmico. Dos 2040 que morreram em agosto, 79,5% foram vítimas do exército leal a Assad, contra 11,6% do Estado Islâmico. 40%  do número total de mortos eram mulheres e crianças.

EUA e Rússia estiveram reunidos ontem. Há sinais de uma cooperação no futuro?

Há uma diferença substancial entre a avaliação que Washington e Moscovo fazem da guerra na Síria. Enquanto os EUA são a favor da queda do regime de Bashar al-Assad, a Rússia acredita que este é o legítimo Presidente da Síria. A continuidade ou não do regime foi a questão inicial da guerra que começou em 2012, mas a esta juntaram-se-lhe outras não menos importantes. Em que é que se divide a oposição? Trata-se de forças a favor de uma democracia ou trata-se antes de grupos terroristas islamistas?

A seguinte infografia do Wall Street Journal demonstra a complexidade do conflito na Síria, onde são expostas (e nalguns casos sobrepostas) as intenções dos EUA, da Rússia e do Irão:

https://twitter.com/mrjohncrowley/status/649494136853274624/photo/1?ref_src=twsrc%5Etfw

Apesar das várias divisões, existe um ponto que não é de somenos onde os três estão de acordo: a luta contra o Estado Islâmico. As diferenças começam, antes, no meios com que esta deve ser feita e em torno dos fins que a orientam.

Ontem, após os ataques russos e já com as acusações de que estes teriam matado civis em vez de membros do Estado Islâmico, o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Lavrov, e o secretário de Estado dos EUA, John Kerry, estiveram reunidos.

No final, juntaram-se para dar uma conferência de imprensa a dois, num pouco comum gesto de concertação. Primeiro falou Lavrov e depois seguiu-se Kerry — e apesar das diferenças no discurso de um e de outro que já seriam de esperar, houve algumas convergências na forma e conteúdo do que ambos disseram que podem ser indícios de desenvolvimentos para breve.

Lavrov falou na “necessidade de manter a Síria democrática, unida e secular”, evocando apenas “diferenças” na estratégia para chegar a uma “solução política”.

Ainda assim, Lavrov referiu que há um acordo “em relação a alguns passos a serem dados em breve juntamente com outros países e com as Nações Unidas para criar condições para serem aplicadas opções de promoção de um processo político“.

A nível militar, Kerry refere que ambos concordam que”é imperativo que se encontre uma solução para este conflito de maneira a que se evite um crescimento do mesmo e para impedir que ele seja intensificado por forças que estão fora do controlo de qualquer um”. Lavrov referiu que a coligação militar russa e a norte-americana vão “estabelecer canais de comunicação para evitar incidentes”.

Por fim, Kerry repetiu as palavras de Lavrov, sublinhou a necessidade de “manter a Síria inteira, unida, secular e democrática”, algo em que as duas superpotências concordam. “Isto são concordâncias grandes e por isso agora vamos ter de trabalhar para chegarmos lá.”

https://www.youtube.com/watch?v=QD14qIHpXZQ