Não foi uma maioria “grande” nem “boa”, nem “estável”, nem “inequívoca” como Passos Coelho e Paulo Portas repetidamente pediram durante a campanha eleitoral – tendo sempre, ainda assim, o cuidado de proibir a palavra “absoluta” para não elevar a bitola ao máximo. Um dos objetivos foi cumprido, o outro nem tanto. “Não conseguimos chegar como queríamos a uma maioria no Parlamento”, admitiu Passos. “Saberemos ler essa dupla circunstância, com abertura e compromisso”, disse Portas. E as portas abriram-se ao PS, com Passos a deixar claro que iria “procurar entendimentos” com o único partido de matriz europeísta que fica com assento no Parlamento.

Foi um discurso de vitória, mas não tanto. Foi com “humildade”, palavra repetida duas vezes, que Passos se mostrou “disponível” para “procurar os compromissos indispensáveis para dar estabilidade às políticas nos próximos quatro anos” e, com isso, dialogar com o PS – o único partido para lá da maioria que se “filia numa opção europeia e respeita as regras da zona euro”. Passos foi mais longe no apelo aos entendimentos dizendo mesmo, ao jeito de bloco central, que, juntos, perfazem “mais de 70% do Parlamento”.

Depois de afirmar que, no dia seguinte às eleições, tanto PSD como CDS iriam reunir os órgãos nacionais para firmarem o “acordo de governação” que apresentarão ao Presidente da República, Passos deixou claro o que vai fazer a seguir: “tomarei a iniciativa no plano parlamentar de contactar o PS no sentido de procurar os entendimentos que são indispensáveis para prosseguir as reformas importantes para os próximos anos”, disse, colocando a da Segurança Social no topo da agenda.

Numa sala cheia no Hotel Sana, em Lisboa, onde nunca se gritou pelo PSD nem pelo CDS, mas sempre por “Portugal!”, Passos e Portas deixaram promessas de “recuperação dos rendimentos dos portugueses” e de pôr a austeridade “para trás”. “Estou convencido de que temos condições para atingir um plano superior de ambição para o nosso país”, disse Passos, confiante de que será possível governar mesmo que sem maioria absoluta.

Para isso, e para provar que os entendimentos não estão tão longe quanto isso, Passos enlencou logo à cabeça um conjunto de prioridades:

  • Recuperação de rendimentos, recuperação dos salários da função pública e alargamento às famílias numerosas de melhores condições em sede de IRS para que possam ver a carga fiscal aliviada;
  • Remover a sobretaxa de IRS, mas dentro de um caminho “seguro” de quem quer ser “progressista”;
  • Devolver o excesso fiscal que possa vir a ser arrecadado em sede de IVA e IRS até ao final do ano;
  • Combate às desigualdades sociais.

Paulo Portas também se juntou ao coro do parceiro de coligação para piscar o olho aos entendimentos agora necessários com o PS. Reconhecendo que os portugueses não deram maioria absoluta à coligação, Portas garantiu que iria ser possível governar e “honrar aquilo que o povo quis”. Mas isso implica, reconheceu, “um enorme esforço de abertura e de compromisso”. Com o PS, neste caso, que viu o país reconhecer que o “radicalismo” não serve para liderar um país.

A única vez que se falou em partidos individuais, PSD e CDS, foi pela voz de Paulo Portas para dizer que o CDS, à luz dos resultados já apurados, está em condições de ser a terceira força no parlamento, seja sozinho seja a par do Bloco de Esquerda. Portas reconheceu, neste ponto, o bom resultado do BE mas sublinhou que o aumento da representação bloquista não é comparável a fenómenos como o Podemos em Espanha ou o Syriza na Grécia.

“Tudo indica, à hora a que vos falo, que o CDS, estará em condições de, por si ou ex aequo, ser o terceiro grupo parlamentar, logo após o PSD e o PS”, disse Portas, pondo desta forma de lado a questão levantada há dias por Passos de que os dois partidos poderiam vir a formar uma bancada única no Parlamento se fosse caso disso. E fecharam com o hino nacional, mantendo a união em torno do país e não dos partidos da coligação.

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