Bastou a bolsa dar um ligeiro sinal quando Catarina Martins decretou a morte do Governo da direita, bastou um dia com a bolsa a descer. Alguns jornais fizeram capa com os números e culparam o Governo de esquerda que António Costa se dispõe a formar. O próprio líder socialista correu a falar aos mercados, depois das notícias sobre o envio de analistas a Lisboa. E na quarta-feira teve um encontro com o presidente da bolsa portuguesa, Luís Laginha de Sousa, para perceber como “aperfeiçoar a forma de passar a mensagem do seu partido junto dos investidores, de modo a tranquilizar” os mercados – como escreveu o Público.

Mas, afinal, o que estão a pensar os principais empresários, gestores e banqueiros portugueses do impasse político – e desta perspetiva de um Governo que junta PS, PCP e Bloco? Nos últimos dias, o Observador contactou dezena e meia desses responsáveis de algumas das principais empresas. A nota comum é de muita preocupação – e, na mesma medida, de ruidoso silêncio.

Cuidado com o financiamento, pedem empresários

Palha da Silva, presidente do Conselho de Administração da Pharol (ex-PT SGPS), está sobretudo preocupado com o que um governo de esquerda pode implicar para a economia. “A questão central é quem dá melhores condições para crescer e de obter recursos financeiros para o país”, diz ao Observador o homem que foi, também, mandatário da última candidatura de Cavaco Silva. O problema de qual vai ser o próximo Governo é, assim, “o de saber quem garante menor custo de capital, para as empresas e para o Estado, e de quem permite fazer mais investimentos sem entrar em loucuras orçamentais”.

E como é que um Governo que junte PS, PCP e Bloco pode ter impacto nas empresas – como a Pharol? “Também pela imagem que se tem no estrangeiro”, diz Palha da Silva, “de um governo que junta dois partidos eurocéticos. Só pode ter muito más consequências, pode provocar uma grande reviravolta, sobretudo pela imagem de risco que tem – com muitos efeitos sobre a economia”.

“Receio de que esta situação, à grega, seja uma tomada de poder por quem tem pouco interesse em cumprir as regras europeias, por mais que diga que tem”, diz Palha da Silva.

O empresário junta mais uma interrogação, já numa perspetiva política: “Essa solução vai ao arrepio da tradição em Portugal. O normal é que tenhamos um primeiro-ministro que tenha ganho as eleições”.

“Procupante, muito preocupante”, diz também Alexandre Soares dos Santos. O presidente do Conselho de Administração do grupo Jerónimo Martins diz que nem é tanto “pelo negócio” que se preocupa, “é mais como cidadão”. “É uma questão de respeito pela opinião dos eleitores”, diz ao Observador.

Concretizando: “O líder do PS está a inventar. Onde é que há uma maioria absoluta de esquerda? Os resultados eleitorais não disseram isso. Depois não venham dizer que as pessoas estão a afastar-se da política”, lamenta o empresário, um dos mais ativos na discussão política do país.

E porque não preocupado com os negócios do seu grupo? “A estratégia da Jerónimo Martins [dona do Pingo Doce] está muito mais dependente do estrangeiro do que do negócio em Portugal”, explica, “sobretudo da Colômbia e da Polónia”. “E cada vez mais será assim”. A resposta levanta uma outra questão: até que ponto os investimentos em Portugal se podem ressentir do Governo que vier?

E se para Alexandre Soares dos Santos António Costa “está a inventar”, para Daniel Bessa, director geral da Cotec e ex-ministro da Economia de António Guterres a “mudança drástica operada no comportamento” do PS pode romper a bancada socialista.

“A questão é particularmente sensível para os deputados eleitos pelo PS, querendo acreditar que alguns destes deputados não estarão de acordo com a mudança drástica operada no comportamento da direção do partido (seja no que se refere ao modo como está a lidar com o resultado das eleições legislativas seja no que se refere à solução política que está a tentar encontrar); acredito, por isso, que nem toda a bancada parlamentar do PS acompanhe a direção do partido numa solução dessa natureza“, alerta o economista.

Mesmo dizendo que, perante este impasse, tem tentado “manter a cabeça o mais fria possível“, Daniel Bessa não esconde que este cenário “poderá trazer consequências mais ou menos negativas, dependendo do tempo que durar e do seu desfecho. Positivas é que nunca serão, com toda a certeza”.

Julgo não haver nenhum português consciente que não esteja preocupado com a atual clima político”, diz Daniel Bessa, líder da COTEC.

E se esse desfecho resultar mesmo num governo socialista apoiado por Bloco de Esquerda e PCP? O ex-ministro da Economia de Guterres faz questão de sublinhar que não encontra nenhum “impedimento constitucional” nesta solução, mas não deixa reconhecer que há alguma “instabilidade” assente “no facto de os partidos vencidos nas urnas, no passado dia 4 de Outubro, terem encarado o resultado das eleições de forma diferente daquela a que nos tinham habituado nos 40 anos que levamos de democracia política, no nosso País”.

Posto isto, como reagirão os mercados? É de admitir que “os mercados reajam, não tanto à situação política interna mas a dúvidas que se levantem sobre a possibilidade de essa situação política interna conduzir a orientações de política que agravem o endividamento e reduzam as hipóteses de cumprimento“, afirma Bessa.

“No que se refere ao nosso País”, continua, “a ‘pedra de toque’ está na disposição para cumprir, ou incumprir, o Tratado Orçamental – sendo que pelo menos dois dos três partidos envolvidos nesta solução governativa alegadamente de esquerda sempre se pronunciaram contra o cumprimento do referido Tratado Orçamental. É essa a questão, não o facto de o Governo ser mais ou menos de esquerda”. É isso que pode agitar os mercados e fazer tremer a economia portuguesa, admite Daniel Bessa.

Para outro empresário, Patrick Monteiro de Barros, ainda há outra solução: é tudo uma questão de chamar os partidos habitualmente responsáveis pela governação à “responsabilidade”. “Espero que os partidos mais importantes em Portugal, neste caso a coligação e o PS, estejam à altura das responsabilidades para a qual foram eleitos”, limitou-se a dizer questionado pelo Observador. “É o país que está em causa”, completa.

Na banca, enorme expectativa (e algum medo)

O recado é semelhante ao que deixa Faria de Oliveira, hoje presidente da Associação Portuguesa de Bancos – mas falando a título pessoal -, numa reação ao Observador, deixa um alerta – sobre a estabilidade política necessária e sobre a potencial reação dos agentes financeiros a soluções disruptivas: “É essencial que Portugal prossiga o caminho da recuperação económica e da consolidação do esforço conjunto realizado desde 2011, no respeito pelo enquadramento vigente na União Europeia. A estabilidade política e, não menos importante, a estabilidade financeira são, por isso, factores fundamentais para o desenvolvimento do País neste momento“.

Vivemos numa economia de mercado, o que significa, recordo, que os agentes económicos actuam e tomam decisões de acordo com regras de racionalidade, de percepção de risco e de confiança”, alerta Faria de Oliveira, ex-presidente da CGD.

Nos maiores bancos nacionais, a preocupação é idêntica – mas, curiosamente, não é unânime. Um dos presidentes executivos ouvido pelo Observador – preferindo não falar em ‘on’ – não deixa de apontar as consequências “positivas” que vê como possíveis de um processo que junte PCP, Bloco e PS num só Governo: “Numa democracia madura, é positivo que toda a população se sinta representada no Governo, em alternância. A longo prazo é bom, porque cria convergência de políticas”.

Como? “Quem passa pelo Governo é sempre mais pragmático”, justifica este líder de um dos bancos cotados do país. “O mundo tem vindo a mudar, já não é o mesmo desde 1975 – e os partidos também não”, confia um presidente de um banco.

Mas… há um mas. “Estou a dar de barato que não teremos um Governo que ponha em causa o Tratado Orçamental, a presença no euro. Mas o líder do PS é pragmático – e percebo que seja difícil não aproveitar a oportunidade para chamar os dois partidos para a governação. Assim, falam com a Comissão Europeia, falam com o governo alemão… Uma boa maneira de saber as dificuldades é estar lá dentro”.

E problemas para a banca? Haverá? “É claro que um governo à esquerda preocupa sempre mais os investidores, sobretudo no início. Mas a prática política pode aliviar essa preocupação”, anota a mesma fonte.

Se a regra na banca é o silêncio, a concordância com o cenário PS+PCP+BE nem por isso. Um outro presidente de um banco cotado no PSI20 mostra-se bastante mais receoso, numa conversa (também em off) com o Observador. “É um cenário que não faz qualquer sentido”, diz.

“Fico muito preocupado com os mercados e com o risco de Portugal – sobretudo com o capital. Portugal estava à beira de ter ‘investment grade’ [ou seja, de sair de rating de lixo] e isto vai causar uma perturbação nos mercados. Tudo isto é mau”, anota, “mas ainda não está fechado – e no limite depende do que fará o Presidente da República”.

A questão não é tanto juntar três partidos de esquerda, explica este banqueiro. “É que é um governo que não resiste à primeira prova de fogo política”. E, já agora, com um problema de legitimidade: “Era interessante perceber se estes três partidos teriam tido uma maioria se tivessem ido juntos a votos” – questiona.

Um “PREC” na energia, um “vamos ver” no turismo

Essa é também a preocupação do presidente da Associação Portuguesa de Casinos, Jorge Armindo, que está apreensivo e “na expectativa” perante o fator novidade e perante a “incógnita” que diz reinar sobre o país. Ao Observador, o empresário que é também presidente da Amorim Turismo, mostrou-se “preocupado” com as repercussões que possa vir a ter para a economia e os negócios um governo mais à esquerda do que qualquer outro que já houve em Portugal.

“O PS nunca esteve tão ligado à esquerda como agora” e essa perspetiva de novidade, se se confirmar o cenário de um governo PS apoiado pelo BE e o PCP, diz, “não cria um ambiente favorável ao nível dos negócios”, teme Jorge Armindo

E não haverá factores positivos? Jorge Armindo admite que sim: o setor do turismo é “relativamente consensual internamente”. E uma baixa no IVA da restauração, muito pedida pelo setor e defendida à esquerda, teria efeitos positivos no ramo. Mas é a olhar para o panorama mais global que o empresário mais desconfia. Sobretudo disto. “Numa primeira fase, de incerteza e de novidade, os investidores estrangeiros podem recear apostar em Portugal” e preferir, nessa base, virar-se para outro lado, diz, admitindo em todo o caso que a reação dos mercados e dos investidores virá depois, em função da “prática” do novo Governo. Aqui entram as metas europeias. “Tem de haver segurança nas metas orçamentais” e se assim for, “tudo se ajusta”, acredita.

Nuno Ribeiro da Silva, presidente da Endesa Portugal e antigo secretário de Estado da Energia de Cavaco Silva, vê com maior dramatismo o impasse na formação de governo e, sobretudo, com a hipótese de PS, Bloco e PCP formarem um governo de esquerda. Um “exotismo” vindo diretamente dos tempos do “PREC”. “Este tipo de situação é extremamente negativa para o país. Ainda no outro dia estava num almoço da embaixada de Espanha, com os principais empresários espanhóis, e não se falava de outra coisa”, diz.

Ao Observador, o empresário lembra que o país precisa “de investimento estrangeiro como de pão para a boca” e, para o bem ou para o mal, o “capital não têm paixões”.

“As empresas e as instituições europeias e internacionais não são parvas. Não adormecem e acordam a pensar nos problemas de Portugal”, continua Nuno Ribeiro da Silva. Se cheirarem a instabilidade “dizem: ‘Boa sorte!’” e procuram outros destinos. Isso vai conduzir à “fuga de capital e de investimento para outros países. Não estamos em condições para esses devaneios”, avisa Nuno Ribeiro da Silva.

“Ainda há bem pouco tempo o Bloco e PCP diziam que as empresas é que tinham de pagar a crise, que a legislação laboral tinha de ser mais rígida, que os principais setores estratégicos tinham de ser nacionalizados”. Com esse caminho, Portugal arriscar-se-ia a transformar-se na “Cuba da Europa”.

As aparentes cedências de Catarina Martins e Jerónimo de Sousa servem apenas para suportar um “acordo de ocasião” e “oportunista” que não vai mudar nada. “As pessoas, as empresas, as instituições internacionais não são parvas. BE e PCP não vão alterar as suas convicções profundas”.

Soluções possíveis? A mesma que já tínhamos ouvido de outros empresários e gestores: deve “haver um acordo entre a coligação e o PS” – e os socialistas devem  “reclamar [naturalmente] pontos da sua agenda”, ainda assim, “de forma justa e ponderada. É preciso não esquecer que não foi o PS que ganhou as eleições”, lembra o presidente da Endesa Portugal.

Sim, os patrões querem “Bloco Central”

António Saraiva, presidente da Confederação Empresarial de Portugal (CIP), não tem dúvidas: a melhor solução para o país tem de passa por “um bloco governativo estável [entre a coligação e o PS], duradouro e sustentável”, pondo de lado o que cada um quer e colocando o País “à frente de outras lógicas”.

“Neste momento não é uma questão do que se quer, mas uma questão de entendimento e se colocarmos o País à frente de outras lógicas, sendo que a negociação é o aproximar de vontades, haverá vontade para entendimento e para encontrar um governo saído desta lógica que 70% dos portugueses exprimiram essa vontade”, afirmou António Saraiva, citado pela agência Lusa.

Então e a hipótese “PS, Bloco e PCP”? António Saraiva desconfia. “Não sei se outras soluções, sendo matematicamente compreensíveis, possam dar essa garantia de futuro de estabilidade governativa“.

Já o presidente da Confederação do Comércio e Serviços de Portugal (CCP), João Vieira Lopes, não foi tão explícito, destacando apenas a necessidade de um entendimento em torno de uma solução que dê estabilidade ao país.

À Lusa, Vieira Lopes disse apenas que espera “que o facto de haver neste momento uma situação política bastante aberta melhore a capacidade de os governos darem mais atenção aos parceiros sociais e ao que eles reflectem porque na prática são grandes reflexos daquilo que pensa a sociedade civil”, disse Vieira Lopes.

Ilustração Andreia Reisinho Costa